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CDD, Jacarezinho e Rocinha: favelas com UPPs lideram mortes no 1º mês do ano no RJ

Márcia Foletto/Agência O Globo
Imagem: Márcia Foletto/Agência O Globo

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

03/02/2018 04h00

Em meio ao agravamento da criminalidade, as favelas com UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) --programa cuja estrutura pode ser novamente reduzida, dessa vez pela metade-- registraram em janeiro cerca de 30% de todos os casos de tiroteios e disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro. Foram 207 casos contra 688 registros no total.

Cidade de Deus, na zona oeste, Rocinha, na zona sul, e Jacarezinho, na zona norte --todas elas com UPPs e dominadas pela facção Comando Vermelho--, lideram a lista, com 46, 23 e 16 registros de tiroteios, respectivamente.
 
Essas comunidades também encabeçam o ranking de mortes por armas de fogo em favelas no mês passado --Cidade de Deus (10 mortes), Rocinha (6) e Jacarezinho (4).
 
No primeiro mês deste ano, 146 pessoas morreram vítimas de disparos de arma de fogo na capital e região metropolitana --32 das mortes aconteceram em áreas com UPPs.
 
Os dados fazem parte de um levantamento realizado pelo aplicativo Fogo Cruzado, que mapeia a violência no Estado, a pedido do UOL. A pesquisa também aponta que 43% das mortes por armas de fogo aconteceram em favelas da região metropolitana --com e sem UPPs.

Estátua Michael Jackson Santa Marta - Reprodução/WhatsApp - Reprodução/WhatsApp
Estátua de Michael Jackson foi fotografada com fuzil no Santa Marta, comunidade considerada modelo do projeto
Imagem: Reprodução/WhatsApp
Ao mesmo tempo, a Polícia Militar anunciou que poderá extinguir 18 das 38 UPPs. O programa foi implantado em 2008 e sofre com a falta de investimento nas unidades e diminuição do efetivo.

Em setembro, as UPPs tiveram 30% dos agentes realocados para outros batalhões, levantando dúvidas sobre a sua continuidade.

“Aquelas [UPPs] em que não haja um domínio territorial maior talvez possam ter reavaliadas a sua manutenção ou não", afirmou na quinta-feira (1º) o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias.

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Nesta semana confrontos entre PMs e criminosos na Cidade de Deus levaram ao fechamento da Linha Amarela, uma das principais vias expressas da capital fluminense, por dois dias consecutivos.

Na quarta-feira (31), uma operação da Polícia Militar na Cidade de Deus deixou ao menos três suspeitos mortos, entre os quais um suposto líder do tráfico local.

No Jacarezinho, três suspeitos foram mortos em confrontos durante uma ação da Polícia Civil para localizar e prender suspeitos da morte do delegado Fábio Monteiro na terça (30).

Já na Rocinha, também na terça, dois suspeitos morreram durante uma operação do COE (Comando de Operações Especiais da Polícia Militar) para reprimir o tráfico de drogas.

Em entrevista ao UOL, o sociólogo e professor do Departamento de Segurança Pública da UFF (Universidade Federal Fluminense) Daniel Misse ponderou que as UPPs, desde o princípio, sofrem por terem como base a ocupação do território.

“É um programa muito problemático, não surge como um objetivo claro, como política pública, mas com o objetivo de ocupação de território. Mas é possível ocupar territórios militarmente para sempre?", questionou, ao lembrar que a entrada dos policiais nas favelas não foi necessariamente acompanhada pela entrada de outros serviços do Estado nestes locais.

De acordo com o estudo "UPP: Última Chamada - Visões e expectativas dos moradores de favelas ocupadas pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro", publicado em agosto pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, 66% dos moradores das favelas ocupadas pela polícia consideram que a UPP é um "projeto falido".

Ao mesmo tempo, 59,7% defendem a manutenção da ocupação da polícia, desde que com mudanças.

Em entrevista na última quarta-feira, o secretário de Segurança do Rio, Roberto Sá, disse que é preciso levar em conta a complexa situação vivida pelo Rio.

“Enfrentamos uma realidade de que a cada abordagem de carros suspeitos e apreensão de armas, tropeça-se em um fuzil, isso tem que gerar uma reflexão. Foram 499 fuzis apreendidos somente no ano passado", afirmou.

Nesta quarta (31), o ministro da Defesa Raul Jungmann afirmou que a segurança do Rio está "sem rumo" e anunciou o lançamento de um plano de segurança detalhado para o Estado nos próximos dias.

A Secretaria de Segurança não comentou o levantamento do Fogo Cruzado em si e informou, através de sua assessoria, que as estatísticas oficiais de criminalidade do Estado tem como base os registros de ocorrência realizados nas delegacias, divulgadas mensalmente pelo Instituto de Segurança Pública. "Estes dados abastecem o planejamento estratégico para o monitoramento e combate à mancha criminal."

"A Secretaria de Estado de Segurança tem como prioridade a preservação da vida e a redução de índices de criminalidade no estado. A Seseg criou medidas estruturantes como o Grupo Integrado de Operações de Segurança Pública (GIOSP), no Centro Integrado de Segurança Pública (CICC), e a delegacia especializada para o combate ao tráfico de armas, a Desarme, para atacar as causas da letalidade violenta."