Para secretário de MS, narcotráfico na fronteira sustenta violência no Rio

Paulo Renato Coelho Netto

Colaboração para o UOL, em Campo Grande

  • João Garrigó/Sejusp/Divulgação

    José Carlos Barbosa durante incineração de drogas em Mato Grosso do Sul

    José Carlos Barbosa durante incineração de drogas em Mato Grosso do Sul

Deputado estadual eleito em 2014 pelo PSB, José Carlos Barbosa é quem comanda o combate ao narcotráfico no Mato Grosso do Sul há um ano e meio. Formado em direito, Barbosa, 53, é hoje o secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública.

Ao comentar a luta contra as drogas, Barbosa não poupa críticas a quem, em sua opinião, poderia estar ajudando: "Acredito que a União tem tratado com muita omissão e irresponsabilidade o assunto referente às fronteiras", diz.

"Em um momento em que temos um aumento violento na produção de drogas e apreensões de entorpecentes em nosso Estado, é exatamente o momento em que vemos um processo de sucateamento da Polícia Rodoviária Federal e da falta de concursos para a Polícia Federal. Com isso, assumimos uma responsabilidade que deveria competir à União."

Embora não exista um estudo científico, as autoridades sul-mato-grossenses acreditam que 60% da maconha e da cocaína que entram no Brasil sejam pelo Estado. "São números extremamente significativos e impactantes no cenário do crime utilizando as fronteiras de Mato Grosso do Sul", avalia.

Para ele, enquanto não se resolver o problema do narcotráfico na fronteira, o Brasil vai continuar assistindo diariamente às cenas de violência no Rio de Janeiro. "A criminalidade no Rio está diretamente ligada à questão do tráfico de drogas", afirma.

Procurado por telefone e por e-mail por mais de duas semanas para informar o que o governo federal está fazendo para combater o narcotráfico nas fronteiras de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia, o Ministério da Justiça e Segurança Pública não retornou à reportagem do UOL até a publicação deste texto. O Planalto informou que não vai comentar as declarações de Barbosa.

Apreensões de drogas crescem 61% em 1 ano

Durante todo o ano de 2016, foram apreendidas cerca de 300 toneladas de entorpecentes pelos policiais ligados à Sejusp.

Só até setembro deste ano, as apreensões já superaram 353 toneladas. No mesmo período do ano passado, as autoridades apreenderam 220 toneladas de drogas, ou seja, houve um crescimento de 61%.

João Garrigó
Pilhas de maconha e cocaína prontas para incineração no Mato Grosso do Sul

Em 2016, um terço de toda a maconha apreendida pela Polícia Federal no Brasil foi em Mato Grosso do Sul, ou 83 toneladas.

De acordo com o secretário, o Estado é o principal corredor de entrada de entorpecentes vindos do Paraguai e da Bolívia, de onde se alimentam os grandes centros consumidores, mas também as drogas que passam pelo território nacional com destino aos Estados Unidos e à Europa.

"Outros países produtores na América Latina estão usando o Paraguai e a Bolívia para contrabandear maconha e cocaína para o Brasil", revela.

Mato Grosso do Sul possui 1.517 km de fronteira, 1.131 km com o Paraguai e 386 km com a Bolívia, dos quais 549 km são de fronteira por terra, sem rios ou águas do pantanal separando. Faz divisa com São Paulo, Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso.

"Da fronteira, a droga vai para Campo Grande, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiânia, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais", diz João Alves de Queiroz, delegado titular da Defron (Delegacia Especializa de Repressão aos Crimes de Fronteira).

A Defron, em Dourados (MS), 201 km ao sul de Campo Grande, trabalha em conjunto com o DOF (Departamento de Operações de Fronteira).

A missão dos policiais é patrulhar uma faixa de fronteira que engloba 52 municípios, muitos dos quais basta atravessar a pé uma rua para chegar ao país vizinho.

"Nós já apreendemos neste ano mais de 97 toneladas de maconha, que dariam facilmente para lotar 20 carretas de entorpecentes. É muita coisa", diz o delegado Queiroz.

