Empresária relata drama após 48h perdida em milharal: "Mais um dia não sobreviveria"

Renan Prates

Colaboração para o UOL

  • Arquivo pessoal

    Thais Valadares ao meio, de vermelho, acompanhada da família

    Thais Valadares ao meio, de vermelho, acompanhada da família

Uma empresária do Mato Grosso do Sul (MS) ficou desaparecida por 48 horas na região de Sidrolândia, a 71 quilômetros da capital Campo Grande. Thaís Valadares, de 39 anos, ia para uma fazenda da região encontrar o marido na última quarta-feira (14). Seu carro atolou e ela se perdeu no meio de um milharal. Ela foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros na noite de sexta-feira (16), ao lado de uma outra fazenda da região.

"A estrada que eu peguei não é a que pego sempre que vou para esse retiro. Um caminhão que havia interditado o caminho que costumo pegar e o meu marido me comunicou para ir por essa outra estrada, mas pediu para que eu fosse ainda de dia, justamente por ser diferente. No momento em que atolei o carro, de noite, percebi que tinha errado o caminho. Mas permaneci no carro até amanhecer", explicou a empresária ao UOL.

Divulgação/Polícia Militar do MS

O que tornou a situação de Thaís mais difícil foi o fato de ela ter diabete tipo 1, o que a torna dependente de doses diárias de insulina. Ela levou o material no carro. Mas, como ficou 48 horas perdida, acabou sendo insuficiente.

"Tomei a dosagem ainda no carro. Coloquei as insulinas e também um alfajor e biscoito, porque a hipoglicemia pode acontecer. Não tinha tomado café da manhã. Já sabia que se não me encontrassem até a hora do almoço, teria uma crise hipoglicêmica (ocorre quando o nível de açúcar no sangue é muito baixo). Mas eu acabei tendo antes. Acredito que a partir daí passei a ficar confusa sobre que direção andar. Foi quando optei por andar até a parte baixa da plantação do milho. Quando cheguei no final do trecho, vi que era só milho, milho, milho. Eram 13 mil hectares de milho".

Thais passou 48 horas sem água e se virando com pouquíssima alimentação. Ela lembra que quando foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros, só tinha força para gritar poucas palavras. "Ouvi um assobio de alguém da equipe de resgate e comecei a gritar: 'aqui'. Percebi que ele pediu para todos ficarem quietos e eu gritar de novo, para ele saber a localização. Felizmente deu certo", explicou a empresária, que foi encontrada pelo cunhado e prontamente recebeu mel para ajudar na reabilitação.

O Quartel de Bombeiros de Sidrolândia (18º SGBM/Ind) postou em sua página do Facebook o vídeo do resgate, com a explicação das condições da região em que Thaís Valadares se encontrava, e como teve que ser realizado o resgate:

"Devido ao local de difícil acesso e as condições físicas da vítima, foi necessário confeccionar uma maca improvisada, feita com gandolas (parte de cima do fardamento dos Bombeiros Militares), para transportá-la. Durante dois dias consecutivos a vítima esteve exposta aos perigos que a região apresenta: animais agressivos como onças e porcos do mato (javalis); animais peçonhentos, como cobras e escorpiões; escassez de alimentação e água potável; e os próprios efeitos climáticos (insolação, frio, etc). Depois de dois dias de operação a vítima foi resgatada com sucesso!", explicou a corporação nas redes sociais.

Segundo a assessoria de comunicação da Polícia Militar, a empresária foi achada a uma distância de aproximadamente cinco quilômetros do local onde o carro dela foi encontrado. Um grupo de agricultores informou aos policiais que tinha percebido marcas de veículo diferente das de trator em direção ao milharal. Esta pista foi que permitiu a PM achar o carro. "Foi necessário ultrapassar nossa missão inicial de Policiamento Rodoviário e fazer buscas, pois a vítima é grave portadora de diabetes e necessita de injeções diárias de insulina", explicou a PM.

Para procurar a empresária, a PM usou helicóptero e cães farejadores. "Foi acompanhado o deslocamento da vítima ao pronto-socorro e conversado com a equipe médica, que disse para o comandante que foi crucial tê-la achado, pois a paciente não resistiria a mais um dia sem água, sem comida e sem as injeções de insulina", explicou a assessoria da PM.

Divulgação/Polícia Militar do MS

"Eu não tenho dúvida que se eu ficasse mais um dia, eu não sobreviveria. Porque quando me localizaram, já estava em um coma hipoglicêmico", concordou a empresária.

Thais está sob os cuidados da família. Ela explicou que ainda sente as queimaduras pela exposição constante ao sol durante o período em que estava perdida, mas está com os índices de glicemia regularizados. Ainda tem que lidar com as dores no corpo e as picadas de inseto, além do desgaste físico e psicológico. A empresária contou que pensou muito no filho (José Luiz, de 13 anos) no período em que ficou perdida. E agradeceu a irmã, Silvia, por ter "segurado a onda" da família.

"Meu filho falou baixinho para mim que sabia o tempo todo que eu estava viva, e falava isso para a avó e para a tia. Foram poucas as vezes que o viram chorando. Ele foi um homem de verdade. Ele disse: a única coisa que pode ser feita pela minha mãe é orar para ela ser encontrada, porque ela está viva, e eu tenho certeza disso. E eu pedi muito a Deus mesmo que não me tirasse da vida do meu filho agora".

O caso de Thais teve um final feliz, mas a investigação da Polícia continuará. O carro da empresária foi apreendido para que aconteça uma averiguação. A família aprova a ação dos policiais.

"Acredito que ela pode ter perdido a entrada, se atolado, mas eu acho que tem que investigar sim. Ela fala muito que pediu ajuda e não quiseram dar. Ela fala em umas pessoas, mas não sabe dizer com certeza se a situação aconteceu, ou se pela diabete que estava muito alta ela estava delirando. Sou a favor de saber o que realmente aconteceu, porque tem pessoas más na região, ela vai ser só uma vítima, e eles vão estar ali para fazer outras vítimas", disse a irmã de Thais.

Divulgação/Polícia Militar do MS
Empresária se perdeu em um milharal de mais de 10 mil hectares

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