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Cubano diz ser neto de Che Guevara e usa Instagram para viver no Brasil

Jose Angel Lima Guevara afirma que sua avó foi um caso extraconjugal do revolucionário Che - Reprodução/Instagram
Jose Angel Lima Guevara afirma que sua avó foi um caso extraconjugal do revolucionário Che Imagem: Reprodução/Instagram

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

18/10/2020 04h04

Em 2016, Jose Angel Lima Guevara deixou uma missão médica cubana na Guiana e decidiu vir morar no Brasil. À época ele recebera um convite para trabalhar na área de redes sociais de um grande hotel em Porto de Galinhas, em Ipojuca, litoral pernambucano. Hoje, o cirurgião plástico de 30 anos é casado com uma brasileira e afirma ganhar a vida como blogueiro e influenciador digital, com 130 mil seguidores no Instagram.

Formado pela Universidade de Ciências Médicas da Havana, ele conta ainda que descende de um personagem da história mundial: é neto do ícone da revolução cubana Ernesto "Che" Guevara com uma guerrilheira. Sua mãe, Osdilma Guevara, é filha de Belkis Reyes Peres, que lutou com o comandante e com quem teria tido três filhos.

A história, diz Angel, não é reconhecida pelo governo cubano, que mantém a versão oficial de que Che teve cinco filhos com duas mulheres. "Mas todo mundo no país sabe", garante.

Angel diz que "por questões políticas" não quis voltar para Cuba. "Na época apareceu esse emprego em um hotel em Porto de Galinhas e decidir vir para para o Brasil", conta.

Há um ano ele deixou o hotel em que trabalhava e vive de sua atividade no Instragram, segundo contou à reportagem do UOL.

Com um filho brasileiro, o cubano nunca atuou na profissão em que se formou aqui no país. Chegou a ser aprovado no processo seletivo emergencial feito pelo Hospital de Clínicas da UFPR (Universidade Federal do Paraná) —com resultado em 10 de agosto—, mas resolveu não ir.

Bronca com Bolsonaro após fim do Mais Médicos

Para ele, muitos profissionais ficaram no país confiando na promessa de trabalho de Bolsonaro após o fim do acordo entre os países no Mais Médicos. "Bolsonaro é sem palavra. Falou para os médicos cubanos que podiam ficar, que iriam trabalhar. Muita gente depositou confiança nele, e até hoje não tiveram resposta. Há muitos cubanos desempregados, uns conseguiram revalidar o diploma, outros não", diz.

Angel diz que não compartilha da mesma ideologia política do país caribenho e é contrário ao regime do país. "O fundamento do comunismo é a igualdade de direitos, todo mundo é dono de tudo. O país foi assim por muito tempo. Até os anos 1980 foi algo muito bom para o país, mas aí veio o embargo dos Estados Unidos e, especialmente, quando acabou a União Soviética, Cuba ficou desamparada porque não tinha produção própria: tudo vinha dos soviéticos. A partir dali a ideologia começou a mudar", afirma.

Ele classifica hoje o país como dividido internamente e que existem os "politicamente poderosos" e o povo simples.

"Eu tinha todo privilégio lá, nunca fui maltratado. Mas o povo simples não tinha, eu tinha porque tinha meu sobrenome. Hoje em dia as classes sociais estão mais acentuadas", afirma.

Revolução cubana: para Che "era matar ou morrer", diz Angel

Mesmo crítico ao comunismo, ele defende seu avô e seu legado. Critica Bolsonaro, que recentemente fez postagem em lembrança a morte do guerrilheiro e o atacou.

"É difícil digerir quando se trata de alguém da sua família. Eu pessoalmente não apoio o comunismo, mas o ideal dele naquele momento não era naquela malícia, naquela maldade que o Bolsonaro se refere. Ele estava libertando um país que iria ter melhor economia, melhor sistema de vida, ele conseguiu ver os frutos. Sim, se cometeu erros, se assassinou pessoas —afinal era uma guerra, era matar ou morrer. Mas havia uma ideologia de igualdade de direitos, de saúde gratuita, de moradia", explica.

"Eu sou cristão, sei que ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém, mas ele fez por libertação de povos", completa.

Por carregar o sobrenome marcante, e que divide ideologias de esquerda e direita, ele conta que passou no Brasil "muitas coisas negativas e positivas", mas que leva uma vida sossegada em Pernambuco.

"Em muitos lugares me consideravam herói; em outros odeiam, diziam 'um neto desse assassino', 'ave Maria, puxou a ele'. Eram coisas fortes, mas opinião cada um tem a sua, tem de respeitar. Mas aqui [em Pernambuco] o povo é muito light, muito simpatizante. Converso com donos de clínicas, de hotéis, pessoas públicas da saúde, eles simpatizam e gostam muito da figura dele", conta.

Nem esquerda, nem direita

Questionado se é mais identificado com esquerda ou direita, diz que não concorda com "rótulos."

"Esquerda e direita é muito confundido. É uma terminologia que não existe em meu país. Acho que não sou nem esquerda nem direita. Sou só uma pessoa que não gosta de coisas do comunismo", afirma.

Mesmo com o sucesso em suas redes sociais, Angel admite que é desejo seu atuar como médico. Conta que já recebeu convite para trabalhar na política brasileira, mas negou. Hoje, além de seu trabalho, estuda para passar no Revalida —prova que dá o título de médico a quem se forma em faculdade estrangeira. "Gostaria muito de atuar como médico aqui. O médico cubano é muito preparado, não é verdade o contrário", diz.

Sobre Cuba, onde vive sua família e outros três filhos, diz que gostaria de ver transformada em um país mais aberto.

"Gostaria de ver Cuba com outra política de Estado, econômica, que não o comunismo mesmo, que até agora não deu certo. São 60 anos que não demonstraram poder, convicções. Pode se manter os princípios básicos, mas precisa de uma economia mais sólida. Cuba vive um momento muito difícil na educação, na saúde, na higiene pessoal das pessoas. Pessoas saem com dinheiro para comprar alimentos, não tem, é escasso", diz.

Já sobre o Brasil, diz estar feliz e sem desejo de volta. "Tenho aqui estabilidade social, moral e econômica. Sinto-me muito bem aqui, gosto do Brasil."

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