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Com buracos nas paredes, UBS de Heliópolis alaga e interrompe atendimento

Alex Tajra e Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

29/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Funcionários registram em vídeos problemas no imóvel da unidade de saúde que atende maior favela de SP
  • Após chuva, salas do local ficaram alagadas e prontuários foram destruídos
  • Segundo relatos, parte do teto desabou em 2019 e neste ano situação precária persiste
  • Prefeitura diz que só houve problema no telhado do auditório e que foi resolvido

Na tarde de 18 de fevereiro, uma chuva relativamente fraca e dispersa foi suficiente para alagar salas administrativas e de consulta na UBS (Unidade Básica de Saúde) de Heliópolis, que atende a maior favela de São Paulo.

Com prontuários destruídos e observando as goteiras e infiltrações que tomavam as paredes, os funcionários da unidade de saúde tiveram de encerrar o expediente mais cedo. A situação precária do local, no entanto, não é um imprevisto ou contratempo, mas algo recorrente.

Os relatos de quem trabalha na unidade citam a frustração de não conseguir atender devidamente as pessoas que vivem em Heliópolis. Dados oficiais mais recentes da prefeitura mostram que, em 2017, havia 180 mil habitantes no bairro encravado na zona sul da cidade.

"Nem precisou de muita chuva, logo no começo já vi que a água estava vazando para dentro da UBS", diz um médico da unidade à reportagem, sob condição de anonimato. Alguns dias depois, o profissional reafirmou a situação precária do local: "Sempre tivemos problemas de goteiras".

Os funcionários registraram as consequências da chuva do dia 18 de fevereiro com fotografias e gravações. As gotas que escorrem dão tonalidades mais escuras para a parede amarelada.

Funcionárias observam buraco no teto da UBS Heliópolis, na zona sul de São Paulo - Arquivo pessoal
Funcionárias observam buraco no teto da UBS Heliópolis, na zona sul de São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

Em um dos vídeos gravados no local, é possível ver um prontuário encharcado e turvo por conta da água da chuva. Nas gravações, também foi registrado um buraco retangular de pelo menos um metro de comprimento no teto de uma das salas de atendimento da unidade; neste mesmo cômodo são pelo menos três buracos no teto (assista ao vídeo no final do texto).

A UBS Heliópolis é uma das 66 unidades básicas administradas pela SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), uma associação civil privada, que se diz sem fins lucrativos e de natureza filantrópica.

A SDPM pode ser enquadrada como uma OSS (Organização Social de Saúde) — organizações que foram alvos de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os parlamentares investigavam a "quarteirização" dos serviços prestados, apurando se a SPDM contratava empresas que são controladas por funcionários públicos ao mesmo tempo em que recebia dinheiro público. A CPI resultou em uma nova lei para regulamentar e fiscalizar as OSs, que está travada na Comissão de Saúde da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) desde abril do ano passado.

Procurada, a SPDM não quis se manifestar sobre a situação relatada na UBS de Heliópolis.

Casa improvisada

A estrutura que abriga a UBS é improvisada, uma "casa de família transformada em unidade de saúde", conforme relato de um dos funcionários. O casarão fica na avenida Almirante Delamare, via que corta Heliópolis e desemboca no bairro do Ipiranga, também na zona sul.

Parte do teto da UBS Heliópolis caiu em agosto de 2019, duas semanas após uma visita do prefeito Bruno Covas - Arquivo pessoal
Parte do teto da UBS Heliópolis caiu em agosto de 2019, duas semanas após uma visita do prefeito Bruno Covas
Imagem: Arquivo pessoal

"Claramente é uma casa que que foi adaptada para a UBS. Por exemplo, no consultório que eu atendo tem armários embutidos de uma casa antiga, e a parte administrativa é como se fosse na edícula da casa. É uma estrutura bem precária", diz o médico que trabalha no local. "Nós atendemos muita gente, cada equipe lá é responsável por mais ou menos 4.000 pessoas que vivem na região."

O médico afirmou que, no ano passado, houve uma tentativa dos funcionários da UBS de avisar o poder público das condições precárias da unidade durante uma visita do prefeito Bruno Covas (PSDB), mas, segundo ele, a denúncia da situação foi abafada por uma supervisora da SPDM, que também acompanhava a visita.

"Uma das funcionárias tentou puxar os assessores [do prefeito] para mostrar o teto que iria cair. E aí ela foi repreendida pela supervisão da SPDM", disse o médico da unidade — segundo ele, a funcionária da OS afirmou que se tratava de um problema interno

Duas semanas depois da visita, uma parte do teto da unidade despencou (veja a foto acima). "Caiu um tijolo bem em cima da balança em que são pesadas gestantes e crianças. A sorte é que não havia nenhuma consulta no momento", disse o médico.

Prefeitura nega buracos e paralisação

Questionada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a UBS Heliópolis está sob o controle da SPDM desde 2018, "quando a unidade passou por reforma, executada pela própria SPDM". A Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste afirma que a unidade custa, mensalmente, mais de R$ 300 mil aos cofres públicos.

Diferentemente do que foi relatado por funcionários do local à reportagem, a secretaria de Saúde afirma que, naquele 18 de fevereiro, "a unidade não paralisou nenhum serviço ao usuário e funcionou até as 19h". Sobre os problemas estruturais, como rachaduras e goteiras, a prefeitura afirma que a UBS "não têm buracos na parede".

Segundo nota da prefeitura, "o auditório da unidade apresentou vazamento, mas, foi sanado e será instalada uma manta sobre o telhado".

A prefeitura informou, ainda, que "programou as reformas das Unidades Básicas de Saúde (UBS) Almirante Delamare, a partir da próxima semana".

"A UBS está contemplada no projeto Avança Saúde, para reforma estrutural em 2020, com recursos do contrato realizado entre a administração municipal e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)", diz o texto, que informa, ainda, não ter havido interrupção no atendimento à população.

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