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Só queria curtir um dia de lazer, diz detido em suposta festa de milícia

Alexandre Mourão foi solto do Complexo Penitenciário de Bangu nesta quinta - José Lucena/FuturaPress/Estadão Conteúdo
Alexandre Mourão foi solto do Complexo Penitenciário de Bangu nesta quinta Imagem: José Lucena/FuturaPress/Estadão Conteúdo

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

26/04/2018 15h04

“Finalmente, sim, acabou. É lamentável ter chegado a esse ponto”. Essas foram as primeiras palavras de Alexandre Mourão, um dos 137 detidos na operação policial em uma festa que, segunda a Polícia Civil do Rio de Janeiro, tinha suposta relação com milicianos, em 7 de abril. Mourão foi um dos presos liberados em cumprimento a decisão da Justiça do Rio de Janeiro, na tarde desta quinta-feira (26).

Junto com ele, outras oito pessoas consideradas suspeitas pela polícia já deixaram o Complexo Penitenciário de Bangu, na zona oeste carioca. Os demais aguardam a chegada do oficial de Justiça.

“Não queríamos que chegasse a esse ponto. É preciso deixar bem claro: era uma festa, as pessoas entraram e pagaram seu ingresso. O que a gente queria era curtir um dia de lazer. A polícia foi muito cruel com todos nós. Em todo momento, a polícia foi muito cruel.”

Mourão afirmou que os detidos foram agredidos a “socos, pontapés e chutes”, tanto no sítio onde a festa era realizada —em Santa Cruz, bairro da zona oeste— quanto na Cidade da Polícia, local que reúne as delegacias especializadas da Polícia Civil.

“Há até relatos de agressão muito mais séria”, declarou Mourão, sem especificar os detalhes.

A instituição nega que os agentes tenham cometido ilegalidades.

O primeiro a deixar o presídio de Bangu foi o técnico em segurança do trabalho Alex Sandro Silva de Paula, que relatou não ter visto “ninguém armado” na festa que, de acordo com a polícia, foi organizada por milicianos da Liga da Justiça, o maior grupo paramilitar do Rio. “Foi tudo muito rápido. A gente entrou na festa, pagamos nosso ingresso para curtir um pagode e não vimos ninguém armado”, comentou.

“Os policiais chegaram lá e fizeram o serviço deles. Eles revistaram as pessoas e nos conduziram para a delegacia. Até então estávamos aguardando para ver qual seria o desfecho. Graças a Deus foi com a liberdade.”

O soldador Alexandre Amaral dos Santos relatou também não ter visto pessoas armadas na festa realizada em 7 de abril. “Não tinha ninguém armado. Passamos por revista [na entrada do show]. Eles revistavam mulheres e homens. Não tinha ninguém armado.”

Questionado sobre o alívio ao deixar a cadeia, Santos disse apenas que “não tinha nem o que falar”.

Prisão de 159 pessoas

No dia 7, foram presas preventivamente 159 pessoas que estavam em um show de pagode que, segundo a polícia, havia sido organizado pela maior milícia do Rio, a Liga da Justiça. Na audiência de custódia, o Ministério Público havia apresentado ficha criminal de apenas 11 dos 159 detidos.

O subdefensor geral Rodrigo Pacheco classificou as prisões como “indevidas”, pois a maior parte dos detidos estaria no local apenas como participante da festa, sem ligação direta com a milícia. “A gente vai prosseguir no atendimento das famílias das pessoas que foram processadas, inclusive para exigir do estado a devida compensação por terem passado 14 dias ilegalmente, indevidamente na prisão”, afirmou Pacheco.

Ontem, a 2ª Vara Criminal de Santa Cruz revogou a prisão preventiva de 137 das 159 pessoas que haviam sido detidas.

A festa ocorria em um sítio em Santa Cruz, bairro da zona oeste carioca, região marcada pela atuação de grupos paramilitares. Durante a ação policial, houve troca de tiros. Foram apreendidos fuzis e projéteis de grosso calibre, além de pistolas, revólveres, coletes balísticos, entre outros equipamentos.

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