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Cotidiano

RJ: Na batalha de barbeiros, mulher é bicampeã com corte simples impecável

Lola Ferreira

Colaboração para o UOL, do Rio

10/11/2020 04h00

Toda comunidade, favela e bairro periférico tem pelo menos uma barbearia que é referência para os jovens da região. São lugares que antecipam tendências, como o hábito de "deixar o cabelo na régua". Neste domingo (8), os melhores barbeiros do Rio de Janeiro se reuniram na quadra da Portela, em Madureira, para disputar o cinturão de melhor corte da cidade.

Em uma competição dominada por homens, quem se sagrou vencedora de uma das categorias foi Larissa Silva, de 23 anos. Única mulher da disputa, ela venceu pelo segundo ano consecutivo.

Para a mulherada que está começando nesse ramo e sofre preconceito ainda, e trabalha como barbeira: não desista, a gente pode fazer o que a gente quiser.
Larissa Silva, campeã da Batalha dos Barbeiros

Desde 2012, a Batalha dos Barbeiros atrai os craques da tesoura de diversas comunidades. Tradicionalmente realizada no Parque Madureira, a etapa final ocorreu desta vez a um quarteirão de distância, na quadra da escola de samba, para evitar aglomerações devido à pandemia.

batalha - Lola Ferreira/UOL - Lola Ferreira/UOL
Larissa Silva, bicampeã da Batalha dos Barbeiros
Imagem: Lola Ferreira/UOL

'Barbeirada' reunida

Ainda assim, passaram pelo lugar cerca de 2 mil pessoas, entre profissionais de barbearia, admiradores e torcedores de cidades do Rio de Janeiro e até em caravanas de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.

"Para mim, é o melhor evento do Estado do Rio de Janeiro. Espero todo ano chegar novembro pra gente vir e se reunir com a 'barbeirada', ver a qualidade dos cortes", diz o barbeiro Bruno Nogueira. "Isso mostra de acordo o que é o nosso dia a dia, o que é o povão, a misturada, é todo mundo junto. É a nossa profissão, a nossa vida", completa Vinicius Oliveira, também profissional das tesouras.

Ao som de funk, rap e poesia acústica, a batalha envolveu 12 competidores, que trabalhavam nos cabelos de seus clientes em cima do palco da Azul e Branco de Madureira.

Eles foram os campeões das semifinais que ocorreram no Morro do Vidigal, na zona sul; na Cidade de Deus e em Campo Grande, na zona oeste; e no Complexo do Alemão, na zona norte. Cada comunidade elegeu dois finalistas nas categorias corte e desenho. Antes de a final começar, outros dois foram escolhidos para representar Madureira. A esses dez profissionais se juntaram os dois campeões de 2019.

Enquanto manuseavam tesouras, navalhas e máquinas de cortar cabelo, eles eram observados por jurados, que circulavam com pranchetas nas mãos para avaliar critérios como:

  • Corte: indica se o competidor usou as ferramentas corretas e do jeito certo;
  • Forma: mostra se a ideia geral foi seguida durante o processo;
  • Harmonia: avalia se corte e desenho estão em sintonia, e se há leveza nas transições e detalhes nas figuras desenhadas;
  • Criatividade: aponta se houve intenção de inovar ou de executar alguma ideia original;
  • Finalização: observa aspectos técnicos como pontas soltas ou traços sem finalização.

Mas, para o jurado Michel Queiroz de Santana, conhecido como Michel do Corte, a avaliação vai além disso. De acordo com ele, o diferencial apresentado por um bom corte ou desenho é a coerência.

Para ganhar, precisa de muita qualificação, um bom cronograma do corte, graduação do corte. Não pode deixar falha no disfarce, no acabamento, o desenho tem que ter combinação. Se o corte tiver imperfeição e o desenho não tiver qualificação ou não tiver noção de desenho, é desclassificado

Os cortes da Batalha de Barbeiros 2020

Nota de partida

Se você ficou perdido, Michel dá um exemplo: se começarem retas, as "listras" de um corte não podem terminar onduladas. Se o "disfarce" começar com o pente nº 2 da máquina, não pode pular para o pente nº 1 sem passar pelo nº 1,5 —disfarce é como os cariocas chamam cortes que apresentam transição de diferentes alturas de cabelo para dar a impressão de degradê.

Antes de avaliar o trabalho, os jurados definem a dificuldade de cada corte ou desenho a ser executado. É como se fosse uma nota de partida máxima a ser atingida. Para isso, avaliam textura e tamanho do cabelo dos modelos. Essas pessoas podem ser levadas pelos próprios competidores ou pinçadas da plateia.

Enquanto a competição rola no palco, bancas vendem produtos para cabelo, pentes estilizados e a camisa do evento. Este último item é tão disputado que causava correria a cada vez que chegava um novo carregamento de poucas dezenas. A batalha começou como uma competição, mas hoje virou uma marca de produtos gerenciada pelo empresário do ramo de barbearias Hugo Nunes e sua esposa, Erica Nunes.

Disfarçado impecável

Na batalha derradeira, os concorrentes da categoria corte têm 30 minutos para mostrar o que sabem. Já os que disputam na de desenho têm 50 minutos.

Enquanto os jurados avaliavam aspectos técnicos, em uma discussão que durou 20 minutos, alguns trabalhos chamavam a atenção. Um dos barbeiros desenhou o jogador de basquete Kobe Bryant e sua filha Gianna, mortos num acidente aéreo em janeiro deste ano. Outro esculpiu em cabelo os personagens Patolino e Mickey Mouse. Também surgiu em uma das cabeças a imagem do rapper Snopp Dogg.

Mas não teve jeito. O vencedor da categoria desenho foi Michel Vitor, de Campo Grande. Ele criou uma elaborada composição: dentro da silhueta de um morcego, em alusão ao super-herói Batman, construiu o sorriso do vilão Coringa. Apesar de a figura ser complicada, Michel disse que só pensou nela no dia anterior à batalha. Agradecendo a premiação, disparou: "não desistam dos seus sonhos".

Sob aplausos de uma plateia já reduzida, após nove horas de evento, Michel dividiu o prêmio principal, uma moto no valor de R$ 7 mil, com a outra vencedora da noite: Larissa Silva, de Barra Mansa, município do sul fluminense.

Bicampeã, ela esteve no palco para defender o cinturão que levou para casa em 2019. E conseguiu. Venceu os outros cinco homens competidores na categoria com o seguinte penteado: um disfarçado entalhado com o símbolo da Nike. À primeira vista simples, o trabalho cumpriu de forma exemplar todos os critérios necessários, disseram os jurados.

Ao UOL, a bicampeã diz que a ficha não caiu nem sobre o troféu de 2019, quanto mais o de 2020. "É uma sensação muito boa, fico muito feliz por chegar na final e botar a mulherada para acreditar no potencial delas", diz. Além dela, não havia outra mulher competindo. No público, as mulheres eram espectadoras ou acompanhavam os barbeiros. Entre os homens, a maioria trabalhava com corte.

Para tentar mudar, aos poucos, este cenário, Larissa acredita que noites como a deste domingo são fundamentais.

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