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Caso Marielle

Marielle: Parceria com Lessa reforça suspeita de ex-vereador como mandante

19.mar.2019 - O ex-vereador Cristiano Girão Matias - Marcos de Paula/AE
19.mar.2019 - O ex-vereador Cristiano Girão Matias Imagem: Marcos de Paula/AE

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

09/09/2020 13h00

Uma suposta ligação com o policial militar reformado Ronnie Lessa na execução de assassinatos de um casal em 2014 reforça a suspeita de que o ex-vereador Cristiano Girão possa ter sido o mandante da morte de Marielle Franco (PSOL), assassinada a tiros em março de 2018 na região central do Rio, segundo fontes da Polícia Civil.

Investigadores veem semelhança entre os assassinatos de Marielle e de um casal em meio a uma disputa territorial entre milicianos —segundo a polícia, Lessa e Girão são suspeitos de envolvimento neste crime ocorrido há seis anos na zona oeste carioca. Nos dois casos, os executores emparelharam o veículo e abriram fogo, com o carro onde estavam as vítimas ainda em movimento.

"São assassinatos com a assinatura do Ronnie Lessa", disse ao UOL o delegado Antônio Ricardo Nunes, diretor do DGHPP (Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa).

Endereços ligados a Girão foram alvos hoje de mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Rio no inquérito que apura um duplo homicídio em junho de 2014 no bairro Gardênia Azul, zona oeste do Rio. Na ocasião, o ex-PM André Henrique da Silva Souza e sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, foram mortos a tiros.

Os agentes apuram se Lessa, acusado de matar Marielle e preso desde março de 2019, teria sido o autor dos disparos. De acordo com a polícia, Girão teria contratado Lessa para matar o casal.

Fontes ligadas à Polícia Civil apontam que os crimes podem estar ligados ao mesmo grupo criminoso, sob o comando de Girão.

Com ele, foram apreendidos três celulares, que serão analisados para verificar se há indícios do envolvimento dele na morte de Marielle.

9.set.2020 - O ex-policial militar André Henrique da Silva Souza e sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, foram mortos a tiros no bairro Gardênia Azul, zona oeste do Rio, em junho de 2014. Veículo usado pelo casal foi atingido por diversos disparos. Segundo a polícia, o policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle, foi o autor dos disparos - Divulgação/Polícia Civil do Rio - Divulgação/Polícia Civil do Rio
9.set.2020 - O ex-PM André Henrique da Silva Souza e sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, foram mortos a tiros no bairro Gardênia Azul, zona oeste do Rio
Imagem: Divulgação/Polícia Civil do Rio

O delegado Antônio Ricardo Nunes diz acreditar que o material recolhido nos mandados de busca e apreensão pode auxiliar a identificar envolvidos no assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes. "É possível que nas apreensões sejam encontradas evidências que ajudem a finalizar as investigações", avalia.

A operação da Polícia Civil e do MP-RJ (Ministério Público do Rio) foi organizada após a quebra de sigilo dos dados digitais de Lessa. Entre os investigados, também foram identificados o ex-policial civil Wallace de Almeida Pires, morto em julho de 2019, e o policial militar Fábio Santana, denunciado pelo MP-RJ por envolvimento no assassinato da engenheira Patricia Amieiro, morta em junho de 2008.

O UOL ligou para o advogado de Cristiano Girão Matias, mas ainda não conseguiu contato com ele.

A defesa de Ronnie Lessa afirmou que não irá se pronunciar, pois não teve acesso aos autos. A reportagem não localizou a defesa dos demais investigados.

Quem é Cristiano Girão

Desde o começo das investigações do atentado que resultou na morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, Girão aparece como um dos suspeitos de ser o mandante do crime. Ele teve o sigilo telefônico quebrado no decorrer da investigação.

De acordo com a Polícia Civil, Girão teria contratado Lessa para assassinar um casal há seis anos, em circunstâncias semelhantes ao atentado que vitimou a vereadora do PSOL. Ele já teve seu nome ligado a outros homicídios, mas os inquéritos nunca foram concluídos. Às autoridades, Girão afirmava, em sua defesa, que era vítima de uma "perseguição política".

O ex-parlamentar carioca já cumpriu pena por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Preso em dezembro de 2009, foi transferido para o sistema penitenciário federal dois meses depois. No cárcere, deu uma cabeçada em um outro prisioneiro, de acordo documentos judiciais obtidos pelo UOL. Em 2015, passou a ter direito a liberdade condicional, mas foi proibido de ir ao Rio por pelo menos um ano, por decisão da Justiça federal.

Colaborou Flávio Costa

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