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Cotidiano

Pivô da guerra na Rocinha, Rogério 157 é condenado a 32 anos de prisão

6.dez.2017 - Rogério 157 foi detido em uma favela da zona norte do Rio em dezembro - Andre Melo/Estadão Conteúdo
6.dez.2017 - Rogério 157 foi detido em uma favela da zona norte do Rio em dezembro Imagem: Andre Melo/Estadão Conteúdo

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

24/07/2018 17h48Atualizada em 24/07/2018 21h22

A juíza da 40ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou, nesta terça-feira (24), Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, a 32 anos de prisão pelos crimes de associação para o tráfico de drogas, tráfico e corrupção ativa de policiais na favela da Rocinha, na zona sul carioca. Ele é apontado como o pivô da guerra da Rocinha que eclodiu em setembro do ano passado após o rompimento com a facção do antecessor Antonio Bonfim Lopes, o Nem.

A sentença da magistrada Alessandra de Araujo Bilac Moreira Pinto também condena a seis anos e oito meses de reclusão pelo crime de associação para o tráfico José Carlos de Souza, conhecido como Gênio. Foragido, ele é apontado como sucessor e atual chefe no comando do tráfico na Rocinha após a prisão de 157.

A sentença, que toma como base denúncia do Ministério Público, cita “policiais com desvio de conduta” que teriam sido pagos por Rogério 157 entre 2013 e 2014. A denúncia se baseia na chamada Operação Maioridade, deflagrada com o intuito de investigar associação ao tráfico ligada à facção TCP (Terceiro Comando Puro) no Complexo da Maré, zona norte.

No entanto, em escutas telefônicas, os delegados interceptaram negociações entre Rogério 157 e Marcelo dos Santos das Dores, o Menor P, apontado pelos investigadores como o chefe da facção na Maré. De acordo com as investigações, eles negociavam munição e drogas.

Em uma das conversas interceptadas pela polícia, Menor P perguntou a Rogério “por quanto ele compra o pó”. Rogério respondeu que “só compra pasta base, que custa R$ 9.000”. Segundo a denúncia, Rogério acrescentou que “da pasta base de cocaína, produz o pó com duas qualidades diferentes e disponibiliza nas 'bocas’” da Rocinha.

As interceptações, segundo argumenta a juíza na sentença, forneceram informações que permitiram apreensões de drogas na Rocinha.

Citação à "Xerife da Rocinha"

Danúbia Rangel, ex-mulher do traficante Nem da Rocinha - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook
Danúbia Rangel, que foi absolvida da acusação de tráfico de drogas em 2ª instância em abril, também é citada na sentença publicada nesta terça, embora ela não tenha sido denunciada neste processo. Ex-mulher de Nem, a chamada “Xerife da Rocinha” troca informações sobre armas e munições com Rogério 157.

De acordo com as investigações, ele enviou fotos de armas de fogo para Danúbia e afirmou que pagou R$ 32,5 mil à vista pelo armamento. Nas interceptações, segundo a sentença, Danúbia teria pedido para Rogério guardar uma arma para ela.

Danúbia  está presa desde outubro de 2017 —ela havia sido condenada pela 40ª Vara Criminal em 2016, sob acusação de tráfico de drogas, corrupção ativa e associação para o tráfico. Com a absolvição da 7ª Câmara Criminal, no final de abril, para o crime hediondo (tráfico de drogas), a pena da chamada "xerifa da Rocinha" foi reduzida de 28 anos para 17 anos e quatro meses de prisão.

Gênio é apontado na sentença da juíza como responsável pela contabilidade do tráfico na Rocinha entre 2013 e 2014, além de ser o braço direito de Rogério à época. Ele foi condenado por associação para o tráfico de drogas e absolvido de outras duas acusações (corrupção ativa e tráfico de drogas).

“Em relação ao acusado José Carlos, não restou comprovado a sua participação no tráfico de drogas, uma vez que o mesmo somente repassava informações sobre a contabilidade do comércio de substâncias entorpecentes. O embasamento probatório não induz este juízo à certeza de que o acusado participava diretamente da compra e venda de drogas”, diz a sentença.

Em abril, Rogério 157 foi ouvido pela Justiça no mesmo processo e negou ser o chefe do tráfico na Rocinha. Rogério foi interrogado por videoconferência na penitenciária federal em Porto Velho, em Rondônia, onde está desde 18 de janeiro.

De acordo com denúncia do Ministério Público, quando Nem foi preso, Rogério ficou à frente do tráfico e da facção criminosa que atuava na Rocinha.

Ainda segundo a promotoria, Rogério 157 obedecia aos comandos de Nem, que enviava mensagens por meio de sua mulher, Danúbia Rangel. Esses crimes teriam acontecido entre 2013 e 2014, período em que Rogério 157 alega ter vivido em Minas Gerais. No entanto, eles racharam e 157 teria se tornado o chefe do tráfico na Rocinha, isolando Nem e a facção criminosa do antigo aliado.

Disputa na Rocinha

Preso no começo de dezembro, Rogério 157 controlava o tráfico de drogas na Rocinha desde a prisão de Nem, em 2011. Ambos estão presos em alas separadas na penitenciária federal de Porto Velho, em Rondônia.

Em setembro, os dois romperam porque 157 estaria obrigando moradores a pagar uma taxa de gás e cobrando tributos adicionais de mototaxistas e comerciantes, o que lhe rendia R$ 100 mil por mês. Essas informações foram reveladas pelo também traficante Edson Antônio da Silva Fraga, o Dançarino, preso em setembro.

As extorsões teriam desagradado Nem, que ordenou a saída de Rogério 157 da Rocinha. Segundo uma testemunha, em agosto do ano passado, 157 teria assassinado três traficantes aliados de Nem em retaliação à ordem e expulsado Danúbia da comunidade.

A briga culminou em uma semana de tiroteios ininterruptos e levou o estado a realizar uma grande ação militar na região, com tanques de guerra e outros recursos, em 22 de setembro. Quase mil homens das Forças Armadas foram mobilizados.

O racha com Nem, um dos principais chefes da ADA (Amigos dos Amigos), acabou isolando Rogério 157 na estrutura da facção criminosa. Com isso, após fugir da Rocinha, ele acabou migrando para o principal grupo rival, o CV (Comando Vermelho).

Rogério 157 tinha contra ele mais de dez mandados de prisão por crimes como homicídio, assalto a mão armada e tráfico de drogas.

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