Após chacina em MT, Brasil já tem ao menos 19 mortes no campo em 2017

Bernardo Barbosa*

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/Secretaria de Segurança-MT

    Nove corpos foram encontrados em assentamento a cerca de 150 quilômetros de Colniza

    Nove corpos foram encontrados em assentamento a cerca de 150 quilômetros de Colniza

A chacina na zona rural do município de Colniza (MT), que deixou nove mortos na quarta (19), elevou para 19 o número de assassinatos decorrentes de conflitos no campo registrados pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), órgão ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) neste ano.

Segundo informações da CPT, os assassinatos ocorreram em mais cinco Estados, além do Mato Grosso: Alagoas, Maranhão, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rondônia. Nos quatro primeiros, houve uma morte em cada. Já em Rondônia, foram registradas seis mortes.

Rondônia foi justamente o Estado em que os conflitos agrários foram mais sangrentos em 2016, de acordo com pesquisa da CPT divulgada este mês. No ano passado, a unidade da federação foi palco de 21 dos 61 assassinatos registrados pela entidade em todo o país. No Mato Grosso, houve duas mortes.

A chacina acontece na semana que marca 21 anos do massacre de Eldorado dos Carajás (PA),quando 19 sem-terra foram mortos e mais de 70 ficaram feridos em uma operação truculenta e atabalhoada, ordenada pelo governo do Pará e executada pela Polícia Militar.

Mais de 6 mil famílias em áreas de conflito no MT

Ainda segundo o levantamento da CPT correspondente a 2016, 6.601 famílias do Mato Grosso viviam em 41 áreas de conflito agrário. O Estado era o sexto no ranking nacional de conflitos, atrás de Rondônia (7.039 famílias), Amazonas (8.167), Bahia (14.918), Pará (18.167) e Maranhão (18.167). No Brasil, eram 121.552 famílias em áreas de conflito por terra.

Com área de 27 mil km² --aproximadamente a mesma do Estado de Alagoas-- a cidade de Colniza fica a 1.065 quilômetros de Cuiabá, a capital mato-grossense. É marcada por conflitos fundiários, como toda a região do noroeste do Mato Grosso. Pequenos e grandes agricultores, extrativistas, madeireiras, grileiros e indígenas disputam o espaço. A zona rural do município é de difícil acesso, com infraestrutura precária de transportes.

Em 2015, segundo monitoramento do Instituto Imazon, Colniza liderou o ranking de desmatamento de toda a Amazônia Legal, área que abrange a região Norte, o Mato Grosso e parte do Maranhão. No último levantamento do Imazon, com dados de fevereiro e março deste ano, a cidade era a décima onde mais se desmatava.

Segundo a CPT, em 2007, dez trabalhadores foram torturados e sequestrados por um grupo de fazendeiros da região. Eles atuariam em conjunto com uma organização envolvida na extração de madeira ilegal justamente na área de Taquaruçu do Norte.

Polícia investiga chacina que deixou 9 mortos em assentamento

O que se sabe sobre a chacina

Segundo a Polícia Civil, ao menos nove pessoas foram assassinadas na quarta (19) na região de Taquaraçu do Norte, em Colniza, em disputa por terra. A suspeita é de que os autores do crime sejam capangas de fazendeiros da região. Dois sobreviventes contaram a policiais que os atiradores estavam encapuzados.

Segundo a Secretaria de Segurança do Estado, todas as vítimas são homens e adultos. Eles foram mortos por tiros ou facadas.

Cerca de cem famílias moram no local, que é de difícil acesso. As estradas estão alagadas e em alguns pontos só é possível atravessar de barco. Não há sinal de telefone. Nessa sexta-feira (21), três peritos foram enviados de helicóptero para a região.

De acordo com a CPT, em 2004, 185 famílias foram expulsas de um assentamento em Taquaruçu do Norte por homens fortemente armados, que teriam destruído suas plantações. O suspeito pela expulsão dizia ter comprado as terras. A Justiça concedeu reintegração de posse em benefício de uma cooperativa agrícola.

(Com Estadão Conteúdo)

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