Violência em São Paulo

Saiba como a polícia encontrou um cemitério clandestino do PCC na Grande São Paulo

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Deic

    09.out.2017 - Delegado Antonio José Pereira (dir.), do Deic, em vistoria a cemitério clandestino utilizado pelo PCC em uma área de mata de Mauá, na Grande SP

    09.out.2017 - Delegado Antonio José Pereira (dir.), do Deic, em vistoria a cemitério clandestino utilizado pelo PCC em uma área de mata de Mauá, na Grande SP

A Polícia Civil esclareceu como criminosos do PCC (Primeiro Comando da Capital) julgaram, condenaram e executaram quatro pessoas em um tribunal ilegal. Os policiais também descobriram que seus corpos foram levados para um cemitério clandestino usado pela facção criminosa em Mauá, na periferia da Grande São Paulo.

A prática criminosa de julgar pessoas ligadas ao crime organizado é conhecida como "Tribunal do Crime". Esse "tribunal" tem como finalidade "perdoar" alguém (ligado ou não à facção) por um "erro" cometido na comunidade em que vive ou "condenar" a pessoa, o que nesse caso sempre resulta em sentença de morte.

A investigação da polícia durou menos de duas semanas. Em entrevista exclusiva ao UOL, o delegado Antonio José Pereira, que está à frente das investigações, contou os bastidores da investigação da polícia sobre o caso.

A investigação veio à tona na manhã de segunda-feira (9) quando quatro corpos foram achados em um local usado pelo PCC como um cemitério clandestino. Ele fica em uma área de mata em Mauá, próximo à estrada do Carneiro. Também na segunda-feira, uma mulher suspeita de ter envolvimento nos assassinatos foi presa

O processo de investigação começou no dia 27 de setembro, quando policiais da delegacia do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) que investiga latrocínios (roubos seguidos de morte) monitoravam integrantes do PCC envolvidos em roubos. "Havia uma grande movimentação na comunidade Recanto Vital Brasil na cidade de Mauá. Ficamos sabendo que haveria naquele dia um 'tribunal do crime', mas não sabíamos o local e quem seriam as vítimas", disse o delegado Antonio José Pereira.

"Diante da escassez de informações, não conseguimos evitar o 'julgamento'. Dias depois, tomamos conhecimento que houve o 'tribunal' e que cerca de 14 integrantes da facção julgaram e condenaram quatro pessoas à morte. As pessoas estariam enterradas nas proximidades da estrada do Carneiro, naquela cidade", afirmou o delegado, titular da 1ª Delegacia de Latrocínios.

Veja como é o local do cemitério clandestino do PCC

Integrantes da delegacia então se dedicaram integralmente à investigação do caso. "Fizemos incansáveis buscas, utilizamos cães farejadores da Guarda Municipal de São Paulo, mas somente na data de ontem conseguimos localizar o local em que estavam enterrados os corpos", disse.

Os quatro corpos encontrados são de Adriana Gonçalves dos Santos, 42, que já havia sido processada e absolvida pelo crime de homicídio em 2004; Eliezer Rodrigues Santos, 32, que tinha passagem por tráfico de drogas; e Lenilton Paixão de Oliveira, 41, que havia sido detido em flagrante, por roubo, no dia 24 de agosto deste ano, e liberado no dia seguinte pela audiência de custódia.

O quarto homem encontrado no cemitério clandestino não foi identificado até a tarde desta terça-feira (10). Inicialmente, o Deic havia informado que ele não tinha ligação com o "tribunal do crime" e que morreu por estar no local e na hora errados. O delegado, no entanto, afirma que ele era um "informante" e tinha relação com o crime.

A polícia suspeita que possa haver mais corpos enterrados na região, mas também diz que o cemitério encontrado não é o único utilizado pelo PCC para enterrar corpos de pessoas assassinadas por desavenças com a facção, que incluem os chamados "tribunais".

"Não temos dúvidas sobre a existência de outros locais para desova (de corpos). Sempre que tomamos conhecimento, providências são tomadas", afirmou.

Quem são as vítimas?

Segundo a Polícia Civil, Adriana Gonçalves tinha alguns inquilinos, entre eles Santos e Oliveira, encontrados mortos com ela. No dia 17 de setembro deste ano, Adriana tramou a morte de um outro inquilino, chamado Matheus. "Contratou Eliezer e Lenilton e ambos mataram Matheus. Ainda não sabemos os motivos deste crime", afirmou o delegado ao UOL.

"A facção não gostou dessa morte e, através de um informante da facção, chegaram até Adriana e os dois matadores. Fizeram o julgamento e decidiram por matar todos, inclusive o informante, totalizando os quatro mortos: Adriana, Eliezer, Lenilton e o informante, ainda não identificado", disse Pereira.

Integrante do PCC

A polícia prendeu uma suspeita de envolvimento com o caso. Ela é Wiliana Cristina da Silva, 41, e estaria envolvida no mundo do crime há muito tempo, de acordo com a Polícia Civil. "(Ela) tem condenação por tráfico de entorpecente e já passou pela penitenciária de Santana. Estava em liberdade condicional. Seu marido está preso", afirmou o delegado. A reportagem não conseguiu localizar a defesa da suspeita.

Divulgação/Deic
09.out.2017 - Wiliana Cristina da Silva, 41, suspeita de ter mandado matar inquilino

"A mulher detida foi apontada durante as investigações como sendo filiada ao PCC e falava constantemente no bairro sobre a morte das vítimas e o local onde estavam enterradas. Quando de sua prisão, ela trazia consigo farta documentação do partido (fação criminosa PCC), cartas, receitas para fabricação de drogas e uma munição de calibre 38", afirmou Pereira.

"Ela foi presa em flagrante pelos crimes de porte de munição e organização criminosa. Pelas mortes das vítimas, estamos representando pela prisão temporária dela", disse o delegado. Segundo o Deic, a suspeita vai passar por audiência de custódia nesta terça-feira (10).

Além dela, a equipe do Deic afirma ter identificado outros dois envolvidos no crime. As prisões de ambos devem ser pedidas em breve.

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