PUBLICIDADE
Topo

Conteúdo publicado há
15 dias
Imigrante acusa homem de chamá-lo de "macaco" e ameaçá-lo com pau em SC

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, de Porto Alegre

09/07/2020 11h18

O imigrante africano Francisco Santos Cá, 35, diz que foi chamado de "macaco" quatro vezes por um homem quando procurava uma passageira em frente a um estacionamento. A vítima é motorista de aplicativo e relata que a injúria racial ocorreu nessa terça-feira (7), em São José, na Grande Florianópolis.

A identidade do responsável pelas ofensas não foi revelada, e a sua defesa alega ao UOL que ele não proferiu os xingamentos.

De acordo com Francisco, o GPS do seu carro indicava a localização da mulher no endereço do estacionamento, mas aguardou fora do local.

"Eu não entrei, fiquei com o carro em via pública, vi que tinha uma pessoa lá dentro (do estacionamento). Mas deu o tempo de espera e a passageira não apareceu. Esse homem se aproximou e já disse: 'o que é que você quer aqui?'. Eu expliquei que era motorista de aplicativo e que estava vindo buscar passageira. Daí ele falou: 'não é aqui então, vaza daqui'", explicou.

Francisco alega que retirou o carro da frente da garagem do estacionamento e seguiu esperando a passageira, quando o homem reapareceu

Ele disse: 'você ainda está aqui macaco?' Daí eu perguntei o que eu tinha feito para ele e ele falou 'vaza daqui senão eu vou te quebrar'. Ele estava segurando uma pedra e um pau. Me chamou de macaco quatro vezes
Francisco Santos Cá, motorista de aplicativo

Francisco tentou gravar os xingamentos, mas ficou nervoso no momento e não conseguiu registrar. Entretanto, o imigrante tirou uma foto do homem no estacionamento antes que o suspeito saísse do local em uma caminhonete. Naquele momento, o motorista de aplicativo ligava para a polícia.

Em seguida, os PMs chegaram ao local e uma mulher, que presenciou a cena, acabou servindo de testemunha. O imigrante foi até a delegacia, mas ela estava fechada devido à pandemia do coronavírus. Porém, na tarde de ontem prestou depoimento por videoconferência.

Em nota, a Polícia Civil informou que o inquérito já foi instaurado e a vítima deu sua versão. A investigação tem 30 dias para ser concluída, quando serão ouvidas testemunhas e interrogado o autor. O suspeito das ofensas poderá responder por injúria racial e ameaça. Apenas pela injúria ele pode cumprir pena de um a três anos de prisão e ainda pagar multa.

"Fiquei arrasado", conta imigrante

Francisco é de Guiné-Bissau e já mora no Brasil há 11 anos - seis anos em Fortaleza e cinco em Florianópolis. Ele conta que já sofreu preconceito indireto, mas nada como o ocorrido na terça-feira. "De forma verbal nunca, mas indireta várias vezes, na hora de procurar emprego, do cara dar oportunidade para outra pessoa. Isto está na pessoa. Tenho muitos amigos brancos que me tratam como irmão", relata.

Em entrevista ao UOL, o imigrante conta que ao ouvir a palavra macaco ficou "arrasado". "No vídeo (gravado por ele após o incidente), eu estava tremendo. Eu nunca imaginei que iria passar por isso", recorda.

Na gravação, em frente ao estacionamento, ele relata o que aconteceu. "Essa situação não pode continuar acontecendo. Estamos no século 21, o ser humano tem que ser respeitado, a cor, a raça, religião, ou a pessoa é gorda, magra, fraca, alto, baixo, todos somos iguais", disse o imigrante no vídeo.

Francisco veio com a mulher para o Brasil atrás de uma vida melhor. Aqui tiveram dois filhos, hoje com sete e dois anos de idade. O casal escolheu o Brasil pela facilidade com o idioma, já que nos dois países o idioma é o português. Em Guiné-Bissau, ele cursava ciências econômicas, mas não chegou a concluir. Aqui no Brasil, o motorista de aplicativo acabou se formando em gestão de tecnologia da informação.

Em Florianópolis, ele trabalha para duas plataformas diferentes há dois anos e meio. Devido à pandemia, a mulher dele perdeu o emprego como auxiliar de produção e o serviço com apps é o ganha-pão da família. No verão, ele chega a trabalhar como garçom em bares e restaurantes. "Eu me viro. Tenho que sustentar minha família."

Suspeito nega acusação

O homem apontado pelo imigrante negou ser racista e encaminhou um vídeo se defendendo. Questionado sobre a identificação dele, passou o contato do advogado Frederico Goedert Gebauer. Ao UOL, o defensor alega que o cliente dele está recebendo ameaças "fora do comum" e está sofrendo "linchamento virtual".

Para o advogado, o homem reconheceu que houve troca de xingamentos entre ele e o imigrante. Entretanto, ele negou tê-lo chamado de macaco. "Ele nega veementemente que houve xingamento racista", conta.

Além disso, o homem nega que fugiu do local. "Ele já estava de saída, por isso que pediu para o motorista sair da frente do estacionamento. Naquele dia estava chovendo e a lavagem estava fechada", pontua o advogado, que salientou ainda que o seu cliente é filho de mulher negra.

Cotidiano