Violência no Rio

"Fuzil das tropas, fuzil dos traficantes": moradores da Vila Kennedy comentam intervenção no Rio

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Bruna Prado/UOL

    Comunidade Vila Kennedy, utilizada como "laboratório" para a intervenção no Rio

    Comunidade Vila Kennedy, utilizada como "laboratório" para a intervenção no Rio

A comunidade da Vila Kennedy, na zona oeste do Rio, já foi classificada como "laboratório da intervenção no Rio", mas, desde o anúncio da saída gradual das tropas da região pelo Comando Militar do Leste (CML), moradores têm relatado medo e abandono do poder público.

Entre as reclamações, dizem ser quase imperceptível a presença dos homens das Forças Armadas, o que aumenta a insegurança na comunidade. Alguns entrevistados desaconselharam, por exemplo, que a reportagem circulasse pelo local.

O UOL visitou o bairro na última quarta-feira (28) e não identificou nenhuma unidade policial. Apenas um carro da PM (Polícia Militar), em péssimo estado de conservação e com pneu furado, e um profissional varrendo a rua foram vistos na área da UPA da comunidade --local de grande movimento. Na praça Miami, onde quiosques foram demolidos no começo do mês, outro solitário carro da PM foi avistado.

Os moradores entrevistados até se surpreenderam com a pergunta sobre a presença do Exército, porque há tempos não os veem.

Bruna Prado/UOL
Carro de polícia com pneu furado parado na comunidade

O CML disse que, contudo, que vai estender o tempo de permanência dos militares na Vila Kennedy e que era "normal" não terem sido vistos devido ao patrulhamento e ao tamanho do bairro.

"É normal não terem observado. O grupo está em patrulhamento. No caso dos moradores, ele saem para trabalhar e não ficam o tempo todo na comunidade, mas estamos em patrulhamento permanente. Inclusive vamos ficar mais tempo do que o planejado", afirmou o porta-voz do CML, coronel Carlos Cinelli.

"Ficaram cinco dias sem aparecer"

"Militares aqui? Já foram embora tem muitos dias! Se informaram para vocês que [o Exército] ainda estava por aqui, só se for quando eu estou dormindo, pois nunca mais vi ninguém", disse uma moradora, enquanto esperava atendimento na UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

Outro morador que trabalha na comunidade afirmou que os militares chegaram a ficar cinco dias sem aparecer.

Bruna Prado/UOL
Comunidade foi chamada de "laboratório" para a intervenção no Rio

"Falaram que iam sair, ficaram cinco dias sem aparecer. Passo o dia todo aqui e não vi ninguém por cinco dias. Na terça (27), até vieram com quatro carros e sete homens em cada um. Mas também não ficaram tanto tempo", disse um segundo morador.

Nenhuma das pessoas ouvidas aceitou ser identificada, tal o medo de represálias por parte dos traficantes. 

No início do mês, um grupo foi obrigado por criminosos a refazer as barricadas que o Exército havia retirado das ruas. As barricadas servem basicamente para dificultar a entrada da polícia na favela. 

90 militares para 100 mil habitantes

Atualmente, segundo o Comando Militar do Leste, cerca de 30 militares fazem o patrulhamento de toda a comunidade, que, somada a outras menores ao redor, soma cerca de 100 mil habitantes.

Outros 60 militares são divididos em dois grupos --30 em período de descanso e outros 30 para contingência. O grupo de soldados é tido como suficiente para a região, de acordo com a corporação.

As tropas que tinham previsão para deixar a Vila Kennedy até o início de abril ficarão por mais um mês da região.

Luis Kawaguchi/UOL
Forças Armadas na Vila Kennedy em fevereiro, no início da intervenção

Isso porque o CML informou que vai aguardar a conclusão do curso de reciclagem dos PMs do 14º BPM, que irão substituir os militares no policiamento ostensivo da região.

"Não podemos permanecer na Vila Kennedy. Existem outros objetivos. Vamos selecionar outras áreas para atuação dos militares."

O porta-voz da intervenção anunciou nesta sexta-feira que, "se for necessário, as Forças Armadas vão desencadear operações" na favela da Rocinha, na zona sul do Rio, onde ocorreram 12 mortes nos últimos oito dias.

