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Teste PCR, máscara e tempo firme: turistas defendem festas na pandemia

Festa em Barra de São Miguel (AL) foi encerrada pela polícia devido ao excesso de público nesta terça-feira (29) - Divulgação/SSP-AL
Festa em Barra de São Miguel (AL) foi encerrada pela polícia devido ao excesso de público nesta terça-feira (29) Imagem: Divulgação/SSP-AL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

31/12/2020 04h01

"Esse evento segue todos os protocolos de segurança contra a covid-19." Frases assim se tornaram padrão nos anúncios de festas realizadas em período de pandemia no Brasil. O fim de ano trouxe um aumento no número de casos, mas em muitos locais as baladas duram dias e movimentam grandes públicos sem perturbação do poder público.

O UOL procurou ouvir pessoas que decidiram viajar para curtir a virada de ano em festas que duram dias no Nordeste. Eles defendem os protocolos sanitários adotados pelas organizações e afirmam se sentir seguras.

Em praias turísticas do Nordeste —onde eventos estão permitidos com regras—, por exemplo, festas que duram dias atraem pessoas de todas as regiões do país. Fotos e vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas aglomeradas desde o fim de semana.

Conhecidas por festas de altíssimo luxo, cidades tradicionais dos estados adotaram regras como apresentação de teste RT-PCR negativo de covid-19 para ter acesso aos locais do evento.

Na Barra de São Miguel (AL), por exemplo, um laboratório foi contratado e está realizando testes que saem em 12 horas (no sistema público esse teste pode demorar mais de uma semana) ao preço de R$ 350. Até voo fretado foi oferecido para buscar turistas de São Paulo.

"É simples: quem se sente seguro, vai; quem não sente, não vai"

A administradora Verânia Santana contou à reportagem que foi de Brasília em um grupo de 10 pessoas para passar as festas e Réveillon na cidade alagoana, onde as festividades vão durar uma semana.

"Eu sempre viajo para praia no Réveillon e gosto muito do Nordeste porque não chove. E eu resolvi vir para Barra de São Miguel porque não cancelou a festa", conta.

Ela diz que se sente segura no evento por conta das medidas adotadas. "Todos tiveram que apresentar teste do covid para pegar as pulseiras", diz, acrescentando ver como injustas as críticas em redes sociais. "Acho injusto, sim. Esse mi-mi-mi de rede social é hipocrisia. É simples: quem se sente seguro, vai; quem não sente, não vai", explica.

Na cidade, a polícia chegou a interditar uma festa que descumpria as regras, mas as demais puderam seguir por cumprir medidas exigidas pelo governo estadual —como ter 300 pessoas no máximo.

Álcool em gel e máscara na festa

Já o contador Maxwell Araújo foi com duas amigas de Goiânia para São Miguel do Gostoso (RN), onde um famoso Réveillon começou suas festas dia 27 e irá até o começo de janeiro.

"Escolhi porque [aqui] tem menos incidência de covid, muito sol e pouca possibilidade de chuva, bem como tudo estar aberto", explica.

Araújo argumenta que as festas que frequenta na cidade potiguar têm limitação de pessoas nos locais, além de álcool em gel e exigência de máscara. "Não concordo que festas ou qualquer ambiente seja inseguro. Isso vai depender da organização da festa ou do ambiente, se exigem teste, se possuem álcool em gel no ambiente e outros cuidados", cita.

O MP (Ministério Público) do Rio Grande do Norte chegou a pedir a suspensão da festa, mas a Justiça negou. Segundo a prefeitura, o evento é feito sem uso de recurso público, e é obrigatória a adoção de "medidas de combate a propagação do vírus covid-19".

Exame PCR é referência, mas pode falhar com a covid-19

A doutora em doenças tropicais Vera Magalhães, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), explica que o exame RT-PCR é considerado "método padrão ouro" para o diagnóstico da covid-19. Mesmo assim, diz ela, uma pessoa assintomática com PCR negativo não tem a garantia de que não está infectada e não possa transmitir a doença.

"A sensibilidade da PCR não é de 100%, nem todos os casos de covid vão ser flagrados por ele. A sensibilidade gira em torno de 60% a 95%", afirma a especialista.

Além disso, ela recorda que existe um período de incubação do vírus que dura de dois a 14 dias. "Tenho diversos pacientes que precisaram realizar mais de um PCR para flagrar a infecção", diz.

Psicóloga explica o por quê da "rebeldia" em relação às medidas de proteção

Mas porque muitas pessoas não obedecem os especialistas e evitam aglomerações até que tenhamos uma vacina, ou que os casos baixem a níveis seguros? Para Adriana Nunan, doutora em psicologia clínica pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), é preciso levar em conta ao menos três aspectos.

Em primeiro lugar, ela cita a postura negacionista do governo federal, que impulsionou uma sensação de que o problema não seria tão grave. "Desde o início da pandemia ele [Jair Bolsonaro] dá declarações públicas de que era uma 'gripezinha'; que se curava com remédios que não funcionavam; de que era uma doença que só afetava idosas ou com comorbidades. A população não leva a sério a situação porque, se o chefe de Estado e as pessoas mais importantes nos ministérios não estão dando importância a isso, por que eu vou dar?", explica.

Um segundo ponto citado por ela é a sensação de que está imune à doença. "Existe um comportamento característico, principalmente entre os jovens, de achar que as coisas acontecem com os outros, mas não com elas, tipo: essa doença vai pegar no vizinho, no amigo, na pessoa que está longe, na TV, mas não vai acontecer comigo. E se acontecer comigo, por ser jovem, não vou ter nenhuma complicação", afirma.

O último fator que ela cita é que o tema tem dominado o noticiário há quase um ano exaustivamente. "Você acaba se cansando, acha que aquilo não tem mais relevância porque você já viu tanto que perde a relevância", diz. "Lembrando que temos um grupo da população também que não acredita nisso."

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