Comerciantes temem volta de 'antiga' cracolândia com instalação de contêineres

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • André Lucas/UOL

    Contêineres no antigo estacionamento da Guarda Municipal atenderão emergencialmente dependentes químicos na região da Luz, centro de SP

    Contêineres no antigo estacionamento da Guarda Municipal atenderão emergencialmente dependentes químicos na região da Luz, centro de SP

Um conjunto de contêineres com beliches e banheiro é a alternativa que a Prefeitura de São Paulo vai oferecer, a partir desta quinta-feira (8), como atendimento emergencial a dependentes químicos da região da Luz (centro). A estrutura foi montada em um terreno cercado por grades que servia de estacionamento a funcionários da GCM (Guarda Civil Metropolitana). O local fica a cerca de 700 metros da praça Princesa Isabel, onde se formou uma nova cracolândia depois da operação das polícias Civil e Militar e da GCM na concentração de usuários da rua Helvétia, no último dia 21.

O estacionamento com os contêineres fica no cruzamento das ruas dos Protestantes e Gusmões, onde, na gestão do então prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2005, ficava a cracolândia. Uma operação policial com forte repressão, à época, acabou dispersando o grupo para a região da Helvétia.

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Estrutura de contêineres para alimentação, banho e pernoite foi doada por três empresas; Prefeitura não informou valores

Agora, comerciantes e trabalhadores de estabelecimentos vizinhos estão receosos de que o fluxo de usuários novamente se forme no local --além de gastos com segurança particular, alguns deles relataram ao UOL investimentos para atrair a clientela depois que os dependentes químicos foram dispersados na gestão Kassab.

Segundo a gestão João Doria (PSDB), os contêineres terão capacidade de atendimento diário de 400 usuários, em média –com banho, alimentação, pernoite e encaminhamento a outros equipamentos municipais.

"Ficou muito bom quando retiraram as pessoas daqui --porque era uma cracolândia grande e os usuários se amontoavam na frente dos comércios, era difícil até de passar. Eu acho mesmo que o dependente tem que ser retirado da rua à força para tratamento. Cansei de ver médico, dentista e contador no vício. Vi muito pai e mãe vir procurar filho aqui. Agora, o receio é que isso tudo volte para o mesmo lugar", afirmou Douglas Novaes Fernandes, 48, há 12 anos dono de um bar na esquina do terreno com os contêineres.

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O comerciante Juarez Faula, 47, é dono de uma pensão na Luz

Dono de uma pensão em frente à nova estrutura, Juarez Faula, 47, também se mostrou reticente em relação ao futuro da região --na qual, assegurou, outros comerciantes como ele bancam uma equipe de segurança privada que custa em média, a cada um, R$ 500 de mensalidade. Faula contou que, depois de ter a pensão lacrada pelo Município e liberada, na gestão Kassab, investiu em uma reforma no local que conta, hoje, com 21 quartos.

"Receio que os usuários retornem e comecem a se amontoar de novo, mesmo porque, olha o tamanho da nova cracolândia, e veja o tamanho da área para esses contêineres", observou.

"O comerciante aqui não tem nada a ver com o usuário, mas, no meu caso, é como se eu ficasse marcado como proprietário de algo que atende esse público. A pensão atende basicamente casais, desde que não seja 'noia' --se acontece algum problema, acionamos a segurança privada", disse.

Já os funcionários de um atacado e varejo de roupas também vizinho do terreno com os contêineres reclamaram que "ninguém da prefeitura" antecipou a medida aos comerciantes do entorno. Há cinco dias, moradores da rua General Rondon protestaram contra a instalação dos contêineres na via, em um terreno da Cohab próximo à praça Princesa Isabel, e a administração acabou transferindo a medida para o estacionamento da GCM.

"A tendência é formar cracolândia aqui de novo, porque a verdade é que a prefeitura não sabe onde colocar toda essa gente, ainda que, ao que pareça, tente dividir o pessoal [usuário de crack]. Vai virar um rodízio de gente isso aqui, e o impressionante é que ninguém nos avisou que isso seria feito, mesmo sendo ruim para o movimento do comércio", avaliou o vendedor Max Luís de Brito, 44, que há 12 anos trabalha na região.

Balconista na mesma loja há 23 anos, Gezi Mendes de Oliveira, 54, acha que é "questão de tempo para que uma nova cracolândia surja aqui de novo". "Vejo muita gente vinda do Nordeste, sem família e sem emprego, indo parar na rua e no vício. É de cortar o coração ver isso, e acho que a administração só tenta mostrar que está fazendo alguma coisa", opinou. "Mas a estrutura tampou a visão da loja. Vai ser ruim, de alguma forma", complementou.

Janaina Garcia/UOL
Da esquerda para a direita, Camila Mendes, Gezi Oliveira e Max Luís de Brito, funcionários de uma loja de roupas em frente à área dos contêineres para dependentes químicos

Prefeitura fala em "doação de empresas", mas não cita valores

Indagada sobre os contêineres, a prefeitura informou, por meio da Secretaria de Comunicação, que a instalação da estrutura de atendimento emergencial ocorreu "por meio de doação, sem contrapartida" para o município, feita pelas empresas Brasmodulos, Dasa e Construtora Faleiros.

A gestão não respondeu de quanto, ao todo, foi a doação.

O local conta com 100 camas para pernoite temporário, refeitório, 20 chuveiros e três banheiros com 18 vasos sanitários, além de duas salas de atendimento social e de saúde e uma academia ao ar livre. 

"Se quiserem", complementa a Pasta, "após avaliação médica e social, os acolhidos poderão ser encaminhados para outros centros de acolhida, clínicas terapêuticas ou leitos de internação". A previsão diária é de que 400 pessoas sejam atendidas.

Indagada sobre a destinação das vagas de veículos particulares usadas pelos funcionários da GCM, cuja sede fica em frente à estrutura, a administração disse apenas que "a corporação integra o Projeto Redenção e está dando sua colaboração para auxiliar nas ações de recuperação de dependentes químicos".

As queixas dos comerciantes e trabalhadores do comércio não foram comentadas pela secretaria.

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