Segundo ele, uma possível ação militar na comunidade está "no radar" do secretário de Segurança, general Richard Nunes. Cinelli disse que "dados estão sendo processados".

De manhã o fuzil das tropas; à noite fuzil dos traficantes. Estamos cansados

Morador da Vila Kennedy que não quis ser identificado

Para muitos moradores e profissionais que atuam na Vila Kennedy, a chegada das Forças de Segurança foi um sonho de paz que durou pouco tempo.

"Pessoal aqui novamente ficou encantado com a chegada das tropas. Pensamos que teríamos dias melhores", diz um morador. "Só que a esperança foi morrendo aos poucos, a cada noite, quando as tropas iam embora. Víamos a troca de fuzis. De manhã, o fuzil das tropas; à noite fuzil dos traficantes. Estamos cansados. A gente precisa de escola, de creche, de médico, de atividades sociais e o que eles nos mandam? Mais fuzil", lamentou.

A maioria dos moradores abordados pela reportagem relatou também como positiva a presença dos militares: "As barricadas do tráfico foram sendo removidas depois de muita insistência do Exército. Aquelas rajadas de tiros que duravam 30 minutos várias vezes ao dia também pararam, mas ainda há tiros isolados. Mas daqui a pouco volta tudo de novo".

Bruna Prado/UOL
Mulher em rua sem patrulhamento; sentimento é de medo entre moradores

Vila Kennedy em números

Cortada por uma das principais vias do Rio de Janeiro --a avenida Brasil--, a Vila Kennedy é localizada na zona oeste do Rio.

A linha também delimita a comunidade em duas áreas: "uma mais perigosa e outra um pouco mais tranquila", como conta seus moradores.

Antes de ser um bairro, oficializado somente no ano passado, a região era uma parte de Bangu. De carro, fica a uma hora do centro da cidade. Se depender de transporte público, o trajeto leva de uma hora e meia a duas horas.

Atualmente, 25 linhas de ônibus passam pela região, que conta com uma UPA, uma clínica da família, 11 escolas e três creches.

Bruna Prado/UOL
Unidade de Pronto Atendimento na Vila Kennedy

O presidente Michel Temer (MDB) decretou intervenção federal no dia 14 de fevereiro. Com a decisão, a Vila Kennedy foi a primeira comunidade a sofrer operações realizadas exclusivamente pelas Forças Armadas. A primeira ocorreu no dia 3 de março. 

Foi na Vila Kennedy que moradores começaram ser fichados pelo militares das Forças Armadas. A identificação, feita através de um celular, também ocorreu nas comunidades da Vila Aliança e Coreia e causou polêmica e revolta entre a população, que classificou a atitude como preconceituosa.

"A gente não tem vez; as coisas só pioram"

A equipe de intervenção anunciou a decisão de pôr fim às UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) da zona oeste. A UPPs do Batan e da Vila Kennedy foram inauguradas em 2009 e 2014, respectivamente.

A intenção é recompor o 14º Batalhão de Polícia Militar (Bangu), deslocando os PMs que atuam nas comunidades. A medida ocorreu após um estudo feito pela PM. 

Com isso, moradores temem que a Vila Kennedy fique ainda mais abandonada pelo poder público, o que contribuiria para ações mais violentas do tráfico, além de suspender os projetos sociais desenvolvidos pela própria PM. "A gente não tem vez. As coisas só pioram", critica um morador.

Bruna Prado/UOL
Homem anda de bicicleta na região

A mãe de um adolescente de 12 anos que toca no projeto Orquestra Bela Oeste há um ano e meio, receia que as aulas sejam interrompidas.

"A música ocupa a maior parte do tempo dele. Eu não poderia pagar uma aula dessas. Se a UPP daqui acabar mesmo, como esses policiais continuarão a dar aulas? Eu estou muito triste. O que meu filho vai fazer?"

Criada há dois anos pela PM, as aulas são ministradas por policiais militares e atendem cem crianças.

Policial há 20 anos, Ricardo Moreira exalta a importância do projeto e a apreensão quanto à sua extinção. "Somos aquela polícia de proximidade que tanto se fala. Aquela polícia que dá mais resultado que o confronto. Os moradores estão apreensivos". Além de música, há aulas de hidroginástica e judô.

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