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Promoção de mercado no RJ: consumidor busca arroz e feijão em meio à crise

Igor Mello e Taís Vilela

Do UOL, no Rio

19/10/2019 04h00

O público aguardava a abertura das portas havia mais de duas horas. Do lado de fora, uma fila de carrinhos de compra vazios se preparava para avançar loja a dentro. A movimentação de funcionários aumentou a expectativa dos consumidores, já impacientes àquela hora da manhã. Eles estavam ali por causa do aniversário da rede de supermercados Guanabara, evento anual considerado uma espécie de "black friday carioca" —a empresa faz uma divulgação massiva de ofertas com descontos que chegam a 60%.

Precisamente às 8h02 de ontem, as portas da unidade de Vila Isabel, na zona norte do Rio, foram abertas, dando a impressão de que ali acontecia uma gincana em meio às gôndolas abarrotadas. Os 2.000 produtos em oferta vão de vinho chileno a queijos importados, passando por peças de filé mignon. Mas, para a maior parte dos consumidores presentes, os objetos de desejo eram bem mais modestos: arroz, feijão, óleo de soja, azeite e detergente foram os itens que mais mobilizavam os clientes.

Clientes formaram longas filas em aniversário de supermercado no Rio - Igor Mello/ UOL
Clientes formaram longas filas em aniversário de supermercado no Rio
Imagem: Igor Mello/ UOL

A rede, voltada para o consumidor das classes C, D e E, concentra suas 26 lojas no subúrbio do Rio e na Baixada Fluminense, embora também tenha unidades em áreas nobres como a Barra da Tijuca, na zona oeste, e Niterói, cidade mais rica do Grande Rio.

Em sua 26ª edição, o aniversário Guanabara faz parte de uma espécie de calendário extraoficial de eventos da cidade. Segundo a rede varejista, são esperados cerca de 1,5 milhão de consumidores até domingo (20). Em outras edições, a procura pelos mercados já causou impactos significativos no trânsito —em 2010, chegou a provocar um caos nos sistemas viários de Niterói e São Gonçalo, prejudicando o acesso à Ponte Rio-Niterói.

Enfileiradas, latas à venda se estenderiam até Europa

Uma das principais anunciantes em veículos de comunicação do Rio, a rede de supermercados se orgulha dos números do evento, que vai até o dia 26: os estoques para o período incluem 30 milhões de latas de leite condensado, 26 milhões de sabonetes e 25 mil toneladas de arroz, entre outros itens.

Público aguarda início do aniversário Guanabara na loja de Vila Isabel - Igor Mello/ UOL
Público aguarda início do aniversário Guanabara na loja de Vila Isabel
Imagem: Igor Mello/ UOL

Também estão à venda 75 milhões de latas de cerveja. Dispostas uma após a outra, formariam uma fila de 9.000 km —o suficiente para ligar em linha reta o Rio de Janeiro à França.

Em quase todos os depoimentos, o que impera é a necessidade de estocar produtos de consumo básico por preços mais baixos —algumas vezes os descontos não chegam a R$ 1, mas fazem diferença nos orçamentos familiares em um momento de crise econômica. Produtos supérfluos, comuns em listas de compra da classe média, passam longe da maioria dos carrinhos.

"Um natalzinho de pobre, mas decente"

Animada com as ofertas, Maria do Carmo Fernandes de Souza sintetiza bem essa tendência. Aposentada e arrimo de sua família, ela conta que trabalha como saladeira em um restaurante para complementar a renda. A consumidora trazia consigo um carrinho abarrotado de itens como papel higiênico, produtos de limpeza e alimentos não perecíveis —sempre em quantidade suficiente para durar vários meses.

"Tem que aproveitar. Faço compra de ano em ano, nunca perdi um aniversário do Guanabara. Troco até de plantão no meu serviço para vir. É porque sou sozinha, não tenho marido. Só tenho minha filha e meus netos, então gosto dessa promoção. Junto meu dinheiro para vir para a promoção e gasto tudo que tem direito para o Natal. Para fazer um natalzinho de pobre, mas decente", relata.

O comerciante Samuel Mansueto comprava cerveja em promoção para revender - Igor Mello/ UOL
O comerciante Samuel Mansueto comprava cerveja em promoção para revender
Imagem: Igor Mello/ UOL

A crise econômica que se abate sobre o país desde 2015 afeta de maneira ainda mais drástica o Rio: o estado fechou o primeiro trimestre com um recorde negativo de 15,3% de sua população desempregada —cerca de 1,35 milhão de pessoas. Um deles é Licínio Rodrigues, desempregado desde fevereiro. No fim da manhã de ontem, ele aguardava em uma fila de pelo ao 30 m para pagar um punhado de produtos.

"Sou bombeiro, pedreiro, pintor e trabalho com hotelaria. Sou bombril mesmo", fala com bom humor. "Estou usando o restinho que sobrou e comprando só o que está barato. O importante é não deixar faltar nada. Se faltar, a Dona Maria reclama em casa".

Cervejas "somem" em 10 minutos

Além de compras para consumo próprio, há quem aproveite a promoção para melhorar os lucros de seus negócios. Para esse público, o produto mais cobiçado são as latinhas de cerveja.

Um pallet que concentrava centenas de caixas das duas marcas mais populares foi esvaziado em 10 minutos. Comerciantes de toda a região encheram carrinhos com os produtos. É o caso de Samuel Mansueto, que vende a bebida em sua casa, no Lins de Vasconcelos, também na zona norte.

Samuel estava ofegante quando falou com a reportagem. Ele corria pelo mercado carregando ao menos seis caixas de cerveja de cada vez. Ao fim, puxava três carrinhos lotados apenas com os produtos.

"Com esses preços dá para tirar um lucro melhor. Posso até botar um preço bom lá também", explicou enquanto empurra com dificuldade os carrinhos em direção a um dos caixas.

Mesma sorte não teve Michelle Batista. Moradora do Jacaré, na zona norte, ela tentou comprar cem caixas de cerveja, mas foi barrada. Segundo ela, só na hora de pagar é que foi informada que havia um limite de dez unidades por cliente.

"Estou aqui desde as 6h, deixei meu filho em casa sozinho e onde moro está no meio de uma guerra. Estou aqui toda semana comprando de cem a 200 caixas sem nenhum problema. Minha tia acabou de comprar 200 caixas no [supermercado Guanabara do] Engenho de Dentro", argumentava ela com um funcionário.

Cotidiano