A maconha é transportada, segundo ele, em fundos falsos de caminhões e paredes de caminhões-baú que, mesmo sem carga, não transparecem que estão contrabandeando até três toneladas de entorpecente.

PRF
Policiais abrem fundo falso de carreta com cocaína; carga foi avaliada em R$ 3 milhões

Transporte de drogas em bicicleta e "cavalo-doido"

Os traficantes escondem a droga na lataria dos carros de passeio e têm usado o que chamam de "cavalo-doido": um veículo roubado ou furtado, cheio de maconha e cocaína, que viaja em alta velocidade pelas estradas sul-mato-grossenses.

Ao perceber alguma barreira policial, invadem fazendas, abandonam o veículo e tentam fugir em plantações.

A droga pode ser escondida ainda, segundo o policial, no meio de cargas de cereais ou em fundos falsos de carretas. Até caminhões bitrem e de óleo vegetal são usados pelo narcotráfico.

PRF
Caminhão bitrem interceptado pela PRF em MS carregado com 169 kg de cocaína pura

"Às vezes a gente vê dois ou três ciclistas passando por aqui, vai revistar e eles estão transportando até 70 quilos de maconha cada um nas bicicletas", conta o delegado.

O titular da Defron revela que existem centenas de estradas vicinais utilizadas pelos traficantes, estradinhas de areia que cortam fazendas e que são conhecidas em detalhes pelos criminosos.

"O problema dos traficantes é sair de Mato Grosso do Sul com a carga. Mesmo com nossas limitações, é aqui que são pegos. Quando chegam aos Estados vizinhos, sabem que dificilmente serão presos. Daí eles relaxam, param em postos de gasolina, lancham tranquilamente e seguem viagem", conta.

No ano passado, a Defron fez apenas uma incineração de drogas em Dourados. A quantidade de apreensões subiu de tal forma que até o início de outubro de 2017 a delegacia havia feito seis incinerações para destruir os entorpecentes apreendidos.

Entre janeiro a outubro deste ano foram apreendidas mais de 97 toneladas de maconha somente no sul do Estado, quantidade bem superior a toda apreensão desta droga em 2016, que chegou a 60 toneladas. Em 2017, também até outubro, foi apreendida mais de meia tonelada de cocaína na mesma região, praticamente 600 kg. Em 2016, as autoridades policiais apreenderam 589 kg de cocaína durante o ano todo. Por vez, as incinerações de maconha variam entre 8.000 a 38 mil kg e as de cocaína de 9 kg a 235 kg.

Paulo Renato Coelho Netto
O juiz aposentado Odilon de Oliveira

"Tráfico na fronteira cresceu absurdamente", diz ex-juiz

Odilon Olveira, juiz federal recém-aposentado, afirma que a fronteira está quase que totalmente sem policiamento. Fala com conhecimento de causa. Dos 30 anos que trabalhou na magistratura, 28 foram na fronteira de Mato Grosso do Sul.

"Você não vê policiais na fronteira a não ser o DOF e a Polícia Rodoviária Federal. A Polícia Federal não tem efetivo para fazer o trabalho de campo. Hoje, a PF tem condições mais de fazer o papel de inteligência. As fronteiras estão abertas."

Odilon de Oliveira diz ver em um quadro cada vez pior para a questão do narcotráfico no Brasil. "Se você for projetar isso para a frente, daqui a 15 anos a coisa vai estar completamente fora de controle. Se projetar na mesma velocidade que vem desde 20 anos atrás, o Estado não vai ter a menor ingerência nisso."

"Em 1996, 21 anos atrás, eram apreendidos aqui [em Mato Grosso do Sul] em torno de oito a dez toneladas de maconha por ano. Só isso. As apreensões de cocaína eram pequenas, um quilo, dois. Cinco quilos já era uma montanha. Hoje em dia você pega dez quilos de cocaína com 'mula' [quem transporta droga escondido]. Cem a duzentos quilos de maconha com 'mula'. A coisa cresceu absurdamente", avalia Oliveira.

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