Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Farmacêutica grávida morta no RJ esbanjava alegria e sonhava em ser mãe, lembra irmã

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Reprodução/Facebook/Nathalie Rios

    Nathalie Rios tinha 37 anos e estava grávida de três meses

    Nathalie Rios tinha 37 anos e estava grávida de três meses

"Ela queria muito ser mãe. Há dois anos, ela já tinha até congelado óvulos pensando nisso. Essa gravidez veio de surpresa e ela ficou muito feliz, nossa família ficou muito feliz. Seria o primeiro neto dos meus pais, meu primeiro sobrinho. Passava o dia vendo coisa de bebê na internet. Agora, em agosto, meu pai iria trazer todo o enxoval da viagem que iria fazer para fora do Brasil", lembra, emocionada a empresária Carolina Rios, irmã da farmacêutica, Nathalie Rios, encontrada morta em Vassouras, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro.

Grávida de três meses, Nathalie já havia escolhido o nome da criança: Alice ou Rodrigo. "O nome Alice seria para homenagear nossa tia-avó, e Rodrigo é um primo nosso que ela amava demais. Mas, na verdade, ela comentou que, se fosse menino, deixaria o Thiago escolher --na esperança que ele seria participativo na educação do filho."

O dentista Thiago Medeiros, 33, foi preso preventivamente pela polícia no dia 25 de junho. Ele é o principal suspeito pela morte da ex-namorada. O corpo de Nathalie foi encontrado carbonizado em um local que fica a 15 minutos da casa onde a família do suspeito mora. A arcada dentária da vítima foi retirada para dificultar a identificação do corpo.

Nathalie era a irmã caçula. Completaria 38 anos, no dia 29 deste mês. Carolina descreve com entusiasmo a personalidade da irmã, que era fascinada por carnaval e forró.

"Não tinha ninguém que não se contagiasse com a energia dela. Chegava fevereiro minha casa ficava repleta de purpurina. Todo ano ela ia para o centro da cidade e comprava tudo para fazer as fantasias, pra ela e pra todo mundo. Já saiu de Chapolin, Mulher Maravilha, Girafinha. Há uns dois anos, umas primas de Fortaleza vieram para nossa casa no Carnaval, e lá foi ela para o centro para comprar fantasia de todo mundo. Sempre animada."

Os blocos preferidos de Nathalie eram a Orquestra Voadora e Bangalafumenga. "Uma prima nossa postou esses dias que uma das lembranças fortes é chegar lá em casa e minha irmã estar ouvindo 'Banga' nas alturas. Superfeliz".

Dia a dia com a irmã

"O que acalma meu coração é que eu vivi este último ano de forma muito intensa com a minha irmã. Foi uma relação de adolescente, sabe? O que vamos fazer para o café hoje? Vamos comprar um suco verde aqui embaixo? Vamos à praia? Vem aqui no meu quarto?", conta sorrindo.

Nathalie e Carolina voltaram a morar na casa da mãe nos últimos anos no bairro do Flamengo, zona sul do Rio. As duas se tornaram empresárias. Nathalie abriu uma farmácia no bairro da Tijuca, zona norte. A família resolveu fechar temporariamente a loja. A irmã conta que até os funcionários ficaram abalados com a notícia da morte dela.

"Minha maior preocupação era minha mãe entrar em depressão. Mas ela está sendo forte. Nossa cachorrinha, a Babi, que está sentindo muito a ausência da minha irmã. Ela fica quieta, não brinca. Tem dias que pouco se mexe".

Família marca passeata em Copacabana

O protesto "Justiça por Nathalie" vai ocorrer neste domingo (16) na praia de Copacabana. Às 10h, familiares e amigos vão se reunir em frente ao Copacabana Palace e caminhar até a praia do Leme, local que Nathalie gostava.

"Este crime não pode cair no esquecimento", diz a irmã

A delegada Elen Souto, responsável pela delegacia de Descoberta de Paradeiros, acredita que Nathalie estava desacordada no momento que teve o corpo queimado. Ela foi identificada através da prótese de silicone que usava, por três dentes encontrados no local, e pela análise de raio-x dos ossos, além dos brincos e parte da blusa.

