Violência no Rio

General Nunes diz que UPPs se expandiram para "satisfazer interesses políticos-eleitorais"

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

O secretário de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro, general Richard Nunes, afirmou nesta terça-feira (29) que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) "se expandiram de maneira irresponsável" com o intuito de "satisfazer interesses políticos-eleitorais".

A declaração ocorreu durante apresentação de balanço dos cem dias da intervenção federal no RJ, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, na zona sul carioca.

Logo após criticar o projeto que foi a principal força eleitoral do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) e de seu sucessor, Luiz Fernando Pezão (MDB), o oficial observou que o discurso fugia dos protocolos comuns ao ambiente político. "É bom que estejamos em intervenção federal porque só assim o secretário de Segurança pode falar isso. Em outra situação, não falaria."

O secretário declarou que não pensa em "acabar com as UPPs", e sim remodelar o projeto segundo critérios técnicos e padronizados. Ele criticou as condições de trabalho oferecidas aos policiais lotados nas UPPs. "Aqueles contêineres são coisas horríveis, insalubres". "O policial não pode ser colocado em um contêiner imundo."

"A rearticulação das UPPs já está em andamento. Não é algo para o futuro, é presente. Esse mês já estamos rearticulando a UPP da Mangueirinha, em Duque de Caxias [na Baixada Fluminense], que está se transformando em uma companhia destacada do 15º BPM. Graças a essa ação, conseguimos reforçar o efetivo dos quatro batalhões da Baixada Fluminense e mantivemos as ações sociais que eram realizadas na Mangueirinha, além do patrulhamento daquela área", comentou.

"Vamos rearticular outras UPPs dessa forma até o término da intervenção. E me parece que isso é um ganho para a segurança pública do Rio de Janeiro."

Nunes destacou que, com a transferência da gestão da segurança pública fluminense para as forças federais, existiriam "dois governadores no Rio de Janeiro" --Pezão e o general Walter Braga Netto, escolhido para comandar a intervenção. Por esse motivo, os militares não ficariam reféns das disputas políticas e teriam mais liberdade para implementar uma gestão eficiente.

O secretário de Segurança disse ainda ter encontrado funcionários capacitados na secretaria e que manteve boa parte da equipe. Segundo ele, porém, a pasta "não tinha recurso e força política para fazer valer a segurança em detrimento de interesses outros".

Para Nunes, as instituições fluminenses ficaram de "cabeça baixa" em decorrência de "lideranças tão nefastas que foram se apoderando" do Estado nos últimos anos. O general observou que, nesse sentido, um dos principais objetivos alcançados pela intervenção federal ao longo dos cem dias foi o "resgate da auto-estima".

Dados da violência

Questionado sobre as recentes divulgações do ISP (Instituto de Segurança Pública), que mostram uma oscilação pouco efetiva nos índices de criminalidade observados durante o período pleno da intervenção federal (março e abril), o secretário ressaltou que os dados têm padrões de sazonalidade e que a comparação com o ano passado não oferece um retrato fidedigno em razão da greve da Polícia Civil, realizada em 2017. Durante a paralisação, apenas as ocorrências consideradas mais graves eram registradas.

"Existe um dado de sazonalidade e um padrão comparativo com o ano passado que é equivocado. Nós tivemos uma greve da Polícia Civil no primeiro trimestre do ano passado e ocorreu então uma subnotificação de determinados crimes. E também não há soluções mágicas. Temos que trabalhar de maneira integrada e efetiva. E só começamos a fazer isso na plenitude a partir do mês de abril. Para nós, esses números têm que ser vistos com mais cautela."

Em 17 de maio, o ISP, órgão vinculado à Polícia Militar fluminense, divulgou que os indicadores estratégicos referentes a mortes violentas e roubos de rua se mantiveram elevados nos meses de março e abril, período em que a intervenção completou dois meses. Nunes defendeu que as estatísticas precisam ser vistas com um "prazo mais alargado". "Tratar esses números com imediatismo realmente não vai nos levar a boas conclusões."

Em comparação com o mesmo bimestre do ano passado, o estado registrou 34 mortes violentas a mais em 2018 --1.228, no total, com aumento de 3%. Já em relação aos roubos de rua, em março e abril deste ano, foram 283 ocorrências a mais (22.289, com variação de 1%).

Greve dos caminhoneiros

O secretário de Segurança disse confiar que a resposta do RJ à crise de desabastecimento, provocada pela greve dos caminhoneiros, foi rápida e eficiente. Por esse motivo, argumentou, a preocupação das Forças Armadas estaria concentrada em outros estados.

"Aqui no Rio, por conta da própria intervenção que já nos fornece uma integração plena entre os diversos órgãos federais, estaduais e municipais, nós estamos tendo um êxito muito grande em garantir a liberdade de ir e vir das pessoas e um fluxo logístico mínimo de abastecimento aos serviços essenciais. Hoje até vimos uma certa retomada da normalidade, com postos de combustível, chegada de gêneros alimentícios a centrais de abastecimento e, inclusive, a retomada das aulas."

Nunes reafirmou que a prioridade das autoridades fluminenses é garantir o abastecimento dos órgãos de saúde e defesa civil. "Temos que ter em mente nesse momento que a nossa prioridade absoluta no manejo dessa crise é a preservação da vida das pessoas e o bem-estar da sociedade em termos de saúde pública. Tudo que for feito nesse sentido é essencial."

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