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Cotidiano

Lennon é recebido com hambúrguer pela família após 40 dias de prisão

Lennon chora abraçado ao lado do pai e da mãe, observado pelas irmãs, logo após ser libertado - Marcelo Oliveira/UOL
Lennon chora abraçado ao lado do pai e da mãe, observado pelas irmãs, logo após ser libertado Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

11/02/2021 20h21Atualizada em 12/02/2021 12h39

Após 40 dias, a família de Lennon Seixas Vieira da Silva ainda teve que esperar quase 24 horas para reencontrá-lo: o alvará de soltura foi emitido após as 18h de ontem (10); Lennon cruzou o portão da CDP às 15h de hoje (11).

Lennon foi libertado provisoriamente por ordem da juíza Maria Fernanda Belli, da 1ª Vara Criminal, que entendeu que a prova do processo está "maculada" em virtude de a família do jovem ter encontrado vídeo de câmera de segurança que mostra Lennon e Bruno Prazeres, outro dos presos, sendo revistados e fotografados pela PM entre 22h57 e 23h15. Com base no vídeo, o advogado de Lennon, Paulo Cesar de Oliveira Barros, pediu a liberdade provisória do rapaz.

Não tem explicação (para o que estava sentindo) ao sair da cadeia após ter sido preso sendo inocente, por estar sendo acusado, por ser negro também. Muitos jovens lá dentro estão passando por isso que passei."
Lennon Seixas Vieira da Silva

O pai foi o primeiro a vê-lo e saiu correndo para abraçar o filho, seguido pelas filhas Leila e Leyde e pela esposa Maria José. Todos gritavam, choravam e agradeciam a Deus.

Lennon come hambúrguer levado pelo pai, lanche preferido do filho - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Lennon come hambúrguer levado pelo pai, lanche preferido do filho
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Lennon completou 28 anos no dia 28 de janeiro, na cela do CDP 1 de Osasco que dividia com mais 25 presos — antes, no Belém, nos primeiros 15 dias, eram 36 na cela — e foi recebido com um presente da família: um hambúrguer, seu lanche preferido, que devorou rapidamente.

Antes, a família se ajoelhou na via de acesso ao CDP e orou. Só não foram ao CDP o irmão Leonardo, que não pode deixar o trabalho, e a cadela Gamora. Na prece, eles pediram para que Bruno e Rodrigo Prazeres, amigos presos com Lennon, sejam soltos brevemente. Hoje, a Defensoria Pública pediu a libertação de ambos.

Eu peço a Deus que a Justiça seja feita porque muitos outros inocentes estão pagando lá dentro."
Lennon Seixas Vieira da Silva

A caminho de lá, no carro, sob a chuva torrencial que atingia Osasco, a reportagem conversou com a família de Lennon: "Eu tô com medo de o meu coração parar quando eu encontrar com ele", disse o pai, o porteiro Júnior César Vieira da Silva, 52.

A mãe, dona Maria José, tremia. "Só fiquei nervosa desse jeito há três anos quando perdi uma irmã minha, de repente, por AVC".

Na cadeia em Osasco, Lennon se surpreendeu ao ver tantos jovens da zona sul de São Paulo presos. "Parecia que todo mundo era de lá", disse no carro da família ao voltar para casa.

Ao sair de lá, em uma entrevista, uma das primeiras observações que fez foi sobre o número de homens pretos jovens como ele lá, "acusados por crimes que não cometeram". "No Brasil, infelizmente, prendem primeiro e investigam depois", afirma.

Agora, ele torce para que a liberdade que o alcançou chegue para os irmãos Bruno e Rodrigo, presos com ele na madrugada fatídica de 5 de janeiro.

Nos primeiros 3 dias eu não comi. Não conseguia. Depois, fui vencido pela fome."
Lennon Seixas Vieira da Silva

Falando em comida, a da cadeia, diz ele, era horrível. Um dos pratos servidos lá tinha o gentil apelido de "carne de monstro". Ao chegar em casa, tomou o café da mãe com muito açúcar. "Na cadeia nada tem açúcar", disse.

Lennon toma o primeiro café em casa após ser libertado - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Lennon toma o primeiro café em casa após ser libertado
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Lennon conta que se apegou mais ainda à religião para suportar a tristeza, as más condições da cadeia e a saudade da família, afirma ter "nascido em berço evangélico" e ter sido batizado nas águas. Fiel da Assembleia de Deus.

O jovem tem apenas o ensino fundamental completo. Ele interrompeu os estudos no primeiro colegial depois que começou a trabalhar. Ele quer se matricular no segundo grau ainda este ano e também sonha em trabalhar com um carrinho de churrasco em Piraporinha, o bairro da zona sul onde mora e, surpreendentemente, divide um beliche com o pai, pois Júnior César doou a própria cama para o filho mais velho, Leonardo, que vai ser pai em breve.

Lennon e Bruno foram abordados duas vezes pela PM na noite de 4 de janeiro. A primeira abordagem ocorreu por volta de 21h numa rua próxima de sua casa, quando a PM já procurava os sequestradores do médico, sem sucesso. "Como eu poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. É impossível."

Segundo Lennon, o médico o reconheceu dizendo ter "100% de certeza". "Quem no mundo tem 100% de certeza de algo?", indaga o rapaz, que já trabalhou como caixa de supermercado, porteiro, e fez bicos em eventos e estava desempregado.

Há indícios de que o reconhecimento foi irregular: "Fomos mostrados para a vítima dentro da viatura, no estacionamento da delegacia. Ele nos viu pelo espelho do carro".

O código de processo penal determina que a vítima não pode ter contato com o preso e deve ter estar em uma sala, desacompanhado dos condutores da ocorrência (policiais que fazem a comunicação do flagrante). Cada preso deve ser colocado ao lado de pessoas parecidas e a vítima deve vê-los através de um vidro. Segundo Lennon, os PMs pressionavam o médico e ficaram ao lado dele todo tempo.

Lennon foi libertado, mas ainda não foi julgado. O processo continua e o rapaz terá que cumprir algumas condições. Não poderá, por exemplo, sair de casa entre 21h e 7h. Amanhã ele tem que comparecer ao Fórum da Barra Funda para se apresentar à Justiça.

Segundo a SAP (Secretariia de Administração Penitenciária), os funcionários das prisões tem até 24h após o recebimento do alvará para libertar os presos.

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