O principal suspeito pela morte da farmacêutica é o ex-namorado. Thiago foi a última pessoa a marcar um encontro com Nathalie, por volta das 17h do dia 22 de junho. Em seu depoimento, ele disse ter encontrado com ela na estação do metrô do Flamengo, na zona sul, mas a deixou depois no aterro do Flamengo.

O relacionamento do casal começou em 2009 e terminou em 2011. Eles se conheceram em 2008, quando entraram para o quadro de funcionários temporários da Aeronáutica. Os dois trabalharam até janeiro de 2016 no Hospital Central da Aeronáutica, no Rio Comprido. A irmã da vítima diz que Thiago estava acima de qualquer suspeita.

"Tínhamos uma boa relação com ele. Liguei para ele preocupada com a minha irmã quando fiquei sem notícias dela. Pensei em tudo, que pudesse ter acontecido um acidente. Nunca passou pela minha cabeça que ele poderia fazer algo assim. Mas o Thiago ainda é um suspeito. Vamos aguardar as investigações".

Segundo a polícia, Thiago atualmente é noivo de outra jovem, e teria pedido a Nathalie que fizesse um aborto. Ela decidiu que manteria a gravidez. De acordo com depoimentos, Nathalie chegou a ir ao consultório do suspeito, a pedido dele, para dar continuidade a um tratamento. Lá, o dentista teria pedido que ela bochechasse e engolisse um medicamento que teria deixado a ex-namorada tonta.

Segundo a família, antes de deixar o consultório, Nathalie ainda questionou o ex-namorado sobre a gravidez.

"Neste dia, ele falou que assumiria o filho e que eles iriam morar em Vassouras. Minha irmã não queria ir para lá, mas até cogitou pensando que poderia ser melhor para o filho devido a esses problemas de violência no Rio, e para que o Thiago pudesse ter acesso à criança", contou Carolina.

Machismo e feminicídio

Em entrevista no mês passado, a delegada Elen Souto disse que o pai de Thiago sabia da gravidez. Ela destacou a proximidade entre pai e filho. 

"O que a gente observou na postura dele [Thiago] e do pai dele é que eles são muito machistas. Uma visão bem antiquada em ver a mulher como objeto e isso ficou muito claro. A gente vê que a Nathalie se tornou um problema diante desse perfil bem tradicional, conservador e preconceituoso da família", contou a delegada.

Thiago está preso na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, o antigo BEP, mesmo presídio em que está o ex-governador Sérgio Cabral.

Segundo levantamento das Nações Unidas, no Brasil, uma mulher é morta a cada duas horas e atacada a cada 15 segundos. O país compõe a lista de países mais perigosos para o gênero feminino.

Uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em março, no Dia Internacional da Mulher, mostra que, no ano passado, a cada hora no país, 503 mulheres foram vítimas de agressão física. O número representa 4,4 milhões de brasileiras (9% do total das maiores de 16 anos). Se forem contabilizadas as agressões verbais, o índice de mulheres que se dizem vítimas de algum tipo de agressão em 2016 sobe para 29%.

Já o Instituto de Segurança Pública, que contabiliza casos de violência com base em registros de ocorrências realizados pela Polícia Civil no Rio, mostra que, entre janeiro e maio deste ano, 30 mulheres foram mortas, vítimas de feminicídio. As tentativas de homicídios envolvendo o grupo somam 104 registros. Sem levar em consideração, o grande número de casos que não são comunicados à polícia.

O feminicídio é considerado crime hediondo desde março de 2015. A pena prevista para homicídio simples é de reclusão de seis a 20 anos. Para o feminicídio, a pena é de reclusão de 12 a 30 anos e pode ser aumentada em um terço até a metade, se o crime for praticado durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto, contra pessoa menor de 14 anos, maior de 60 ou com deficiência.

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