Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Violência no Rio muda rotinas e vidas: "A gente não devia ficar refém desse medo"

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Cléber Júnior/Extra/Agência O Globo

    Ônibus queimado em ação de narcotraficantes em Cordovil, zona norte do Rio

    Ônibus queimado em ação de narcotraficantes em Cordovil, zona norte do Rio

Poderia ter sido um dia de confraternização com a família, mas aquele domingo de abril ficou na lembrança de um jeito assustador para a carioca Priscila Baía Martins, 32, que mora na Vila Isabel, zona norte do Rio.

No caminho para o almoço, o carro onde ela estava com a mãe e um casal de tios foi abordado por quatro homens armados, na altura da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Era meio-dia e meia.

"Eles foram em cima do vidro. Meu tio, que conduzia o carro, desligou o motor e já abriu as portas, para que a gente simplesmente deixasse o veículo, caso essa fosse a solicitação", ela conta. "Só que aí, para nossa surpresa, eles disseram que não queriam o carro, que só queriam nossos pertences."

Os criminosos levaram celulares, relógios, dinheiro e tudo o mais que conseguiram ver dentro do carro.

Reprodução/Facebook
Priscila Baía Martins (à direita) e sua irmã, Patrícia, moradoras da Vila Isabel

"A gente passou por toda aquela situação de ter armas apontadas [para nós]. Como eu estava na parte de trás, cheguei a abrir a porta para sair. O cara encostou a arma em mim para pedir o celular e a bolsa", diz. "Assim como nosso carro, mais três foram roubados na mesma situação, no mesmo local, em pleno domingo, meio-dia. Um absurdo."

Há um mês, o engenheiro Fernando Loureiro, 36, nascido e criado em Marechal Hermes, na zona norte do Rio, trocou a cidade natal por Curitiba.

Loureiro ainda está na "fase de encantamento", como diz, mas quer que a vida paranaense seja mais tranquila e de mais oportunidades.

"Como em todo lugar, a gente tem que tomar cuidado, mas, no Rio, às vezes, a gente entra, infelizmente, num nível de pavor. Aqui não tem isso, tomara que não tenha...", afirma.

Os últimos meses no Rio foram passados em Vila Isabel, onde Loureiro morava com a namorada. Ele conta que, logo no início, ouviu estalos, numa madrugada, e acordou assustado.

Quando olhou para a rua, pela janela, viu um carro incendiado. Os sons secos que ele tinha escutado vinham dos pneus queimando. E um corpo foi encontrado no porta-malas. "A gente já se acostumou a viver assim no Rio e acho que a gente acaba se nivelando um pouco por baixo."

Há pouco tempo, foi surpreendido por um telefonema tenso da namorada: por causa de um tiroteio, ela estava "ilhada" dentro de um mercado.

Sua família continua morando no Rio, e Loureiro se lembra de situações como quando a casa da família foi assaltada ou quando a mãe teve o carro roubado, por mais de uma vez. "A gente não deveria ficar refém desse medo."

O último boletim do Instituto de Segurança Pública, braço estatístico da Secretaria de Segurança, mostra que os números da criminalidade no primeiro trimestre de 2017 foram os piores dos últimos cinco anos. Os registros da letalidade violenta --homicídios dolosos, roubos seguidos de morte, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de ação policial -- tiveram aumento de 28,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Os casos de roubo ou furto registrados no mesmo período representam 19,3% do total de 378.114 roubos e furtos ocorridos em todo o ano de 2016. Trata-se de uma média de um roubo ou furto a cada dois minutos no Estado do Rio.

Assim como nosso carro, mais três foram roubados na mesma situação, no mesmo local, em pleno domingo, meio-dia

Priscila Baía Martins, que relata cenas de violência no Rio

Mudança de hábitos

Tanto Priscila quanto Loureiro contam como a violência transformou suas rotinas.

Gerente de um salão de beleza em Copacabana, na zona sul, Priscila sai do trabalho por volta de 19h. Leva duas horas para chegar em casa. Nesse horário, costumava andar a pé do ponto final do ônibus, uma quadra antes de sua rua, até chegar à porta do imóvel onde vive com a irmã e a mãe.

