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'O que se ganha com a guerra? Nada', diz ex-secretário de Segurança do Rio

8.nov.2019 - José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança Pública do RJ - Herculano Barreto Filho/UOL
8.nov.2019 - José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança Pública do RJ Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

12/11/2019 04h03

Resumo da notícia

  • Beltrame afirma que tráfico delimita o seu território até para a entrada das autoridades
  • Ex-secretário de Segurança Pública diz que ações sociais deveriam acompanhar projeto
  • Criador de UPPs acredita que milícias podem atuar como cartel, como ocorre no México

José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, fez um contraponto à política de enfrentamento promovida pelo governador Wilson Witzel, que ganhou fama ao defender o abate a criminosos com fuzis.

"O Rio não tem guerra. Tem ilhas, onde se faz guerra. Isso se dá quando o Estado entra e o rei [chefe do tráfico] se sente ameaçado. Aí, quando uma bala perdida acerta uma criança, não se sabe de onde veio o tiro. E não vai se saber, porque não é território do Estado. O que se ganha com a guerra? Nada", analisou.

A afirmação foi feita na sexta-feira (8), no encerramento do seminário "Macrocriminalidade organizada violenta, os desafios da segurança pública", no auditório da Escola de Magistratura (Emerj), no centro do Rio.

"Há uma desordem pública grande. As pessoas vivem em submoradias. No Rio, a periferia está dentro da cidade".

O ex-secretário de Segurança Pública do Rio também falou sobre a força do poder paralelo, capaz de delimitar um território onde até mesmo as autoridades são impedidas de entrar.

Como ter uma política pública de saúde dentro do Chapadão ou no Alemão? Tem colégio. Mas o currículo das crianças é se esconder de bala. O próprio Tribunal [de Justiça] tem determinações para não intimar pessoas dentro de áreas de risco, onde o estado não está. Nós temos lá [nas favelas do Rio] um imperador com um exército. Aquilo é a fronteira de outro país. É a divisa do Estado formal e do Estado informal.

O ex-secretário ainda deu exemplos do controle dos criminosos nas entradas das comunidades dominadas.

Se tivermos que entrar [em uma favela do Rio], vamos ter que mostrar a nossa identidade [para traficantes]. Eles vão fazer um interrogatório. Perguntem para um motorista de aplicativo como eles fazem para entrar nas comunidades. O Estado tem que ter condições de atuar. As pessoas precisam ter liberdade de ir e vir, para que os serviços cheguem.

Depois da palestra, Beltrame posou para fotos com pessoas presentes no público, mas se negou a conversar com a reportagem do UOL.

Beltrame culpa governo por fracasso das UPPs

O ex-secretário voltou a defender o programa da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), que consistiu na ocupação permanente da polícia em áreas dominadas pelo tráfico.

Criador do projeto responsável pela implantação de 38 UPPs no Rio de Janeiro, Beltrame reforçou a importância de ações sociais para que o programa tivesse continuidade. Ele ficou à frente da Secretaria de Segurança Pública entre janeiro de 2007 e outubro de 2016.

"Vejo as pessoas dizer: 'O programa não deu certo'. O programa deu muito certo. O que não deu certo foi o Estado. E com ele, políticas públicas que o cercam. Mas as críticas sempre são feitas por engenheiro de obra pronta", argumentou.

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UOL Notícias

Ex-secretário teme expansão de milícias

Beltrame também falou sobre a expansão das milícias no Rio. Ele teme que os grupos paramilitares intensifiquem a divisão por território.

"Tenho medo que [as milícias] atuem como um cartel. O dia que isso ocorrer, nós vamos ser o México", disse, em referência à atuação do crime organizado naquele país.

O ex-secretário também falou sobre a forma de atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital), considerada como a principal facção em atuação no país.

"As lideranças do PCC estão no Paraguai. Não matam, porque chama a atenção das autoridades", disse.

Segundo ele, a facção paulista é responsável pelo monopólio da venda de armas para o crime organizado no país.

"Eles [criminosos ligados ao PCC] assumiram a venda de armas e criaram uma rota do tráfico de drogas para a Europa pelos rios amazônicos".

Beltrame é acusado em delação premiada

Em abril de 2018, o economista Carlos Miranda, considerado o operador financeiro de um esquema de corrupção que envolve o ex-governador Sérgio Cabral, disse ter pago uma mesada mensal de R$ 30 mil ao ex-secretário, em um acordo de delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A revelação foi feita em reportagem do Jornal O Globo.

Na época, Beltrame emitiu uma nota, negando ter recebido propina enquanto estava à frente da pasta. Ele disse que a denúncia é uma história "fabricada por alguém que está coagido e, sabe-se lá porque, usando meu nome para jogar fumaça sobre os próprios dramas".

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