Professor acusado de racismo deixa disciplina do curso de Engenharia da UFRJ

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Reprodução/Centro Acadêmico de Engenharia

    Alunos da Engenharia Eletrônica denunciaram o professor após comentário racista

    Alunos da Engenharia Eletrônica denunciaram o professor após comentário racista

Após ser acusado por alunos de racismo, um professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) não dará mais aulas em disciplina da qual era o docente responsável no curso de Engenharia Eletrônica.

A substituição chegou a ser pedida pelo CaEng (Centro Acadêmico de Engenharia) à direção da Escola Politécnica. No entanto, segundo a direção da escola, o professor deixou a disciplina Rede de Computadores I por iniciativa própria. Ele continuará, entretanto, com seus projetos de pesquisa vinculados ao CNPq e também atuando na pós-graduação.

Em reunião com diretores, os integrantes do CaEng também solicitaram a abertura de um processo administrativo contra o professor, mas a direção da Escola Politécnica não atendeu a reivindicação. Em entrevista ao UOL, o diretor João Carlos Basilio minimizou as declarações do professor.

"Com o governo Lula houve abertura de acesso de pessoas à universidade que até então não tinham condições de entrar. Muitas delas de classe social baixa. Essas pessoas estão acostumadas a serem encurraladas, oprimidas e aqui elas têm voz. Tudo passou a ser mais discutido hoje em dia."

Segundo denúncia do centro acadêmico em março passado, o professor teria relacionado ladrões a pessoas negras. "Na rua como você detecta um ladrão? Primeiro você olha a cor", teria dito o docente segundo relato de estudantes. Ainda de acordo com os alunos, o professor complementou: "Se você tem um sistema de segurança onde só passa gente branca, quando passa um preto o sistema apita."

Segundo o diretor da Escola Politécnica, o professor alegou que a declaração foi descontextualizada. Na opinião de Basílio, o exemplo foi pertinente levando em consideração a alegação do professor.

"Ele estava explicando como se estabelece um procedimento para segurança de rede. No meio da aula, ele disse: 'Às vezes podemos fazer um protocolo errado, e baseado em equívocos, a gente pode tomar decisões erradas'. Aí, chegou o grande problema. Ele deu o seguinte exemplo: 'Imagina que estamos numa fila, vem um negro correndo e a gente acha que é um ladrão e decide sair correndo com medo. Isso é um é sinal de anomalia no sistema de defesa.'"

Professor nega ser racista

Em uma reunião entre representantes do centro acadêmico, diretores e coordenadores dos cursos da Escola Politécnica, o CaEng esperava que o professor fizesse um pedido de desculpas à comunidade escolar, o que não aconteceu. Ele contratou um advogado para acompanhar o caso.

Os estudantes também se frustraram com a resposta da Escola Politécnica, que até agora optou por promover um seminário obrigatório a todos os professores para que seja discutida a questão racial. Serão abordados assuntos como ética no ensino da engenharia, questões raciais e o novo perfil socioeconômico dos alunos da UFRJ.

A medida foi considerada insuficiente pelo CaEng. "Nós achamos essa ideia muito boa, talvez um primeiro passo rumo a não reprodução do racismo e não relativização dessa opressão. Mas, de fato, não achamos que seja uma medida suficiente e, diante de toda essa situação, o CaEng já está procurando todas as alternativas possíveis para que esse ocorrido não fique impune", diz o centro acadêmico. Na ocasião da denúncia, o centro acadêmico havia informado a intenção de buscar ajuda jurídica.

Na página do CaEng nas redes sociais, um estudante de Engenharia defendeu que o professor saísse da universidade direto para a delegacia. "Isso não merece nota de repúdio, não. Ele merecia sair da sala num carro de polícia."

A reportagem do UOL tentou contato com o professor, mas ele não foi encontrado para comentar a acusação.

Já a assessoria de imprensa da UFRJ disse que a Reitoria e a Ouvidoria Geral estão acompanhando o caso. Em nota, a universidade disse que, por meio da campanha 'Não se Cale', dará apoio à Escola Politécnica no sentido de promover ações de respeito à diversidade. "Lançada no ano passado, a campanha tem objetivo de combater todas as formas de opressão e violência na UFRJ", diz a UFRJ por meio de nota.

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