Conheça a "guardiã" que resgatou dezenas de cães e gatos da antiga cracolândia de SP

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

Há dois anos, um catador de materiais recicláveis parou na porta da comerciante Maria das Graças Bernardino, 57, em São Paulo, e pediu que ela cuidasse do cachorro de estimação que o acompanhava. "Ele me disse que viria de vez em quando e me ajudaria com o dinheiro da ração", recorda.

O cão vira-lata ficou com Maria das Graças e é hoje um dos "cerca de" 60 animais (ela diz que perdeu as contas) que a comerciante abriga no estabelecimento localizado na alameda Dino Bueno, na região da Luz (centro), perto do cruzamento com a rua Helvétia --no coração da cracolândia que acabou dispersada no último dia 21 pela Polícia Militar e a GCM (Guarda Civil Metropolitana). Outra cracolândia, porém, acabou se formando na praça Princesa Isabel, a cerca de 400 metros dali.

André Lucas/UOL
A pensão de Maria das Graças fica na rua Dino Bueno, na Luz, região central de SP

Segundo a comerciante, o catador de recicláveis era usuário de crack, assim como os antigos donos dos cães e gatos que ela pegou para criar nos últimos três anos. Alguns foram entregues de maneira voluntária, ela diz; outros foram abandonados na pensão ou na rua, mas dezenas acabaram recolhidos compulsoriamente porque eram agredidos ou estavam em condições precárias de saúde e de higiene.

Paraibana de Guarabira, Maria das Graças diz que a pensão é um dos imóveis que a Prefeitura quer demolir no projeto de revitalização da área com base em decretos de utilidade pública. Depois da operação do dia 21, contudo, a demolição de um deles deixou feridos três hóspedes de uma pensão vizinha à da comerciante e fez com que a Justiça paulista concedesse liminar à Defensoria Pública do Estado para proibir a Prefeitura não apenas de seguir com as demolições, mas também de fazer a remoções dos moradores. O Município já informou que vai recorrer.

"Eu estava com extintores vencidos e com as condições de alvará da pensão irregulares, admito. Queria que entendessem o seguinte: quem conseguia chegar até aqui para fazer uma inspeção com o 'fluxo' dos usuários aqui na minha porta? Querer demolir aqui é colocar todo mundo na mesma situação; como que eu vou viver se me tirarem da minha pensão?", ela questiona, para observar, em seguida: "Eu tinha mais de 20 hóspedes aqui até a operação do dia 21. De repente, só tenho dois – e minha neta e minha bisneta".

André Lucas/UOL
A comerciante está há 15 anos no bairro

Além dos "filhos" de quatro patas, Maria das Graças tem duas filhas biológicas que não moram com ela. "Uma delas costuma me dizer que gosto mais dos cachorros e dos gatos do que delas. Que absurdo!"

Como alimenta essa bicharada que se espalha pelos cômodos e móveis da pensão? "Eu pagava do meu próprio bolso os R$ 400 semanais para os quatro sacos de ração com 25kg cada. O que eu ganhava com a pensão, praticamente, usava para me alimentar e para alimentar os animais, para castrá-los e vaciná-los. Depois da operação da PM e da Prefeitura, aconteceu quase que um milagre: uma ONG veio aqui e fez umas doações. Está chovendo ração, e isso é o que tem me ajudado", diz. "Mas aceito toda ajuda nesse sentido", arremata.

O que ela espera daqui em diante, sem a cracolândia à porta de casa, mas ante o risco de ser removida de onde está há 15 anos? "Minha pensão está praticamente vazia de hóspedes, o povo da cracolândia só mudou de lugar –são pessoas que foram jogadas em outro espaço, mas estão na mesma situação de animais. Por mim, eu arrumava outro canto e ia embora daqui. Mas se tratassem essas dependentes químicos como seres humanos, já estava de bom tamanho."

E por fim, mas não menos importante: quantos animais há, afinal, acolhidos por ela? "Parei de contar quando deu 60. E isso faz tempo."

*

Serviço

Maria das Graças aceita doação de voluntários que queiram ajudá-la com rações para os cães e gatos acolhidos. Os interessados podem procurá-la na alameda Dino Bueno, nº 119, na Luz, próximo ao cruzamento com a rua Helvétia.

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