Coordenadora conta como conteve atirador: 'segurei o pulso e apontei a arma para sala sem alunos'

Do UOL, no Rio

  • Reprodução/TV Globo

    "As crianças estavam correndo, descendo as escadas, dizendo que o aluno tinha ficado louco, estava atirando em todo mundo", relatou a coordenadora da escola

    "As crianças estavam correndo, descendo as escadas, dizendo que o aluno tinha ficado louco, estava atirando em todo mundo", relatou a coordenadora da escola

A coordenadora escolar Simone Maulaz Elteto contou neste domingo (22) como acalmou o adolescente de 14 anos responsável pelo ataque que deixou dois mortos e quatro feridos no Colégio Goyazes, em Goiânia, na última sexta-feira (20). Ele trabalha na escola há 17 anos. Em entrevista ao "Fantástico", da Rede Globo, ela disse que pediu calma ao jovem e foi com ele até a biblioteca até que a polícia chegasse.

"Eu estava na biblioteca. Eu ouvi o primeiro disparo, quando eu já corri para ver o que estava acontecendo. Crianças estavam correndo, descendo as escadas e gritando que um aluno tinha ficado louco e estava atirando em todo mundo. Eu vi primeiro a M.. Ela estava ferida, eu tirei ela da mira, onde ele pudesse alvejá-la novamente. Entreguei ela para professora e pedi para que ligassem para a polícia", disse.

"Aí eu fui até a sala. Quando eu entrei, que eu olhei, eu vi os alunos João Pedro, João Victor [que morreram no local] e I. caídos, feridos e muito sangue. E ele estava com a arma em punho. Só eu, ele e os alunos feridos. Então, eu me aproximei dele, não tive medo, coloquei a mão no ombro dele e falei: 'O que é que houve? Tá tudo bem?' Ele tava um pouco alterado... Ele não apontou a arma para mim. Nesse momento, ele ficou um pouco alterado e deu um tiro para trás da sala, para parede. Aí eu falei: 'Fica calmo'. Me dá a arma, entrega para mim. Ele não quis e falou: 'Eu quero que chamem meu pai'. Eu falei: 'Eu já chamei o seu pai, fica tranquilo, confia em mim'. Nós vamos resolver isso", contou a coordenadora.

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"Nesse momento, ele saiu de perto de mim e foi caminhando para sair da sala. Aí eu fui junto com ele. Chegando no corredor, eu fiquei com muito medo dele entrar nas salas onde tinham outros alunos. Então, eu tinha que impedi-lo. Nesse momento, eu me posicionei à frente dele, pedi muita calma a ele, pedi que ele me entregasse a arma, ele continuou caminhando, e eu, tentando me posicionar, sem movimentos bruscos, na frente dele", afirmou.

"Nesse momento, ele ficou com a mão assim e a arma ficou apontada para o meu abdômen. A mão direita, eu pus no ombro dele. E a mão esquerda, eu fui empurrando devagar a arma pro rumo da parede de uma sala que eu sabia que estava vazia, sem alunos. Depois, eu consegui segurar a mão dele com as duas mãos. Falei: 'Fica calmo, vem comigo, tudo vai ser resolvido'. Aí, nós descemos as escadas, eu sabia que tinha pais de alunos, alunos e funcionários no térreo da escola, porque na minha cabeça eu sabia que tinha muita gente lá e que eu não podia levar ele para lá", complementou.

Na sequência, a coordenadora contou que levou o garoto para a biblioteca. "Falei: 'vamos entrar aqui, comigo'. Sempre segurando. Nessa hora, eu tava com a mão esquerda, segurando o punho dele. Eu fiz ele sentar numa cadeira, na biblioteca, perto de uma mesa, e fui me aproximando dele. E levei minha outra mão por cima da outra mão, porque ele é grande e mais forte que eu."

"Aí eu posicionei a mão dele para baixo, de forma que a arma não ficasse apontada para ele nem para mim. Aí eu falei pra ele: 'larga a arma, por favor'. Ele travou a arma e eu continuei segurando a mão dele com calma. Aí os policiais entraram gritando para ele soltar a arma e deitar no chão. Falei para ele: 'vamos fazer o que eles tão pedindo. Por favor'. Nesse momento, ele largou a arma, mas eu continuei segurando a mão dele, o braço dele, porque eu fiquei com medo dele atirar nos policiais ou atentar contra a própria vida. Ou contra a minha", disse.

