Após marcha de nove horas, sem-teto chegam à sede do governo de SP para pedir moradia

Janaina Garcia e Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

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    Sem-teto protestam em frente ao Palácio dos Bandeirantes

    Sem-teto protestam em frente ao Palácio dos Bandeirantes

Após nove horas de caminhada, militantes do MTST chegaram às 16h10 desta terça-feira (31) ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Os manifestantes querem cobrar do governador Geraldo Alckmin (PSDB) a desapropriação de um terreno ocupado por eles em São Bernardo (SP). Eles querem que sejam construídas moradias populares no local.

O grupo deixou a ocupação Povo Sem Medo, na rua João Augusto de Sousa, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, às 7h. O percurso, segundo a organização, foi de 23 km.

Luís Adorno/UOL
Almoço servido aos militantes antes de o grupo de sem teto retomar a caminhada rumo ao Palácio dos Bandeirantes

De acordo com o líder dos sem-teto, Guilherme Boulos, cerca de 10 mil participaram da marcha pela manhã. O objetivo era chegar ao Palácio dos Bandeirantes com 25 mil participantes. Não foi possível confirmar o número com fontes independentes. A Polícia Militar informou que fará um balanço dos participantes após o fim da marcha. 

Uma comissão com dez integrantes do MTST entrou no palácio às 17h para ser recebida por representantes da Casa Civil e da CDHU, a agência de habitação do governo.

No último dia 2 de outubro, o Tribunal de Justiça paulista manteve a decisão, proferida em primeira instância, de reintegração de posse do terreno ocupado, que tem uma área de 60 mil metros quadrados.

Luís Adorno/UOL
Após concentração no início da manhã, marcha começou a caminhada por volta das 7h30

A marcha teve início na avenida Robert Kenedy, em São Bernardo. Em Diadema, os manifestantes passaram pela avenida Piraporinha, seguiram pelo Corredor ABD e caminharam pela avenida Fábio Eduardo Ramos Esquível. Eles se deslocaram pela avenida Cupecê e Roque Petroni Júnior e avançam pela avenida Morumbi em direção ao palácio.

Por volta de meio-dia, ao menos quatro carros, estacionados ao redor do parque Nabuco, na avenida Cupecê, serviram almoço aos militantes. A comida --arroz, feijão, purê e carne moída, guardada nos porta-malas dos veículos --foi preparada por integrantes do movimento.

Andreia Barbosa, liderança do MTST diz que a ideia é de que o ato seja pacífico até o fim. Ao chegar no Palácio, os sem-teto querem conversar com o governo estadual sobre a ocupação Povo sem Medo, de São Bernardo.

"Não dormi, como liderança, fiquei fazendo comida, café para os companheiros. Vamos até lá com ânimo", disse.

UOL
Manifestante diz ter sido atingida por disparo de arma de pressão ou estilingue

Uma militante, que se identificou como Elaine, afirmou que foi atingida por algo semelhante a um chumbo enquanto almoçava, em frente ao parque Nabuco. Integrantes do grupo a levaram a uma ambulância, que está no apoio, atrás da passeata. Segundo Boulos, ela deve receber um curativo simples na ambulância. "Está ardendo. Me disseram que foi um estilingue, mas não sei o que me pegou. Dói muito", disse a militante ao UOL, chorando.

PMs que estavam ao lado dizem que a suspeita é de que ela tenha sido vítima de um tiro de chumbinho disparado por espingarda de pressão, porque, após ser atingida, foi constatada uma bola preta pequena no chão.

Veja imagens aéreas da manifestação

Manifestante gritam palavras de ordem

Durante a marcha, os sem-teto gritaram palavras de ordem, como: "Ou negocia, ou não vai ter arrego" e "Aqui tem um bando de louco, louco por moradia, e aqueles que a acham que é louco, não sabem o que é noite fria".

À frente, na caminhonete de som, uma mulher militante do MTST tentava convencer os trabalhadores sobre a importância do ato.

Ela e os manifestantes ganham a simpatia de alguns e a ira de outros. "Aí sim, eles querem moradia, eu também quero. A luta é justa e, apesar de atrapalhar o trânsito, e, consequentemente, meu trabalho, é difícil dormir em paz sabendo que tem várias pessoas sem um lar", diz o motorista de Uber Milton Alves, 25, em frente ao terminal de ônibus Piraporinha.

"Isso aqui é um absurdo. E o direito de ir e vir? As pessoas sabem dos seus direitos, mas não sabem dos seus deveres. Eu sou contra", diz um homem que trabalha em uma banca de jornal e que pede para não ser identificado "por não saber o que há por trás do MTST".

"Aqui não é vagabundo. É trabalhador que luta pelo direito de moradia. Por esse direito, ocupamos e estamos na rua para garantir uma moradia digna às 8.000 famílias que ocupam a Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo", afirmou Boulos.

Conceição Nicácio/Colaboração para o UOL
Em São Bernardo do Campo, os manifestantes caminharam pela avenida Robert Kennedy, uma das principais da cidade da região metropolitana; eles irão caminhar até o palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, na capital paulista

Show de Caetano é proibido

A marcha, que já estava prevista desde a semana passada, ocorre um dia após a Justiça de São Paulo proibir um show do cantor Caetano Veloso no acampamento.

A decisão partiu da juíza Ida Inês Del Cid da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo após o Ministério Público entrar com uma ação civil pedindo a não realização do show na tentativa de manter a integridade de todos os envolvidos.

Após ter tido o show cancelado, Caetano Veloso disse ser esta a primeira vez que isso acontece com ele no Brasil desde o fim da ditadura (1964-85).

Ocupação tem cerca de 7.000 famílias

Cerca de 7.000 famílias vivem atualmente no terreno. A ocupação começou em setembro com 500 famílias, cresceu e atraiu outros sem-teto da periferia da capital paulista, de São Bernardo, de onde é maioria dos ocupantes, e de Diadema. Ela acabou batizada pelo movimento como "Povo Sem Medo".

O terreno pertence à MZM Construtora desde 2008. "Existem projetos em tramitação na prefeitura para esta área", disse a empresa em nota no início do mês.

O terreno fica na região central e vizinhas a prédios de classe média alta. Segundo o MTST, o terreno está abandonado há mais de 30 anos e com uma dívida de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) de aproximadamente R$ 500 mil.

Sobre a dívida, a construtora diz que "não há pendências de impostos, e, sim, um pedido de revisão sobre o valor lançado do imposto de 2017, em andamento na Prefeitura através de recurso administrativo", informou por meio de nota.

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