Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Adolescentes paraguaias eram mantidas como escravas sexuais na Baixada Fluminense

Giovani Lettiere

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Getty Images/iStockphoto

A paraguaia Mercedes Lopez, 38, o marido dela, o brasileiro Rodrigo Araújo, 39, o irmão dele, Deniel Araújo, 28, e Éder Carvalho, 35, foram presos nesta quinta-feira (20) em Belford Roxo, Baixada Fluminense, na Operação Coiote, que desmantelou organização criminosa que explorava duas adolescentes paraguaias.

As duas adolescentes, uma de 16 anos e outra de 17, deixaram o interior do Paraguai com a promessa de uma vida melhor na Baixada Fluminense.

"Elas entraram legalmente no Brasil com documentos de que a Mercedes seria madrinha delas. Mas chegaram aqui e encontraram condições subumanas de vida com cárcere privado e foram vítimas de exploração sexual, sendo obrigadas a fazer sexo com a indiciada, o marido dela, o irmão do marido e um vizinho", afirmou Tatiana Queiroz, da Deam (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher) de Belford Roxo.

Além de serem obrigadas a manter relações sexuais, as duas trabalhavam --sem receber salário-- cuidando de crianças carentes numa creche informal que funcionava dentro da casa de Mercedes, no bairro Parque Esperança. "A segunda vítima, de 16 anos, garantiu que os donos da casa não abusaram das crianças, mas vamos investigar", disse a delegada.

A vítima mais nova chegou a ficar grávida de Deniel, mas fez um aborto. "Ela chegou a vir na delegacia numa noite em junho junto com seu opressor, o Rodrigo, para registrar o crime de estupro por uma terceira pessoa, provavelmente para pegar o Registro de Ocorrência para fazer o aborto. Felizmente ela conseguiu fugir no dia seguinte e só então contou toda a verdade", relata Tatiana.

A vítima paraguaia de 17 anos, que conseguiu fugir da casa em março, contou que ficou dois anos em cárcere. "A estratégia deles era colocar medo, ameaçar com deportação, fazendo com que a vítima ficasse cada vez mais tempo por aqui", disse Juliana Emerique, da Dcav (Delegacia da Criança e Adolescente Vítima).

As duas adolescentes já voltaram ao Paraguai. "A de 16 anos estava extremamente fragilizada. Sofreu muito, mas mesmo assim pediu para não voltar ao Paraguai, tamanha a miséria em que vivia lá. Ela achava que estava melhor aqui mesmo nessas condições de exploração sexual e cárcere", contou Tatiana.

Foram apreendidos ainda durante a operação celulares, pendrives e computadores. "Muitas relações sexuais foram filmadas pelos opressores", afirmou a delegada da Deam.

Os quatro foram presos por estupro e cárcere privado por 30 dias. As investigações prosseguem. "É apenas a primeira fase. Estamos abrindo a 'Caixa de Pandora'. Queremos saber mais sobre como é feito esse aliciamento, como elas entram aqui no Brasil, qual a rota. Vamos descortinar esse ciclo de exploração sexual, de violência", promete Juliana.

Investigações preliminares dão conta de que Mercedes também passou pelo mesmo drama pelo qual foi presa nesta quinta-feira. "Ela também vivia na miséria no Paraguai e veio para cá 15 anos atrás com a promessa de uma vida melhor e chegou a trabalhar como empregada numa casa de família na zona sul do Rio, mas ainda faremos mais investigações", explica a delegada de Belford Roxo.

As investigações começaram em março, quando a paraguaia de 17 anos conseguiu fugir do cativeiro e procurou a polícia com a ajuda de uma vizinha. "Acionamos o Consulado do Paraguai que veio até nós com informações e fizemos essa ação integrada para desmantelar essa organização com a prisão dos quatro envolvidos", disse Juliana, que foi procurada em julho pela Deam de Belford Roxo, que abrigou a segunda vítima, de 16 anos.

Rodrigo já tinha uma passagem pela polícia por lesão corporal a uma mulher e estava enquadrado na Lei Maria da Penha.

As vítimas tinham a promessa de que suas famílias no Paraguai receberiam o dinheiro de seu trabalho doméstico como cuidadora das crianças da creche informal. "Mas não há confirmação de que as famílias receberam algum pagamento, o que caracteriza escravidão. Elas eram exploradas sexualmente, com clientes pagando para ter sexo com elas. Elas eram vigiadas o tempo todo", disse Tatiana.

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