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Saideira paulistana: sexta-feira tem clima de pré-quarentena em São Paulo

Movimento no centro de São Paulo durante a pandemia do novo coronavírus - Andre Porto/UOL
Movimento no centro de São Paulo durante a pandemia do novo coronavírus Imagem: Andre Porto/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/03/2020 19h28

Lojas, galerias e shoppings fechados. Nas ruas, pessoas se desviavam dos profissionais oferecendo assinaturas de revistas ou compra e venda de ouro, em um vaivém que não faz jus à fama da correria paulistana, mas está longe de representar calmaria. Este é o cenário de São Paulo nesta sexta-feira (20), possível último dia de movimento antes de a maioria da população entre em quarentena voluntária para tentar conter a propagação do novo coronavírus.

Assim encaravam os paulistanos que ainda tiveram de ir ao trabalho hoje: todos receosos com o vírus, todos tratando esta como uma saideira antes do isolamento. A partir de segunda (23), uma expectativa: o cenário deverá ser outro.

A última sexta antes da quarentena

Com o comércio fechado, só sobraram os restaurantes e poucas empresas que ainda funcionavam entre a Praça da República e o Vale do Anhangabaú, no coração de São Paulo. Com o movimento baixo, porém frequente, a cena fazia lembrar um dia nublado de domingo na capital.

"Está bem parado, mas achei até que seria pior. Achei que não ia ter mais ninguém na rua. Estão falando que é perigoso, né?", afirmou Antônio Jorge, sob um cartaz de compra e venda de ouro.

Aos 64 anos, ele disse que também preferia estar em casa, descansando, mas, por ser autônomo, tinha de trabalhar. "Se eu não vier, não recebo, né?" Ele não sabe como será na próxima semana, quando a loja para a qual presta serviços provavelmente fechar. "Tenho que ver como faço com o dinheiro."

De olho nos transeuntes, Carlos Bacchi também mostrava desânimo. Dono de lanchonete, ele havia vendido poucos salgados naquela manhã, e a quantidade de comida que seria oferecida no almoço era menor do que o habitual.

"Vai ser nosso último dia aqui, amanhã já não abro. Sem o comércio, com um movimento desses, a gente paga para trabalhar e ainda fica exposto ao vírus", declarou.

Lojas vazias no centro de São Paulo durante pandemia do novo coronavírus - André Porto/UOL
Lojas vazias no centro de São Paulo durante pandemia do novo coronavírus
Imagem: André Porto/UOL

Coronavírus assombra os profissionais na rua

O clima entre os autônomos que trabalham com convites para os mais diferentes tipos de negócio nos prédios da região era de prevenção e preocupação. "A gente mantém uma distância segura. Em vez de apertar a mão, acenamos, evitamos quem espirra — e assim a gente vai chamando as pessoas", contou Roberto Costa.

Além da diminuição do tráfego, ele diz que as pessoas estão ainda mais resistentes para parar e ouvi-los. "Agora, ninguém quer conversar né? Está uma tranquilidade, dá até para ouvir os passarinhos", declarou.

Como os outros, ele acha que só deverá trabalhar até esta semana. "Está todo mundo falando que aqui segunda-feira [23] não vai ter ninguém", relatou.

Uma trabalhadora da limpeza da prefeitura, que preferiu não se identificar, diz achar que havia muito mais gente do que deveria na rua. Para ela, o brasileiro "não leva as coisas a sério".

"Já deveriam estar em casa, não é? Estou aqui porque tenho que estar, mas tenho medo de pegar [o vírus]. Isso é um assunto sério, muito sério. Mas o povo só se importa quando a desgraça acontece", reclamou.

Andre Porto/UOL
Imagem: Andre Porto/UOL

Movimento reduziu, mas não parou

"O movimento está ruim desde o início da semana. Ontem [19], alguns comércios já começaram a fechar. Hoje está zero. Ninguém, ninguém, ninguém", contou Luana Marchine, caixa de um mercadinho na Rua 7 de Abril, na República.

Ela diz que não vê sentido em abrir na próxima semana, "já que o movimento deve piorar", mas "tudo depende da patroa". Mesmo com poucos atendimentos, ela diz estar preocupada com o vírus.

"Eu passo álcool gel em tudo. Todas as portas, no balcão. Olha aqui, já que estamos falando disso, vou passar de novo", disse Luana, oferecendo o produto à reportagem. "Aqui ele [o vírus] não vai pegar, não."

Movimento baixo de pessoas no centro de São Paulo nesta sexta (30) - André Porto/UOL
Movimento baixo de pessoas no centro de São Paulo nesta sexta (30)
Imagem: André Porto/UOL

Filas nas portas dos bancos

Pela Avenida Paulista, as agências de banco tinham fila indiana nas portas. A estratégia era evitar aglomerações na área de atendimento. A maioria dos clientes estava ali para resolver alguma pendência, sob medo de não encontrar as unidades abertas na semana que vem.

O microempresário Carlos Eduardo precisava entregar os últimos documentos para a liberação de um empréstimo para a abertura de uma franquia de pastelaria. "Espero que liberem no prazo, semana que vem, mesmo com as agências fechadas", declarou.

Valdice Sousa precisava retirar o cartão, mas tinha medo de atraso. "Se não chegar, eu vou ficar sem? Eu deveria ter mudado [o endereço de entrega] para a minha casa, aqui fica perto do serviço", contou.

De máscara, os atendentes e seguranças dos bancos não quiseram comentar se devem trabalhar na próxima seguinte. "Mas espero que não", brincou um deles.

Agência do INSS no centro de São Paulo fechada nesta sexta-feira (30) - Andre Porto/UOL
Agência do INSS no centro de São Paulo fechada nesta sexta-feira (30)
Imagem: Andre Porto/UOL

Turismo na cidade esvaziada

Em meio aos trabalhadores e pessoas resolvendo problemas, turistas integravam o último cenário da saideira paulistana. A família de Nanci Cardoso saiu de Minas Gerias para a capital paulista para participar de uma feira de negócios nesta semana. Como o evento foi cancelado, eles decidiram passear pela cidade.

"Estamos dando uma volta antes de voltar, amanhã. Minha irmã mora aqui e está levando a gente", contou, enquanto olhava a Avenida 9 de Julho, sob o vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo). Ao redor, dois ou três casais e um morador em situação de rua cantando sobre uma caixa. O local costuma ficar lotado de jovens durante as sextas.

"Mas estamos protegidos. Passamos a todo momento", afirmou Nanci, depois de o filho mostrar um frasco de álcool gel na bolsa. A reportagem viu ainda famílias passeando pelo e grupos de estrangeiros passeando pelo Centro.

Pedestre em rua esvaziada do centro de São Paulo nesta sexta-feira (20) - Andre Porto/UOL
Pedestre em rua esvaziada do centro de São Paulo nesta sexta-feira (20)
Imagem: Andre Porto/UOL

Última conversa com os amigos

Reinaldo Jacinto também tirou a sexta para bater um papo com os antigos colegas, momento raro em tempos de reclusão. Aos 63 anos, ele falava despreocupado com os amigos em meio às ruas fechadas para carros no centro paulistano.

"Eu já passei uns 15 dias trancado em casa. Hoje vim passear, rever os colegas que não falava tem muito tempo. Já já estamos trancados de novo e aí não sabe quando vai parar, não é?", declarou Reinaldo, atualmente desempregado.

Ele dizia não ver problemas em passear por áreas movimentadas. "Também tomo meus cuidados, você tem tomado os seus?", questionou, sorrindo. "É para lavar as mãos, viu? Usar muito álcool gel. Se não, pega a gripe e aí já viu."

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