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Tive que inventar coisas para meu filho, diz mulher de homem preso em suposta festa de milícia

Camila Silva segura camiseta com foto do marido - Hanrrikson de Andrade/UOL
Camila Silva segura camiseta com foto do marido Imagem: Hanrrikson de Andrade/UOL

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

26/04/2018 12h55Atualizada em 26/04/2018 15h50

Camila Silva, mulher de Fábio Pereira da Silva, um dos 137 homens detidos em uma festa que, segundo a polícia do Rio de Janeiro, era organizada por milicianos, relatou ao UOL não ter tido coragem de contar para o filho do casal, de apenas seis anos, que o pai estava na cadeia. Silva e outras 136 pessoas tiveram a prisão revogada pela Justiça na quarta-feira (25).

Enquanto aguardava nesta quinta-feira (26) a liberação do marido, no Complexo Penitenciário de Bangu, na zona oeste carioca, Camila afirmou à reportagem ter inventado que Fábio faria um "serviço de limpeza" no presídio. E inventou que uma das celas de Bangu receberia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) e preso em Curitiba.

"Em princípio, o que eu contei para ele é que o pai estava viajando. Só que, como ele nunca dormiu fora de casa, cada dia eu tinha que inventar uma coisa. Ele tem seis anos, mas é muito esperto. Então ele começou a perceber a movimentação diferente", disse a mulher.

"Eu inventei então que o pai estava indo limpar o presídio porque o Lula iria ser preso. Como ele vê muita televisão, ele já associa. Como o Fábio presta serviço para a Comlurb [Companhia Municipal de Limpeza Urbana], ele sabe que realmente o pai trabalha em caminhão de coleta. Foi nisso que ele acreditou."

De acordo com Camila, depois do nascimento do filho, o momento em que recebeu a informação de que a Justiça fluminense havia revogado a prisão do marido foi "o dia mais feliz da vida".

"Nós nunca imaginamos passar por isso na vida. Se você anda no caminho certo e é honesto, você nunca se imagina numa situação dessa."

No  começo da tarde, chegaram no Complexo Penitenciário de Bangu ao menos 9 alvarás de soltura. Segundo a Defensoria Pública, serão soltos presos em ordem alfabética.

Prisão de 159 pessoas

No dia 7, foram presas preventivamente 159 pessoas que estavam em um show de pagode que, segundo a polícia, havia sido organizado pela maior milícia do Rio, a Liga da Justiça. Na audiência de custódia, o Ministério Público havia apresentado ficha criminal de apenas 11 dos 159 detidos.

O subdefensor geral Rodrigo Pacheco classificou as prisões como “indevidas”, pois a maior parte dos detidos estaria no local apenas como participante da festa, sem ligação direta com a milícia. “A gente vai prosseguir no atendimento das famílias das pessoas que foram processadas, inclusive para exigir do estado a devida compensação por terem passado 14 dias ilegalmente, indevidamente na prisão”, afirmou Pacheco.

Ontem, a 2ª Vara Criminal de Santa Cruz revogou a prisão preventiva de 137 das 159 pessoas que haviam sido detidas.

A festa ocorria em um sítio em Santa Cruz, bairro da zona oeste carioca, região marcada pela atuação de grupos paramilitares. Durante a ação policial, houve troca de tiros. Foram apreendidos fuzis e projéteis de grosso calibre, além de pistolas, revólveres, coletes balísticos, entre outros equipamentos.

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