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Paciente morre após procedimento estético em apartamento no Rio; médico está foragido

Reprodução / Facebook
A bancária Lilian Calixto, de 46 anos, que morreu após procedimento realizado em apartamento na Barra da Tijuca, no Rio Imagem: Reprodução / Facebook

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

2018-07-17T09:55:44

2018-07-17T19:49:08

17/07/2018 09h55Atualizada em 17/07/2018 19h49

A Justiça do Rio de Janeiro decretou a prisão temporária do médico Denis Cesar Barros Furtado, responsável por um procedimento estético que resultou na morte da bancária Lilian Calixto, 46. A morte da paciente é investigada pela Polícia Civil.

A paciente saiu de Cuiabá (MT), onde mora, para realizar um procedimento estético nos glúteos. Ela foi atendida no sábado (14) em um apartamento na Barra da Tijuca, zona oeste da capital fluminense --prática condenada pelo Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro), que informou que vai investigar o caso.

Após a intervenção, a paciente passou por complicações e foi levada pelo próprio médico para o Hospital Barra D’Or, onde chegou em estado considerado extremamente grave. De acordo com a unidade de saúde, mesmo após "manobras de recuperação", não foi possível reverter o quadro de saúde e Lilian acabou morrendo na madrugada de domingo (15). 

O médico e a mãe dele, Maria de Fátima, que também teria participado do procedimento, estão foragidos.

A namorada dele, Renata Fernandes, 20, que também teria envolvimento no atendimento, prestou depoimento na 16° DP (Barra da Tijuca). A Justiça negou pedido de prisão de Renata.

De acordo a 16ª Delegacia de Polícia, o médico, a mãe dele, a técnica de enfermagem Rosilane Silva e a namorada foram indiciados pelos crimes de homicídio doloso duplamente qualificado e associação criminosa.

A advogada do médico e de sua mãe, Naiara Baldanza, disse que é "precoce" responsabilizá-lo pela morte da bancária. "Destaco que o ordenamento jurídico pátrio estabelece que ninguém é considerado culpado antes da sentença penal condenatória e que qualquer conclusão acerca da morte de Liliam Calixo e a eventual responsabilidade do meu cliente sobre essa fatalidade é precoce", afirmou a advogada, por meio de nota.

Na delegacia, a namorada do médico negou participação na cirurgia e alegou que trabalhava apenas como secretária. Sobre Renata e Rosilane, a advogada disse somente que falou com ambas por telefone durante o período em que estiveram detidas na DP.

Denis Furtado tem registro em Goiás e em Brasília e não poderia atuar profissionalmente no Rio sem autorização do Cremerj.

As causas da morte da paciente ainda não foram divulgadas. A suspeita é de que a bancária tenha sofrido uma embolia pulmonar devido à aplicação da substância PMMA (polimetilmetacrilato), material utilizado para fazer preenchimentos corporais e faciais. O produto é aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas indicado para situações pontuais e em pequenas quantidades.

Titular da 16ª DP, a delegada Adriana Belém informou que o médico tem oito passagens criminais, uma delas por homicídio em 1997, além de porte ilegal de arma, crime contra administração pública, exercício arbitrário das próprias razões, ameaça, duas por resistência à prisão e violação de domicílio.

Uma pesquisa feita no site do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mostra que o médico é réu em ao menos 15 ações de Varas Cíveis no Rio de Janeiro --a maioria por problemas imobiliários.

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O médico Denis Cesar Barros Furtado, que se apresenta nas redes sociais como "Doutor Bumbum", está foragido Imagem: Reprodução / Facebook
Um milhão de seguidores

Nas redes sociais, o médico de 45 anos é conhecido como "Doutor Bumbum". Com diversas contas em redes sociais para divulgação do trabalho estético, Furtado tem quase 1 milhão de seguidores. Nas redes, o médico diz que já fez mais de 5.000 procedimentos estéticos, "em mais de 15 anos de bioplastia".

O profissional se apresenta como médico, pós-graduado em dermatologia pelo Instituto Brasileiro de Ensino (Isbrae), modulação hormonal pela Brasil-American Academy for Integrative e Regenerative Medicine (Barm), medicina estética, nutrologia e ortomolecular. Afirma também atuar nas áreas de medicina integrativa, acompanhamento ortomolecular e hormonal, tratamento da dor crônica e emagrecimento, além de medicina neural, sistêmica e funcional.

Após a denúncia, o Facebook do médico vem sendo atacado por internautas, que rechaçam os procedimentos realizados. 

De acordo com o Cremerj, o médico responde a um processo ético no Conselho Regional de Brasília. Já a mãe dele teve o CRM cassado em 2015 no Rio de Janeiro devido a prática frequente de propaganda enganosa --divulgação de utilização de métodos com resultados não reconhecidos pela medicina.

“Sobre a mãe, ela já teve a pena máxima no que diz respeito à atuação do Cremerj. Mandamos inclusive uma notificação para a Polícia Federal. Sobre o filho, solicitamos documentação do hospital onde a paciente foi atendida, da delegacia que informou que apreendeu farto material de cirurgia no apartamento e vamos encaminhar para Brasília pra ser julgado pelo conselho”, disse o  presidente do Cremerj, Nelson Nahon, que reiterou a abertura de uma sindicância para acompanhar o caso.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica lamentou a morte da paciente e destacou que o procedimento foi realizado por médico não especialista e feito em local inadequado. "A SBCP repudia e reprova procedimentos médicos na área, realizados por não especialistas, e sobretudo nestes moldes", diz a entidade, por meio de nota.

A SBCP fez ainda um alerta informando que disponibiliza em seu site, página no Facebook, e-mail ou telefone, uma consulta para saber se o médico é credenciado pela entidade para realizar cirurgia plástica.

Ao UOL, o presidente da entidade, Niveo Steffen, disse que a aplicação de PMMA para aumento dos glúteos é uma prática não permitida pela medicina. "Essa substância é autorizada apenas em pequenas quantidades, indicada para pequenos preenchimentos e principalmente na região da face para pacientes que sofrem deformações no rosto causada por alguma doença, por exemplo a Aids, que causa enrijecimento de algumas áreas do rosto."

O especialista destaca ainda que os locais para qualquer procedimento estético precisam contar com autorização da Anvisa para funcionar. "Esses espaços precisam de equipamentos específicos, como desfibrilador, para garantir a segurança dos pacientes."

Entre os riscos de realizar o procedimento, segundo ele, estão a necrose e a embolia pulmonar.