Juiz federal abandona Venezuela e vira artista de rua no Brasil para sobreviver

Eduardo Carneiro

Colaboração para o UOL

  • Arquivo Pessoal

    Oswaldo José Ponce Pérez abandonou a Venezuela e virou artista de rua no Brasil

    Oswaldo José Ponce Pérez abandonou a Venezuela e virou artista de rua no Brasil

A mesma mão que assinava sentenças nos tribunais de Caracas, capital da Venezuela, hoje toca harpa nas ruas de Boa Vista, capital de Roraima. Oswaldo José Ponce Pérez, 51, é mais um cidadão do país vizinho que escolheu o Brasil para se refugiar em virtude da crise política e econômica. Em sua nova "casa", ele tem que se desdobrar para sobreviver.

A chegada ao solo brasileiro aconteceu há dois anos e dois meses, "com a roupa do corpo". O motivo da mudança? Perseguição. Formado em Direito, Pérez abriu escritório de advocacia em Caracas e atuou em duas varas como juiz federal – a última criminal. Mas ele diz que determinadas decisões dele incomodaram os poderosos.

Ao UOL, Pérez explica os motivos que o levaram a abandonar a Venezuela. "Às vezes eu decretava sentenças que iam contra interesses de pessoas relacionadas ao executivo, alguns ministros... É uma gangue institucional. Tentaram me prender, mas tinha meus bens todos declarados. Depois tentaram um processo militar, mas eu nem sou militar. Estavam desesperados para me prender. Virei uma pedra no caminho deles e eu não aceitava qualquer tipo de influência".

O ex-juiz conta que chegou a ter o carro queimado e que sua família começou a receber ameaças – o primeiro dos quatro filhos dele foi inclusive assassinado, e a hipótese de vingança não foi totalmente descartada. "Decidi deixar meu país, porque o próximo passo era me matar", lamenta ele, que evita críticas diretas ao presidente Nicolás Maduro. "É uma loucura política. Um sistema totalmente errado que está jogando venezuelanos para fora de seu país".

A vida no Brasil

O risco que o acompanhou na Venezuela persistiu nos primeiros dias no novo país. Oswaldo conseguiu vender alguns bens no país natal e juntar dinheiro, mas que não foi suficiente. Logo arrumou um trabalho – que de emprego não tinha nada.

"Era uma escravidão. Trabalhava no sol, como ajudante de mecânico, carregando e desmontando peças das 7h às 20h. Comia só uma vez, todo dia a mesma coisa. Depois me falaram que o pagamento era a casa em que eu vivia. Uma humilhação. Eles acabaram denunciados e isso inclusive está na Justiça", alivia-se.

A partir dali, Pérez, como ele mesmo diz, está "se virando como artista de rua", aproveitando-se do talento com o violão clássico e com a harpa, instrumentos que toca há quase três décadas.

"Levo os instrumentos para as ruas, praças e às vezes festas ou aniversários. Dá um jeito de pagar as contas e me sustentar. A música é uma atividade de espírito. Usei ela como alternativa para suportar este trauma de uma mudança tão brusca e repentina. E ainda levo alegria para os outros".

Mas a carreira de artista de rua é temporária. Pérez quer validar seu diploma como advogado e tentar atuar na área de direito em seu novo país. Ele conta que está regular como temporário no Brasil, faltando apenas uma entrevista para ser oficialmente reconhecido como exilado político e ter a residência fixa.

Assim que o processo for concluído, ele quer trazer mais dois filhos (a caçula já vive com ele) e a neta (herdeira do seu primogênito assassinado) para seu apartamento na capital roraimense.

Oswaldo sente saudade da Venezuela e de uma vida de mais conforto – que segundo ele era possível por fazer parte de uma família tradicional, e não por causa do salário de juiz: "lá pagam muito mal". A ideia é um dia voltar ao país natal, mas sem deixar definitivamente o país que lhe abriu as portas.

"Sempre gostei do Brasil. Já tinha vindo há muitos anos, como turista. E é um povo que tem um acolhimento que não existe em outro lugar. Agradeço em meu nome e em nome de todos os venezuelanos que estão vindo. Claro que amo minha pátria, onde nasci, cresci e me formei. Gostaria de voltar quando tudo se acalmar. Mas quero ter dupla nacionalidade e uma casa aqui também", encerra.

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