"Tirei a mão dele de perto da arma, pus a mão no ombro dele e falei 'deita aqui'. Então, ele deitou. Nessa hora, eu saí correndo da biblioteca e falei pros policiais que eu precisava de ajuda, precisava ligar para as ambulâncias, que eles me ajudassem. Eu me encaminhei até a sala do 8º ano, onde tinham os alunos que eu já tinha visto feridos. Até então, eu achava que estavam só feridos", complementou.

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"Deixemos de lado os julgamentos", diz escola

Mais cedo, os diretores da escola particular se manifestaram pela primeira vez. Em nota, os responsáveis pela unidade de ensino dizem se unir ao luto das famílias e pedem que julgamentos não sejam feitos.

"Deixemos de lado os julgamentos e vamos promover uma profunda reflexão na sociedade, nas escolas e nos lares e sobretudo uma reflexão individual perguntando o que podemos fazer para amenizar a dor desse momento e como deveremos agir para evitar futuros fatos assim tristes", diz o texto.

A escola também se coloca à disposição dos pais dos alunos e diz que o calendário do ano letivo será redefinido durante a semana.

Pela manhã, um dos adolescentes feridos no ataque recebeu alta hospitalar. H.M.B., 13, estava internado no Hugo (Hospital de Urgências de Goiânia) desde sexta-feira, quando o jovem de 14 matou dois colegas e deixou outros quatro feridos.

O empresário Thiago, pai de H.M.B, disse ao jornal "O Estado de S. Paulo" que o jovem está andando, mas ainda sente um pouco de dor. Ele levou um tiro no tórax, mas o projétil não chegou a perfurar o pulmão. A bala ficou alojada nas costas do estudante e, segundo o pai, os médicos decidiram não remover.

"Ficou a um centímetro para acertar a medula. Foi Deus", conta.

A pedido dos familiares, o Hugo deixou de divulgar informações sobre o estado de saúde das outras duas jovens que estão internadas no local.

Na manhã de ontem (21), foi informado que a menina I.M.S., 14, estava em estado grave na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), respirando com a ajuda de aparelhos. Ela é a vítima em estado mais grave após levar três tiros, que atingiram uma mão, o pescoço, de forma superficial, e o tórax.

Já a jovem M.R.M., 14, tinha estado de saúde estável e havia sido levada para a UTI no sábado para monitoramento, mas não corria risco de morte. Ela teve o pulmão esquerdo perfurado por um tiro.

A quarta vítima foi levada para o Hospital dos Acidentados, que não informa o estado de saúde.

No sábado, os corpos dos adolescentes João Pedro Calembo e João Vítor Gomes, vítimas do atirador, foram enterrados. Eles morreram na hora, dentro de sala de aula, depois de terem sido atingidos por diversos disparos à queima-roupa.

Durante o sepultamento, o pai de João Pedro, Leonardo Calembro, afirmou que, no momento, não se deve julgar o responsável pelo crime, e sim entender o que acontecer e perdoar. "Eu espero que toda a sociedade e os outros pais o perdoem pelo fato acontecido. Não devemos julgá-lo agora. Nós temos de entender e perdoar".

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Justiça determina internação provisória de atirador

Também no sábado, a Justiça de Goiás acolheu pedido feito pelo Ministério Público e determinou a internação provisória, por 45 dias, do adolescente que atirou contra os colegas. A decisão é da juíza plantonista Mônica Cezar Moreno Senhorelo.

Em sua decisão, a juíza diz que a internação é uma medida que se impõe para a garantia da ordem pública, considerando a gravidade do ato infracional, "análogo ao crime de homicídio consumado e tentado", visando ainda preservar a integridade física do adolescente. No despacho, a juíza diz ainda que a internação não deverá ultrapassar o prazo máximo de 45 dias, em obediência aos artigos 108 e 174 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

O jovem deverá se apresentar ao Juizado da Infância e Juventude na segunda-feira (23), que o encaminhará ao Centro de Internação Provisória, conforme solicitado pelo Ministério Público e determinado pela juíza. Desde sexta, o garoto está detido na Depai (Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais).

Segundo o promotor Cássio Sousa Lima, o adolescente disse no depoimento estar arrependido e que planejou a ação como uma forma de retaliação. "O adolescente confirmou que foi motivado pelo bullying que sofria, mas demonstrou arrependimento", disse o promotor.

Ainda de acordo com o promotor, o pai relatou que a arma estava em local seguro e difícil de acessar. A mãe não esteve no depoimento porque foi internada, em choque, após o acontecimento, e ainda não teve alta.

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