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1ª ação da PM na Cracolândia tem policial baleado e repressão

Polícia faz guarda após reprimir dependentes químicos na região da cracolândia, em São Paulo - Wanderley Preite Sobrinho/UOL
Polícia faz guarda após reprimir dependentes químicos na região da cracolândia, em São Paulo Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

15/01/2020 10h57

Quando a primeira bomba de efeito moral estourou, o dependente químico Douglas Silva dos Santos, 36, recolheu uma sacola com seus poucos pertences e correu em direção à praça Princesa Isabel. No caminho, testemunhou um policial "espancar" um colega com um cassetete em frente a uma agência bancária.

Segundo a polícia, a confusão na Cracolândia de São Paulo, na Luz, começou porque um policial foi baleado durante uma operação da PM contra traficantes na região.

Quando estavam saindo houve um disparo vindo na direção da multidão que atingiu a perna de um policial e deu início a um tumulto, que foi prontamente contido pelas forças de segurança. Não houve uso de armas de fogo pelos policiais

Polícia Militar, em nota

Os policiais apreenderam drogas e detiveram seis pessoas, enquanto o agente ferido foi levado à Santa Casa, onde "passa bem".

Um dos responsáveis pela ação, o Sargento Maciel, da PM, contou ao UOL outra versão. Afirmou que a polícia precisou intervir porque os dependentes da região da Luz estariam avançando sobre a região comercial vizinha de Santa Ifigênia.

"Precisamos conter os usuários que estavam nessa área comercial", afirmou. "Quando chegam em bando, eles depredam e saqueiam as lojas. Quando tem movimentação atípica nós somos acionados e intervimos."

Dependentes falam em repressão

"Eles chegaram sem falar nada, já atirando com bala de borracha à queima-roupa. Um colega meu foi atingido no pescoço", contou Santos ao UOL. "Uma mulher foi espancada com cassetete enquanto dormia naquela calçada", diz ele, apontando para uma agência bancária na avenida Duque de Caxias, cuja saída de carros estava bloqueada por duas viaturas na esquina com a avenida Rio Branco.

Douglas Silva dos Santos, 36, é dependente há dez anos - Wanderley Preite Sobrinho/UOL
Douglas Silva dos Santos, 36, é dependente há dez anos
Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL
Os moradores e comerciantes contaram sete bombas a partir das 7h40. Por volta das 8h10, um grupo de dependentes em frente à Sala São Paulo corria em direção à rua Helvetia. Atrás deles, policiais sobre motos ameaçavam os dependentes com cassetete.

"Esses de moto são os mais folgados", conta Santos, que há dez anos mora na região da Cracolândia, mas toda semana volta para a casa da família, em Itaquera, zona leste. "Eles fazem a gente correr de um lado para o outro. Hoje foi feio, vieram a PM e a GCM [Guarda Civil Metropolitana]."

O vendedor de eletrodomésticos Jean Carlos, 42, disse ter visto um dependente ser espancado com cassetete e com a base de uma pistola na esquina da Duque de Caxias com a Rua dos Andradas. "Quando a polícia ataca, eles se revoltam."

Durante a correria, um deles usou uma pedra para quebrar o vidro de um ponto de ônibus na avenida Rio Branco. Nessas ocasiões, a maioria dos comerciantes fecha as portas até que as bombas parem de cair.

Marcelo Dantas Santana, 42, é dono de um bar na região da Luz - Wanderley Preite Sobrinho/UOL
Marcelo Dantas Santana, 42, é dono de um bar na região da Luz
Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL
"Fazia mais de um mês que não tinha operação", conta Marcelo Dantas Santana, 42, dono de um bar na Praça Júlio Prestes. Ele conta que a polícia costuma intervir na região para desmantelar bancas de drogas, que são montadas sob lonas em plena luz do dia.

Sobre os dependentes, o comerciante acha que o tratamento recebido por eles é um "exagero". "Eles não fazem nada, não mexem com ninguém. Ficam sossegados lá dentro. Eles só saem quando a polícia intervém."

Na Alameda Barão de Piracicaba, o UOL testemunhou a humilhação de uma mulher que, ajoelhada, retirava seus pertences da bolsa e os colocava sobre o asfalto. Em pé, dois policiais apontavam suas pistolas para a cabeça da mulher, que chorava.

"Quem vai acreditar no nóia?", questiona o peruano Fernando Medina, 44, há 20 anos morando no Brasil. "A polícia não respeita nem os moradores. Uma vez eu estava na rua quando a confusão começou e eles vieram para cima de mim. Para a sociedade, eles são só viciados, têm de morrer mesmo."

Morador da Luz, o peruano Fernando Medina diz que os moradores também não são respeitados pela PM - Wanderley Preite Sobrinho/UOL
Morador da Luz, o peruano Fernando Medina diz que os moradores também não são respeitados pela PM
Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL

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