"Agora não dá mais. Desço no ponto final e pego um táxi para dar a volta no quarteirão e descer na porta de casa. Ou desço cerca de dois pontos antes para pegar outro ônibus que me deixe na porta. Atualmente, tenho caminhado em Copacabana cerca de cinco quadras para já pegar um ônibus que me deixe em frente de casa."

Vila Isabel é considerado um bairro boêmio, mas ela e os amigos abriram mão de ir aos bares da região, porque "nunca se sabe quando vai rolar um arrastão ou um assalto".

"Na minha rua, teve um assassinato de um cara há umas duas semanas. A gente não consegue mais ter liberdade no bairro. Há coisa de um ou dois anos, a gente está vivendo uma violência nunca vista antes. O que tem feito a gente realmente pensar em se mudar do Rio", revela. "Diante da violência, a gente se sente impotente, desprotegido e terrivelmente assombrado."

Arquivo pessoal
Fernando Loureiro e a namorada, em Curitiba, para onde o engenheiro se mudou
Mudança de cidade

Fernando Loureiro conheceu Curitiba em agosto de 2016, gostou do que viu e começou a enviar currículos. Hoje tem emprego como analista de logística em uma empresa na área de mobilidade urbana. A questão da violência foi primordial para sua saída.

"Os motivos que me fizeram querer sair do Rio foram plenamente atendidos aqui: temperatura, segurança, economia. Não tive nenhum problema, até agora. Estou muito satisfeito com a mudança e realmente decidido a ficar", diz.

Enquanto vivia no Rio, o engenheiro não usava o celular na rua, deixava o aparelho em casa quando saía para correr, evitava passar por alguns locais em determinados horários.

"Eu tentei o máximo possível não alterar muito a minha rotina em função desse medo. Uma coisa é você ser imprudente, mas outra coisa é você ser conivente com essa violência quando você fica refém dela."

Ele vê a violência no Rio como resultado de uma acomodação da sociedade, que vai achando normal, cada vez mais, ter de se adaptar à insegurança, combinada à omissão das polícias e da administração pública.

"A violência hoje em dia no Rio já não está muito polarizada em determinadas regiões, já está atingindo algumas áreas que começam a incomodar, como a zona sul e a zona oeste, que é a parte da cidade de maior poder aquisitivo. Talvez isso chame um pouco de atenção, de alguma maneira."

Mudança de rumo

A jornalista Maria Carolina Morganti Pinheiro, 25, trabalha como repórter no jornal "Voz das Comunidades", publicado online, nas redes sociais e em papel (a cada dois meses).

Fundado há 12 anos, as notícias são voltadas para os moradores do Complexo do Alemão, formado por 13 favelas na zona norte, e para quem vive em outras nove comunidades como Pavão-Pavãozinho e Cantagalo (zona sul), Vila Kennedy e Fumacê, em Realengo, Cidade de Deus (zona oeste) e Maré (zona norte).

"São 200 mil pessoas só no Complexo do Alemão, é muito maior que muito lugar na Europa", diz Pinheiro. "A gente é um jornal que dá uma cobertura de cidade para a favela. Não fala só de tiroteio, só de pobreza, a gente faz um serviço de utilidade pública."

"Diante de um tiroteio, a gente vai ouvir os moradores em certas localidades, para subir um alerta. A gente apura com os moradores, temos grupo de WhatsApp, lista de transmissão de conteúdo no WhatsApp. Isso vai para as redes sociais, para os moradores terem cuidado."

"A violência piorou muito", ela afirma. "Dentro do Complexo do Alemão, aumentou o número de operações policiais contra o tráfico de drogas. A UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] fracassou, porque não foi um projeto debatido com a sociedade."

Reprodução/Twitter
Alerta feito no Twitter para moradores do Complexo do Alemão (zona norte)

O programa de segurança pública que deu origem às UPPS começou a funcionar em dezembro de 2008, com a primeira unidade instalada no Morro Santa Marta, em Botafogo (zona sul). De acordo com o governo do Estado, 38 unidades estão implantadas, com um efetivo de 9.543 policiais.

"A polícia chegou para recuperar o espaço que é da cidade, que é do Estado, e que estava em mãos de um poder paralelo. Mas não veio o resto. Você entra pelas favelas, é [como estar no] século 19, sem investimento em projeto social, sem saneamento básico. E aí acha que só com polícia resolve?"

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