PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Justiça manda soltar irmãos que eram abordados por PM na hora do crime

Arthur Stabile e Marcelo Oliveira

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

12/02/2021 19h34

Depois de Lennon Seixas Vieira da Silva, 27 anos, hoje foi a vez de a Justiça de São Paulo mandar soltar Bruno Souza dos Prazeres, 27, e Rodrigo Souza dos Pazeres, 31. O trio havia sido preso e acusado de cometer um sequestro relâmpago. Contudo, dois deles estavam sendo abordados pela polícia na hora do crime.

Bruno é quem aparece ao lado de Lennon em imagens de câmera de segurança sendo abordado pela polícia militar. A juíza Maria Fernanda Belli, da 1ª Vara Criminal, considerou vídeos apresentados pela família de Lennon como prova para mandar soltá-lo. A liberdade foi pedida pela Defensoria Pública de São Paulo.

Nesta sexta-feira (12), Belli analisou a situação dos irmãos Bruno e Rodrigo. Para ela, suas condições são as mesmas de Lennon, por isso determinou a soltura dos dois. Em sua decisão, destacou o fato de ambos serem réus "primários e de bons antecedentes".

Lennon permaneceu 40 dias atrás das grades, com liberdade concedida na quinta-feira (11). Agora foi a vez dos outros irmãos também ganharem na Justiça o direito de responder o processo em liberdade.

Contudo, os dois não foram soltos ainda pelo fato de a decisão ter sido tomada às 18h13. Assim, impossibilitou-se a comunicação no mesmo dia com a unidade em que eles estão presos e a libertação. A expectativa é de que isso ocorra no fim de semana ou, então, apenas na segunda-feira (15).

'Preso sendo inocente'

Lennon chora abraçado ao lado do pai e da mãe, observado pelas irmãs, logo após ser libertado - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Lennon chora abraçado ao lado do pai e da mãe, observado pelas irmãs, logo após ser libertado
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Ao sair da prisão, Lennon declarou que não sabia explicar a sensação daquele momento ao "sair da cadeia após ter sido preso sendo inocente. "Muitos jovens lá dentro estão passando por isso que passei", disse, acrescentando que só responde pelo crime por ser preto.

Lennon completou 28 anos dentro do CDP (Centro de Detenção Provisória) 1 de Osasco ao lado de 25 pessoas, as quais viviam na mesma cela em que ele estava. Antes disso, ele passou pelo CDP do Belém, na zona leste da capital paulista, ficando preso em um local com 36 pessoas.

A saída virou festa e comemoração que ele não teve no dia 28 de janeiro, seu aniversário. Depois de receber abraços e o carinho de seus familiares, o jovem ganhou seu lanche preferido — e o devorou na hora.

Ainda na porta do CDP, antes de Lennon sair, os familiares fizeram uma oração. Agradeceram a decisão pela liberdade do rapaz e, ao mesmo tempo, pediram para que Bruno e Rodrigo também fossem livres. Por meio de pedido da Defensoria Pública, a prece surtiu efeito.

Relembre o caso

Nas imagens, PMs revistam Bruno e Lennon em abordagem entre 22h57 e 23h15. Este é o mesmo horário em que o médico, vítima do sequestro, denunciou a ocorrência em Itapecerica da Serra, cidade na Grande São Paulo.

O homem declarou à Polícia Civil ter ficado sob poder dos criminosos entre 20h e 23h. Justamente às 23h, conforme consta em Boletim de Ocorrência, a polícia encontrou o veículo a 600 metros de onde Lennon e Bruno eram abordados.

Na delegacia, o médico deu a descrição dos três: o primeiro seria um homem de 20 anos, com bigode; o segundo seria um rapaz de aparentemente 17 anos, de 1,90 metro de altura; e o terceiro é descrito como "20 anos de idade (Tiago)", usava roupas pretas e uma máscara branca.

Nenhum dos três presos, que têm entre 27 e 31 anos, possui bigode e todos medem entre 1,60 m e 1,70 m. As roupas usadas por eles no dia também não batem com a descrita pela vítima. A única semelhança com os sequestradores é a cor da pele.

Com nenhum dos três presos foi encontrado dinheiro ou os objetos roubados do médico.

Júnior César Vieira da Silva, 52 anos, pai de Lennon, vê racismo na prisão de seu filho e dos dois irmãos. "Pegaram dois negros, fotografaram e soltaram. Depois voltaram, prenderam o Lennon e o Bruno e pegaram o terceiro negro, pois a vítima disse que eram três", afirma.

Para ele, a existência do racismo no Brasil é claro, mas impacta quando afeta diretamente alguém próximo.

A gente sabe que tem racismo, mas, quando é na nossa casa, é como se fosse um meteoro caindo em nossa sala."
Júnior César Vieira da Silva, que fez campanha pela soltura do filho Lennon

Cotidiano