"Não vamos nos calar mais", diz vítima de assédio em ônibus de SP

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    A cantora Juliana de Deus

    A cantora Juliana de Deus

Uma "tristeza muito grande por saber que isso vai se repetir", mesclada com um otimismo "de que as mulheres estão, enfim, muito mais ativas para denunciar". É essa a opinião da cantora Juliana de Deus, 25, sobre casos de violência contra a mulher no transporte coletivo, como o que ela própria sofreu nesta quarta-feira (30) em São Paulo.

Juliana relatou que teve os seios apalpados por um homem que se sentara ao lado dela em um ônibus que fazia a linha Terminal Lapa-Vila Mariana, pouco antes das 13h30. O local do ataque foi também em uma das vias mais policiadas da cidade: a avenida Paulista.

No dia anterior, quase no mesmo horário, outra mulher denunciava o agressor que havia ejaculado em seu pescoço, também na Paulista e, mais uma vez, dentro de um ônibus do transporte coletivo. O rapaz foi preso em flagrante por estupro, mas liberado no dia seguinte por decisão proferida pelo juiz José Eugenio do Amaral Souza. O magistrado classificou o ato como atentado ao pudor --cuja pena é o pagamento de multa - e afirmou em seu despacho que "não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça".

O caso de Juliana foi registrado como importunação ofensiva ao pudor, delito menos grave e que também implica em multa. Encaminhado ao mesmo distrito policial que o homem da véspera, o 78º, nos Jardins, ele foi ouvido e liberado após assinar um termo circunstanciado –na prática, um registro de pequenas infrações.

"Sentei nos últimos bancos do ônibus, quando um rapaz chegou, se sentou ao meu lado e começou a se encostar em mim. Me ajeitei, para ver se ele se tocava, até que me distraí e ele, com uma blusa em cima das mãos, apalpou um dos meus seios", relatou.

"Vi a mão dele e virei um bicho. Fiquei muito mal, mas tentei afastar ele das outras mulheres. Fui até a cobradora perguntar como eu fazia para denunciar, e então ela me perguntou se ele ainda estava no ônibus. Ele veio para cima de mim para se desculpar, disse que era 'homem casado' e que eu estava 'ficando louca'. Comecei a gritar, e aí as mulheres que estavam no ônibus me ajudaram muito a lidar com a situação. O próprio motorista fechou o ônibus para ele não sair e só parou em frente a dois camburões da Polícia Militar", narrou.

Suspeito de estupro na Paulista tem 17 acusações de abuso sexual

Juliana falou ao UOL no final da tarde, depois que os dois acusados dos casos nos ônibus haviam sido liberados.

Dias antes, a escritora Clara Averbuck também relatou ter sido vítima de estupro, mas com o agressor na condição de motorista da Uber– a empresa afirma tê-lo banido do cadastro de colaboradores. Diferentemente das duas mulheres vítimas na Paulista, a escritora não registrou boletim de ocorrência: alegou que "sempre duvidam da vítima" e que "não confio no sistema".

Juliana seguiu outro caminho. "Resolvi prestar queixa não por achar que isso surta algum efeito ou pela penalização em si, mas para quantificar, estatisticamente, esses acontecimentos. Também não confio nesse sistema machista e conduzido por um montão de homens, mas preciso que meu caso entre nos números. Afinal, as políticas públicas só podem ser criadas se existirem esses dados", justificou a cantora.

Indagada sobre a soltura dos agressores, mesmo com os relatos nos B.O.s, ela disse se sentir frustrada e triste. "Especialmente porque sei que esse tipo de coisa vai se repetir, e essas decisões corroboram a violência contra a mulher. Engraçado que, na hora de eu sair da delegacia, meu agressor perguntou para um dos delegados como ia ficar a segurança dele se o rosto dele fosse filmado. Essa era a preocupação dele. Imagine a minha, como mulher", definiu.

Juliana contou que essa foi a primeira situação que viveu com um abusador tocando partes de seu corpo sem consentimento. Mas não foi o primeiro caso de assédio que ela enfrentou na condição de mulher.

"Assédio verbal sofro todos os dias", observou. Mas ressalvou: "Sou otimista porque vejo que a mulherada está muito mais ativa e não vai ficar quieta com esses abusos, não vamos nos calar mais. No meu caso, mesmo, muitas tomaram partido quando viram minha situação. Mas, do ponto de vista da Justiça, ainda sou bastante pessimista, sobretudo porque há muitos homens cuidando de questões que nos afetam", analisou.

Campanha contra o assédio foi lançada na terça

Na última terça (29), o Tribunal de Justiça de São Paulo anunciou uma parceria com empresas públicas e particulares de transporte coletivo para tentar frear os casos de assédio nesse meio --que têm crescido, segundo a própria SSP (Secretaria de Segurança Pública), em relação ao ano passado.

A partir de outubro, homens presos em flagrante por situações de assédio no transporte coletivo passarão por uma espécie de curso de reciclagem com questões como machismo e masculinidade. A proposta é que a iniciativa, oferecida pelo Tribunal de Justiça paulista, sirva como alternativa de pena a crimes de menor potencial ofensivo –que abrangem, por exemplo, atos como 'encoxadas' ou masturbação dentro do transporte de passageiros.

Casos de assédio crescem

Pelos números da SSP, foram registradas 288 ocorrências relacionadas a abuso sexual em trens, metrôs e ônibus da capital e região metropolitana de janeiro a julho de 2017. No mesmo período do ano passado, foram 240 ocorrências. "As naturezas são relacionadas a importunação ofensiva ao pudor, ato obsceno, estupro, assédio sexual, violação sexual mediante fraude e corrupção de menores", informou a pasta.

Indagado ao final do evento de terça-feira se haverá policiais mulheres na Delpom (Delegacia do Metropolitano), onde os casos nos trens e metrô são registrados, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) preferiu citar as delegacias da mulher. "Temos 133 delegacias da defesa da mulher e uma, na Sé, que é 24 horas. Isso representa 36% dessas delegacias no Brasil, e vamos reforçar ainda mais."

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