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Marido de técnica de enfermagem vítima de coronavírus lamenta: 'Pesadelo'

Juan Cáceres e a técnica de enfermagem Mara Rúbia Silva Cáceres - Arquivo pessoal
Juan Cáceres e a técnica de enfermagem Mara Rúbia Silva Cáceres Imagem: Arquivo pessoal

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

08/04/2020 16h50

O telefone demorou para tocar e horas se arrastaram. De casa, Juan Cáceres, 48 anos, aguardava apreensivo por notícias do estado de saúde da mulher, a técnica de enfermagem Mara Rúbia Silva Cáceres, 44 anos, internada por coronavírus no Hospital Conceição, em Porto Alegre, no mesmo lugar onde trabalhava. No começo da noite de ontem, ele recebeu a visita da sua irmã. Em seguida, vieram as palavras que ninguém quer ouvir: Mara havia morrido pela doença. Ela é considerada o primeiro óbito de um profissional de saúde por covid-19 na cidade.

"Não acreditei. A minha impressão é que eu vou acordar de um pesadelo", conta.

Cáceres conta que a esposa começou a sentir os sintomas da doença em 29 de março quando estava indo trabalhar no hospital. "Ela começou a sentir dor no corpo e febre. Ela foi na emergência do Conceição, deram medicação e ela foi liberada", conta o marido. Mas a febre persistiu e ela foi levada pelo marido às pressas ao hospital na madrugada de 31 de março. Inicialmente deu entrada na emergência, mas em seguida foi transferida para UTI.

No caminho, Mara tentou ainda acalmar o marido. "Ela me disse: 'Não te preocupa. Logo, logo isso vai passar'. Eu acho que no fundo ela sabia." Após entrar na emergência, Cáceres só conseguiu ver a esposa à distância, no corredor do hospital, já deitada na cama e com máscara de ar. Ele ainda falou alto para uma colega de trabalho "cuidar bem" da esposa, segundos depois de ter recebido anéis, brincos e outros pertences da companheira. "A última vez que eu a vi foi ela dando um tchauzinho com a mão", conta Cáceres com a voz embargada.

Após a morte, o marido não pôde ver a esposa. Da UTI, o corpo foi entregue para a funerária envolto em dois sacos. Devido à doença, não foi permitido velório e o sepultamento ocorreu na tarde de hoje com o caixão lacrado e com os familiares respeitando a distância de dois metros entre eles. Cáceres pôde comparecer, mas com máscara.

"Nunca faltou ao trabalho", conta marido

Mara era auxiliar e técnica de enfermagem. Antes de passar no concurso para o Hospital Conceição, trabalhou em lar de idosos. O marido conta que, depois dela cumprir o expediente, saía entre lágrimas ao deixar os velhinhos. "Ela amava o que fazia. Eu sempre tive muito orgulho dela. Nunca faltou ao trabalho", conta o marido.

Ela tinha asma, mas fazia anos que não tinha nenhuma crise, segundo o marido. Cáceres conta que, após o governo anunciar que o Hospital Conceição seria uma das unidades a receber pacientes da covid-19, a esposa não demonstrou preocupação com sua saúde. "Ela ficou preocupada, não com ela, mas sim porque ia ser uma demanda gigantesca e que o hospital não iria dar conta", explica. A mulher chegou a comentou que, devido à situação, temia ter que dormir no próprio trabalho.

O casal estava junto há 21 anos. Os dois se conheceram quando a mãe de Mara morreue, na época, ela procurou Cáceres, já que ele trabalhava em uma funerária.

Para a enteada de Mara, Bruna Silva Cáceres, a técnica de enfermagem era praticamente sua segunda mãe. Após a separação dos pais, ela foi morar com os avós em Taquara, nos finais de semana e nas férias escolares, estava na residência do casal. "Ela era parceira de sempre, saia comigo no shopping", conta a jovem, que parou de falar ao começar a chorar.

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