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Não vi nada de anormal, diz vizinha de local onde houve estupros em Maceió

Aliny Gama/UOL
Imóvel é apontado pela polícia como local onde acusado levava as vítimas para estuprá-las Imagem: Aliny Gama/UOL

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

2019-04-18T04:00:00

18/04/2019 04h00

O vaivém dos carros e a intensa movimentação de pedestres pela calçada da casa azul, de número 174, de esquina com a avenida Rotary e a rua Álvaro Correia de Araújo, no bairro Gruta de Lourdes, em Maceió, não levantava suspeita dos vizinhos que o imóvel era supostamente usado para prática de estupros.

Na última segunda-feira (15), a Polícia Civil de Alagoas apontou que em um dos cômodos do imóvel ocorreu uma série de estupros de pelo menos 19 mulheres. O acusado do crime, Benício Vieira de Lima, 46, ex-assessor do vereador de Maceió Chico Filho (PP), está preso. Ele teve a identidade reconhecida por supostas vítimas, mas nega as acusações.

A polícia informou que nove estupros estão confirmados e outros dez estão em apuração. Após a divulgação da prisão do acusado, novas prováveis vítimas procuraram a polícia. O caso começou a ser investigado após a entrega de um relatório que apontou o mesmo autor e modo de abordagem em três vítimas.

Crianças, adolescentes e mulheres adultas teriam sido atacadas por Lima. A polícia apontou que o acusado as abordava na rua com o pretexto de pedir informações, depois as obrigava a entrar no carro e as levava para o escritório do vereador. As vítimas tinham o rosto coberto com um pano para não saberem o local em que estavam sendo levadas.

"Sempre que chegava à casa, pedia para alguém abrir o portão, levava para um quarto próximo à garagem e fazia sempre violência de sexo vaginal, anal e oral. Depois dos atos, levava as vítimas para próximo do local onde anteriormente realizara a abordagem", afirmou a polícia.

Em depoimento à polícia, o vigilante do escritório, que não teve o nome informado, relatou que o acusado telefonava informando que abrisse o portão da garagem porque ele estava chegando com uma "namoradinha". Mas, que ele nunca observou quem eram as mulheres que Lima levava para o escritório, pois ele ia direto para o depósito.

Há pelo menos duas décadas, o imóvel é usado como escritório de advocacia do vereador e do pai dele. Durante o período eleitoral, a casa se torna o comitê de Chico Filho e tem o muro pintado com o nome e número dele, além de ganhar bandeiras no muro.

Segundo a polícia, os estupros aconteciam em um quarto anexo ao escritório, que servia de depósito de material de campanha do vereador, restos de material de construção etc. Além do amontoado de tralhas, o local tem uma cama com uma espuma no lugar do colchão. Ao lado do quarto, existe um banheiro que é utilizado pelos funcionários do escritório.

Na tarde desta quarta-feira (17), o UOL esteve no local e tentou conversar com alguns vizinhos do escritório, mas a maioria preferiu não falar. O imóvel fica localizado em uma das avenidas mais movimentada de Maceió, junto de casas residenciais e imóveis comerciais.

Durante o percurso para uma padaria próxima, duas mulheres aceitaram falar, mas na condição de anonimato. "Não sabemos se tem mais gente envolvida nessa história e temos medo de nos expor, somos mulheres e todos os dias passamos na frente dessa casa. Estávamos agorinha comentando que nunca vamos saber o que se passa dentro da casa de ninguém porque aparentemente aqui era um local normal", justifica uma delas.

As vizinhas contaram que ficaram estarrecidas com a revelação da polícia e afirmaram que nunca observaram nada estranho no imóvel. "Estava chegando em casa quando vi a polícia e achei que tivesse tido um assalto, pois essa área está muito violenta. Mas, quando soube o que era, fiquei apavorada. Eu passo todo dia ali para ir pegar ônibus, ir à padaria, como estou hoje, e nunca imaginei que por trás daquele muro mulheres foram violentadas", diz uma outra vizinha.

"Moro aqui há 22 anos e nunca imaginei que uma monstruosidade desta aconteceu ali. Se eu tivesse ouvido algum grito, tinha feito alguma coisa para socorrer, teria acionado a polícia. Mas nunca vi nada de anormal. O que eu vejo é movimentação normal de pessoas, de carros, porque funciona um escritório de advocacia e, na época de campanha, é também o comitê do vereador".

Vizinha do imóvel em Maceió

O gerente de um restaurante vizinho ao local também disse que ficou surpreso. Ele afirmou que é comum funcionários do escritório fazerem refeições no restaurante, como também irem comprar lanches, e que nunca suspeitou que Benício Lima "tivesse desvio de conduta". "Ele já veio algumas vezes aqui comprar água, lanche. Se mostrava uma pessoa reservada. Estamos chocados."

O vereador Chico Filho afirmou que está surpreso com acusação contra o ex-assessor dele, mas que ao tomar conhecimento do caso decidiu exonerá-lo do cargo.

Suspeito nega

O advogado do suspeito, Arnaldo Bispo, afirmou que seu cliente nega a prática dos crimes e não apresentou nenhuma versão ainda sobre o aumento de denúncias contra ele.

"Vamos esperar que sejam apurados os casos durante a fase de inquérito policial e, após geração de processo, caso isso ocorra, a gente vai se manifestar", explica, citando que, devido a grande quantidade de casos, não teve acesso ainda a todas denúncias. "Como são processos sigilosos, não tenho ainda acesso a todos os casos. E como a justiça entrou em recesso [de Páscoa], ficou ainda mais complicado", comenta.

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