'Cuidar de pessoas? É ruim, hein?': subúrbio que elegeu Crivella diz que promessas não saíram do papel

Paula Bianchi e Taís Vilela

Do UOL, no Rio

Moradores do subúrbio da capital fluminense ouvidos pelo UOL dizem que ainda não viram as promessas feitas pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB) saírem do papel um ano após sua posse. A região votou em peso no ex-senador, levando-o à prefeitura com quase 60% dos votos válidos.

"Se está cuidando das pessoas, não estou vendo", diz o mecânico de bicicletas Magton Luiz da Silva, 47, morador de Santa Cruz, referindo-se ao slogan com que Crivella se elegeu.

A cerca de 67 km do centro e com ares de zona rural, o bairro da zona oeste do Rio foi o local em que o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus alcançou sua maior votação --76,15% dos votos válidos. Parte das ruas ainda não tem asfalto e carroças dividem o espaço com carros, ônibus e vans.

"Nesse um ano, para mim, nada mudou", diz o mecânico ao comentar que esperava mais do prefeito. "A eleição acabou, promessas foram feitas e, pelo o que vejo... O comércio tem sofrido, os moradores, semana passada, eu e minha família quase morremos afogados. Alagou tudo. São coisas que vão nos decepcionando."

Vizinho ao hospital Pedro II, administrado pelo município, Magton conta que, há três meses, com gordura no fígado, tentou ser atendido no local. Após passar horas deitado no chão com dor, ouviu dos próprios médicos que era melhor procurar outro lugar, uma vez que eles não tinham previsão de quando poderiam atendê-lo na unidade. "Você já foi lá? Espero que nunca precise. Você vê a morte na porta."

A situação da saúde do município foi a principal reclamação feita pelos moradores à reportagem, que percorreu na semana passada os bairros em que o prefeito foi mais votado, todos na zona oeste da cidade (assista ao vídeo). Transporte, saneamento, educação, lazer e segurança também foram citados como exemplos de áreas deixadas de lado.

Mesmo os moradores que disseram confiar que a gestão ainda irá trazer melhorias para a região relataram ter visto pouco ou nenhuma diferença --o asfalto colocado em parte das ruas foi apontado como a principal mudança.

"A região está estagnada. Aqui, não piorar já é uma vitória", comentou o dono de uma farmácia em Cosmos, também um dos bairros em que o prefeito teve a maior votação. "Ele também pegou a cidade numa situação muito ruim", ponderou a atendente de uma lanchonete no bairro de Paciência.

Taís Vilela/UOL
"Se está cuidando das pessoas, não estou vendo", diz o mecânico de bicicletas Magton
Os depoimentos vão ao encontro da última pesquisa Datafolha sobre a gestão municipal, divulgada em outubro, em que o prefeito aparece com 16% de aprovação. A gestão Crivella é considerada ruim ou péssima por 40% da população e regular por 39% dos cariocas.

Na mesma pesquisa, 68% dos moradores da zona oeste responderam que o prefeito "fez pela cidade menos" do que esperavam, 20% disseram que a administração atual "fez pela cidade o que esperavam" e 5% consideraram que foi feito mais que o esperado.

Levantamento feito pelo "Aos Fatos" em parceria com o UOL mostrou que o prefeito cumpriu integralmente apenas três das 14 propostas para serem completadas até o fim de 2017 registradas em seu programa de governo no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), quando o político concorreu à prefeitura carioca.

Crivella atribui ao governo anterior a situação atual e diz que encontrou o município em uma situação muito pior do que a que esperava. No primeiro ano de gestão, o prefeito aprovou aumento do IPTU e reduziu investimentos para, segundo ele, tentar evitar atrasos de salários de servidores no município.

"Achávamos, como muitos, que o Rio era um oásis no caos que assolava o Estado e o país. Na transição, depois na posse, descobrimos não só um esqueleto dentro do armário, mas um cemitério inteiro da Consolação ou do Caju", disse o prefeito, culpando a gestão do antecessor Eduardo Paes (PMDB).

