Prefeitura vai demolir creche palco de tragédia em Janaúba (MG)

Mário Bittencourt

Colaboração para o UOL, em Janaúba (MG)

A Prefeitura de Janaúba (547km de Belo Horizonte) informou neste final de semana que vai demolir o imóvel onde funciona a creche alvo de um ataque incendiário, que resultou na morte de dez pessoas, entre elas oito crianças, uma professora e um vigia, apontado pela polícia como o responsável pelo incêndio.

A creche tinha capacidade para 82 crianças. O prédio foi interditado e, segundo a administração municipal, apenas nesta segunda (9) será definido o local onde funcionará a "creche provisória" até que um novo prédio seja construído.

De acordo com o prefeito Carlos Isaildon Mendes (PSDB), um memorial será construído no local da tragédia. Ele afirmou que ainda não há um custo estimado para as obras, mas que a nova creche deve ficar pronta em 80 dias e não terá investimento público – a prefeitura já recebeu mais de R$ 400 mil de doações em dinheiro, segundo a administração.

"Vamos dar a este lugar um novo ambiente, em que as crianças e professoras possam ser recebidas de forma acolhedora", disse o prefeito.

O Ministério Público Estadual em Minas Gerais abriu quatro procedimentos para investigar o caso. Os promotores querem saber:

  • se o vigia estava apto a trabalhar na creche
  • se o prédio tinha estrutura e um plano de combate a incêndio
  • se o dinheiro de doações vai ser aplicado corretamente
  • se as vítimas estão recebendo assistência adequada

O drama das famílias em Janaúba (MG)

Alívio e preocupação

Ter o filho Kaio Pierre dos Santos, de 2 anos, de volta ao lar era tudo que desejava o casal Andrea Rodrigues Monção, uma doméstica de 34 anos, e Thierry Cledávis dos Santos, 40, encarregado de pessoal numa empresa agrícola em Janaúba.

O menino é um dos 38 feridos no incêndio de quinta-feira (5) no Centro de Educação Municipal Gente Inocente.

Mário Bittencourt/Colaboração para o UOL
O casal Thierry e Andrea, com o filho Kaio

Kaio (que teve uma pequena queimadura no pé esquerdo) e outras 15 crianças deixaram neste sábado (8) os hospitais onde estavam em observação desde quinta-feira. Mais 22 pessoas continuam internadas em unidades de Minas, entre elas Maísa Barbosa dos Santos, 5, que, segundo relato dos pais, tirou Kaio da creche no momento do fogo.

"Estava no trabalho. Eu sai correndo a pé pela rua para ir pra creche, aí um irmão meu me encontrou e me levou de moto. Quando cheguei me disseram: 'olha, teu filho ou está no hospital ou está lá dentro morto queimado. Eu entrei, procurei o menino dentro da creche e nada. Quando saí, encontrei uma das professoras dele e ela me falou que Kaio estava bem. Foi uns 15 a 20 minutos de agonia, só que para mim parece que foi horas", disse Andrea.

Segundo Andrea, Maísa já tinha saído da creche no momento do fogo, mas voltou, atravessou a fumaça e pegou Kaio pelo braço, levando-o para fora.

"Estou feliz por estar com meu filho em casa, mas muito preocupada com ela [Maísa] também. A menina salvou meu filho".

O estado de saúde de Maísa é grave. Ela sofreu queimadura nas vias aéreas e já teve uma parada cardíaca, segundo informou o Hospital João XXIII, onde está internada, em Belo Horizonte.

A Prefeitura de Janaúba informou que disponibilizou quatro CAPs (Centro de Assistência Psicossocial) de plantão para atendimento às vítimas e familiares. A família de Kaio disse que começará o atendimento nesta segunda-feira.

Divulgação/PM
O vigia Damião Soares dos Santos

A tragédia poderia ter sido evitada?

O Departamento de Polícia Técnica de Minas Gerais informou na sexta (6) que foi recomendado à Secretaria Municipal de Saúde de Janaúba que o autor do crime, o vigia Damião Soares Santos, 50, tivesse tratamento psiquiátrico, o que não ocorreu.

De acordo com a prefeitura, foi Damião quem não se apresentou para procurar o tratamento. Em nota divulgada neste sábado, a administração informou que "não há registro de atendimento do senhor Damião Soares dos Santos nos diversos dispositivos da rede de saúde mental."

Outra preocupação dos profissionais que atuam na rede de assistência psicológica do município é com relação às dúvidas que o caso pode provocar em pessoas que estão passando por tratamento psicológico ou psiquiátrico na cidade.

"Todos os nossos usuários da rede, sejam eles funcionários públicos ou de empresas, passam por avaliação se estão conseguindo desenvolver suas atividades laborativas normais. Caso não estejam, comunicamos ao local de trabalho sobre a necessidade de afastamento da pessoa para tratamento, que é acompanhado pela família", disse a psicóloga Janini Moraes Pereira, do CAPs II, onde são realizados a 1.200 atendimentos por mês.

Para ela, não é possível afirmar que o vigia Damião sofria de transtornos mentais somente pelo fato dele ter sido indicado para tratamento psiquiátrico, tendo passado por atendimento psicológico apenas uma vez.

"Só é possível afirmar que a pessoa tem problemas graves de saúde mental depois que ela passa por várias avaliações e isto nunca foi feito no caso dele, conforme os registros da rede municipal, onde ele nunca esteve", disse.

A Polícia Civil também investiga o caso e deve concluir o inquérito em até 30 dias.

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