Chacina em área quilombola na Bahia está ligada ao tráfico de drogas, diz polícia

Mário Bittencourt

Colaboração para o UOL, em Vitória da Conquista (BA)

As seis mortes que ocorreram no domingo (6) em uma área quilombola (de descendentes de escravos) da Bahia estão ligadas ao tráfico de drogas, informou a Polícia Civil nesta quarta-feira (9).

Uma liderança quilombola da comunidade de Iúna, zona rural de Lençóis, na Chapada Diamantina, onde ocorreram os crimes, afirmou que concorda com a versão policial.

Já o MPE (Ministério Público do Estado) diz que "está acompanhando o desdobramento das investigações policiais e, assim que concluídas, adotará as medidas judiciais pertinentes".

Na tarde desta terça-feira, dois homens e uma mulher suspeitos de ligação com os homicídios foram presos. Outros sete, incluindo o mandante dos assassinatos, o traficante Leonardo da Silva Moraes, 29, conhecido como "Léo careca", um comparsa e os cinco executores do crime, estão sendo procurados.

Os presos nesta terça são Indira Luanda Ferreira Barbosa, 44, a "Indira Professora"; Ana Paula Gomes Santos, a "Ana Paula de Birau", 35; e Gilvan Santos de Jesus, 26. Eles integram a quadrilha de "Léo careca", diz a polícia. Os suspeitos não têm advogados constituídos.

Na casa de Indira, "responsável pela contabilidade da quadrilha", a polícia apreendeu pés de maconha e porções da droga já embaladas para venda.

Ana Paula e Gilvan, que atuam, de acordo com a Civil, como olheiros e traficantes, também estavam no local, em Tanquinho de Lençóis. Todos foram autuados em flagrante por tráfico.

Outro integrante do bando, Alef da Silva Alves, 24, responsável por levar os assassinos até o local do crime e depois dar fuga ao grupo, também conseguiu escapar ao cerco policial e está foragido.

Uma liderança quilombola de Iúna, que prefere não ter o nome divulgado, disse que os envolvidos no crime eram bastante conhecidos da comunidade e os dois que têm passagem pela polícia vinham representando uma ameaça à paz no local.

Outra motivação

O território do local da matança está em fase de regularização por parte do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), e por isso especulou-se que as mortes eram por causa da disputa de terras. Mas as investigações policiais apontaram para o tráfico como motivação.

O alvo principal dos traficantes era Gildásio Bispo das Neves, o Leixão, de 51 anos. De acordo com a polícia, ele controlava o tráfico na comunidade de Iúna, que fica a 25 km de Lençóis. Leixão foi morto porque estava vendendo drogas para um rival de Léo Careca, conhecido como "Naninho".

Os outros mortos na chacina são Adeilton Brito de Souza, o Boga, 22, Cosme do Rosário da Conceição, 49, os irmãos Marcos Pereira da Silva, 31, e Valdir Pereira Silva, 28, e um sexto homem que a Polícia Civil preferiu não confirmar a identidade. O Incra havia informado nesta terça que esta última vítima era Amauri Pereira Silva.

A polícia informou ainda que o homicídio de uma liderança quilombola ocorrido dia 16 de julho na mesma área também foi relacionado ao tráfico.

Porém, a vítima, Lindomar Fernandes Martins, 35, não era traficante nem usava drogas. Morreu "por estar falando demais", afirmou a delegada de Lençóis Mariela Silvério.

Tráfico atormenta comunidade

A liderança quilombola que falou ao UOL sob a condição de não ter o nome divulgado afirmou que "a versão da polícia [sobre motivação por tráfico para os assassinatos] está batendo".

"Ultimamente, o que tem tirado o sossego da gente aqui na comunidade de Iúna é a questão da droga. Ultimamente vem crescendo muito, e tudo que tem acontecido [de ruim] aqui está ligado à droga. Não tenho outra versão para contar", disse.

De acordo com a liderança, "pelo menos dois que já tinha passagem pela polícia eram "uma ameaça para a comunidade, a gente já tinha cisma deles. Agora, os outros quatro a gente sabe que eram usuário de cachaça."

O problema do tráfico se tornou tão grave na comunidade que a liderança afirma que deseja largar o emprego que tem no local e ir embora para o povoado de Tanquinho. "A gente aqui já não tem paz mais não".

Ao comentar sobre o caso, o coordenador de Proteção ao Patrimônio Afrobrasileiro da Fundação Cultual Palmares, Tiago Cantalice, declarou que o problema de tráfico de drogas em áreas quilombolas no país "é algo muito pontual".

"Tenho acompanhado os processos de regularização, e quase não vemos esse tipo de problema", declarou.

Sem portaria

O território quilombola de Iúna está com o RTID (Relatório Técnico de Identificação e Delimitação) concluso desde 2015 por parte do Incra, mas ainda não tem data de publicação da portaria que oficializa o estudo.

Após a publicação da portaria, os interessados têm prazo de 90 dias para a contestação. De acordo com o Incra, na área do quilombo, que possui 1,4 mil hectares, estão oito fazendas, a maioria de criação de gado.

Mais de 1.400 pessoas divididas em 39 famílias vivem na comunidade de Iúna, que recebeu em 2005 o certificado de área de remanescente de quilombo da Fundação Cultural Palmares.

A certificação é o primeiro passo para dar início à regularização do quilombo – só com o certificado se pode dar entrada no Incra com o pedido de regularização fundiária.

A Fundação Palmares informou que no Brasil há 2.958 áreas quilombolas certificadas – 736 na Bahia.

Há 303 processos de regularização de territórios quilombolas em aberto na Bahia, sendo que 34 estão publicados (em fase avançada de regularização). No estado ainda não há nenhum território com título.

No relatório sobre os conflitos no campo 2016, divulgado este ano pela CPT, foram identificados 19 territórios quilombolas na Bahia em disputa de terras com terceiros.

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