A crise na saúde se agravou no segundo semestre, quando hospitais do município sofreram com falta de profissionais, limpeza e até de alimentação para os pacientes. Hospitais de emergência estão cancelando cirurgias e consultas, leitos de UTI estão fechados e equipamentos médicos quebrados.

O prefeito ainda está em conflito com as OSs (organizações sociais) escolhidas para prestar serviços na área da saúde, de uma delas retirou a administração do hospital Rocha Faria, em Campo Grande, também na zona oeste.

Em dezembro, Crivella também mudou, por decreto, o calendário de pagamentos dos servidores do município. Os salários de dezembro, antes depositados até o segundo dia útil, só foram pagos na última quarta (10), sétimo dia útil de janeiro, em mais um sinal da crise enfrentada pela prefeitura.

O orçamento aprovado para 2017, elaborado pela administração de Paes, previa que a prefeitura teria R$ 29,5 bilhões para gastar. Ainda em 2016, a equipe econômica de Crivella estimava que contaria com R$ 26,1 bilhões. Mas, ao encerrar o ano, a arrecadação ficou em R$ 25,1 bilhões --15% a menos.

Já as despesas empenhadas (gastos autorizados) estavam em R$ 26 bilhões. Na ponta do lápis, isso significa que a prefeitura comprometeu, em 2017, quase R$ 1 bilhão a mais do total que arrecadou. 

Taís Vilela/UOL
Maria das Graças reclama que as melhorias prometidas não foram realizadas

Prefeitura fala em melhorias nos bairros

Em resposta aos questionamentos do UOL sobre os depoimentos dos moradores, a prefeitura informou que foram realizadas diversas melhorias na zona oeste.

"Apesar da grave situação financeira do município, a Prefeitura do Rio de Janeiro nunca deixou de investir na saúde", afirma o município. "Desde o início da gestão, em 2017, a SMS (Secretaria Municipal de Saúde) vem realizando investimentos na zona oeste da cidade." "Durante o primeiro ano de gestão, a SMS inaugurou três novas Clínicas da Família (em Paciência, Santíssimo e Realengo) que beneficiam mais 68 mil pessoas nos três bairros."

Ainda segundo a pasta, a situação do hospital Rocha Faria, municipalizado em 2016, deve ser regularizada assim que a transição da administração da unidade para a prefeitura seja concluída, o que deve ocorrer até a metade de fevereiro.

A prefeitura também cita a implantação de redes de esgoto e drenagem, pavimentação de calçamento e meio-fio em 142 ruas da região, além da retomada do programa Bairro Maravilha.

Também estaria prevista para este ano a reforma de quatro escolas na região de Campo Grande e entorno, além da recuperação de outras quatro unidades no bairro de Santa Cruz e seu entorno e, até 2020, a entrega de seis novas unidades escolares na região.

Nas ruas, sensação de abandono

Pelas ruas da zona oeste, no entanto, a sensação é de abandono. Não muito diferente do observado pela reportagem em outubro de 2016, quando o UOL percorreu o subúrbio questionando quais eram as principais demandas da população.

Há lixo espalhado em esquinas, praças com gramado alto e equipamentos de lazer quebrados, além de sequências de trechos esburacados em vias. O poder paralelo também segue forte, com grandes áreas dominadas pelo tráfico e pela milícia.

Em diversas ruas, foi possível identificar barricadas --barreiras montadas por criminosos para impedir o avanço da polícia. Em um ponto, um morador chegou a abordar a reportagem recomendando cuidado. Segundo o morador, "o dono da região" havia sido morto na madrugada de terça-feira (9).

"Eu acreditei que ia melhorar. A gente quer acreditar. Em época de eleição, eles são uns santos, depois passa e nada", diz a aposentada Maria das Graças de Paula Selvatti, 65, que chegou a fazer campanha pela eleição do prefeito na região, ao ser questionada sobre as diferenças nesse primeiro ano da nova gestão.

"Cuidar das pessoas? É ruim, hein?", reclamou.

Nos trilhos do subúrbio: as questões que afligem os moradores das zonas norte e oeste do Rio

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