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Mesmo com mudança, 'cracolândia' continuará no centro, dizem ativistas

Usuários de crack na região da Luz, no centro de São Paulo - Eduardo Anizelli - 27.set.18/Folhapress
Usuários de crack na região da Luz, no centro de São Paulo Imagem: Eduardo Anizelli - 27.set.18/Folhapress

Peu Araújo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/08/2019 19h35Atualizada em 24/08/2019 13h24

O plano do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), de mudar o CEP da chamada "cracolândia" (do centro para zona norte da cidade) é alvo de crítica e ceticismo de quem lida diariamente com dependentes químicos que usam e vendem drogas a céu aberto na região da Luz.

O novo endereço escolhido pela prefeitura é um terreno entre as estações Tietê e Armênia do metrô. Para atrair os usuários de droga ao local, Covas iniciou no ano passado a construção de uma unidade (o Atende) que oferecerá acolhimento, serviços de higiene, alimentação e pernoite.

Em outra ação de governo, o estado anunciou, no dia 13 de agosto, o início das obras do Hospital Pérola Byington na avenida Rio Branco, no coração da "cracolândia" atual: o quadrilátero que envolve a Alameda Cleveland, o Largo Coração de Jesus e ruas como Helvétia e Dino Bueno.

Ao lado de Covas, o governador tucano João Doria afirmou que a iniciativa é um marco para a revitalização do espaço. "Não é só uma questão de saúde, é a recuperação da Nova Luz", disse.

"Eles [João Doria e Bruno Covas] vão dizer que acabaram com a "cracolândia", mas ela estará escondida e desfragmentada, porque ela é um grupo de pessoas e não um lugar. Vai haver uma dispersão, essas pessoas ficarão mais espalhadas pela cidade, elas ficarão menos aparentes, menos visíveis, estarão mais expostas", afirma Daniel Mello, ativista da Craco Resiste, um coletivo que atua na região desde 2016.

Segundo a Craco Resiste, a prefeitura está em vias de fechar a última unidade de acolhimento aos usuários da região central. "A "cracolândia" também existe num contexto de proteção para essas pessoas, estarem juntas é uma forma de proteção contra ações truculentas da polícia, flagrantes forjados e uma série de situações", afirma Daniel.

Eu não acho que enxergar a 'cracolândia' como espaço físico seja um erro de administração, é intencional. É a maneira como se vai justificando as intervenções nos bairros. A droga é o elemento que se usa para justificar a derrubada de quarteirões inteiros

Daniel Mello, ativista do coletivo Craco. Resiste

Padre Julio Lancelotti, que atua bastante na região, põe luz também na especulação imobiliária. "Tudo regulado pelo mercado imobiliário e pelos interesses corporativos, primado do capital sobre as pessoas. Por isso criminalizam os usuários para justificar a repressão", afirma.

Na opinião de Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), a preocupação do Estado parece ser com o local e não com as pessoas.

"Quando o estado diz que vai transferir, reconhece que não tem condições ou não quer resolver a situação social e de saúde daquelas pessoas e trata como uma questão de higienização social, como uma espécie de sujeira humana a ser varrida de um lado para outro, diz Castro Alves.

Procurada pelo UOL, a assessoria de imprensa do governo do estado afirma que a mudança de endereço é de responsabilidade da Prefeitura de São Paulo e que não está envolvida na decisão.

A Prefeitura de São Paulo foi questionada pela reportagem UOL sobre como e em quanto tempo pretende mudar as pessoas em situação de rua e usuários de drogas da região da Luz. Em nota, administração municipal afirmou apenas que "realizou na manhã desta quinta-feira (22) a interdição de seis estabelecimentos na região da Luz. Todos eram pequenos comércios não licenciados e funcionavam em edificações já interditadas por falta de segurança anteriormente."

O chamado “fluxo”, um espaço livre para o consumo, compra e venda de drogas na região da Luz, no centro de São Paulo - Nelson Almeida/AFP
O chamado “fluxo”, um espaço livre para o consumo, compra e venda de drogas na região da Luz, no centro de São Paulo
Imagem: Nelson Almeida/AFP

30 anos de crack

Surgida no início dos anos 1990, a "cracolândia" é das maiores pedras no sapato para os gestores públicos de São Paulo. Os últimos prefeitos da cidade e governadores do estado adotaram estratégias diferentes em relação ao local e é possível dizer que nenhuma delas, de fato, solucionou a questão.

Das ações mais recentes, duas marcaram o olhar das gestões. No dia 3 de janeiro de 2012, uma ação do governo estadual, em parceria com a prefeitura, batizada de Operação Centro Legal, iniciada ainda em 2009, usou força policial para espalhar os usuários de drogas e pessoas em situação de rua para outras regiões centrais da cidade.

Após meses, a intervenção do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Gilberto Kassab anunciou em números, como 865 Internações para tratamento de dependentes químicos e quase 100 mil abordagens policiais, uma saída para a "cracolândia", mas o problema não foi resolvido.

O atual governador, João Doria, quando era prefeito da cidade de São Paulo, também tentou tirar o "fluxo" das redondezas da Estação da Luz e da Sala São Paulo. No dia 23 de maio de 2017, Doria anunciou o fim da "cracolândia" --mas os usuários só se locomoveram por pouco mais de 400 metros. Em tal ação, o "fluxo" se concentrou durante meses na praça Princesa Isabel. E novamente o "problema" não foi resolvido.

"Eles não têm conhecimento de causa e querem resolver a questão visual. A "cracolândia" é formada por pessoas doentes que precisam de ajuda. O que eles fazem é higienizar. A "cracolândia" não é um lugar", afirma o pastor João Carlos Batista, o João Boca da Missão Cena (Comunidade Evangélica Nova Aurora), que há mais quase três décadas circula e atua no local.

Nova vizinhança

Quem não está satisfeito são os moradores da Ponte Pequena, espaço que abrigará os egressos da Luz, nos planos do prefeito Covas.

Marcelino Atanes Neto, vice-presidente do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) Casa Verde/Santana diz temer as consequências da mudança.

"Todo mundo gosta de feira, mas não gosta na porta de casa. É a mesma coisa, nós somos contrários e tem vários movimentos na região contrários à mudança da 'cracolândia' para a zona norte, porque com certeza vai agravar a situação da nossa região, porque atrás das pessoas virão os traficantes, pequenos furtos vão aumentar", diz Neto.

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