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Sumiço de 3 meninos: demora em busca e falta de estrutura prejudicaram caso

Fernando Henrique, 11, Lucas Matheus, 8, e Alexandre da Silva, 10, desapareceram dia 27 de dezembro em Belford Roxo (RJ) - Arquivo Pessoal
Fernando Henrique, 11, Lucas Matheus, 8, e Alexandre da Silva, 10, desapareceram dia 27 de dezembro em Belford Roxo (RJ) Imagem: Arquivo Pessoal

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

27/02/2021 00h00

O desaparecimento de três meninos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, completou dois meses hoje. Sem pistas ou vestígios do paradeiro das crianças, o crime parece estar ainda longe de ser solucionado. Entidades que acompanham o caso e pesquisadores na área de segurança pública ouvidos pelo UOL apontam falhas do estado.

Entre elas, o atraso no registro da ocorrência, feito apenas um dia após o sumiço por recomendação dos policiais plantonistas em uma delegacia distrital. A falta de estrutura da Polícia Civil, o baixo investimento em investigação e o domínio do poder paralelo imposto pelo crime organizado em uma área onde há pouca presença do estado também são citados como fatores determinantes para mais um crime sem solução no país.

Pesquisador da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani acredita que houve descaso em decorrência do que entende ser um racismo estrutural na própria polícia quando as famílias foram à delegacia para registrar o caso —e acabaram sendo orientadas a retornar no dia seguinte.

A Polícia Civil não deu o cuidado merecido ao caso nos primeiros momentos, quando é possível levantar mais provas e evidências. Se fossem três jovens brancos de olhos azuis do Leblon, o cuidado e o tratamento seriam diferentes desde o começo. Mas, como são negros e da Baixada Fluminense, há um descaso"
Rafael Alcadipani, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Após procurarem pelas crianças ao longo do dia, as mães de Fernando Henrique, 11, Lucas Matheus, de 8 anos, e Alexandre da Silva, 10, foram à delegacia pela primeira vez por volta das 21h de 27 de dezembro, um domingo de plantão na unidade policial.

Lá, foram orientadas a retornar no dia seguinte, caso os meninos não voltassem para casa. Só registraram ocorrência na manhã do dia 28, 24 horas após o desaparecimento. Foi quando teve início a investigação conduzida pela DHBF (Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense).

Defensoria recomenda orientação nas delegacias

O núcleo de defesa dos direitos humanos da Defensoria Pública contesta a abordagem dos agentes às mães na delegacia, citando a lei 13.812, que recomenda o registro imediato da ocorrência.

O órgão diz que encaminhou à Polícia Civil uma recomendação para fixação de cartaz nas delegacias do estado do Rio, com informações sobre a determinação.

Como três crianças desaparecem assim, sem deixar rastros? No mesmo dia, as famílias foram à delegacia. As buscas deveriam ter sido feitas imediatamente. Quanto mais rápido iniciarem, maior a chance de localização dos desaparecidos. Só que os próprios policiais nas delegacias desconhecem essa lei"
Gislaine Kepe, defensora pública

A assistente social Paula Moreira, que integra a Superintendência Estadual de Prevenção e Enfrentamento das Pessoas Desaparecidas, órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos responsável pelo monitoramento do caso dos meninos desaparecidos, relaciona o atraso no registro ao que entende ser um problema cultural na Polícia Civil do Rio.

"As delegacias costumam dar essa orientação, para que os parentes aguardem 24 horas para registrar. Mas a população não tem que esperar, para que não se perca tempo. Os órgãos precisam ser acionados imediatamente, para que haja mais chance de localização das vítimas", disse.

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil afirmou ao UOL ainda não ter recebido o material que a Defensoria afirma ter encaminado. “A Polícia Civil já iniciou o projeto de confecção de cartazes para afixar nas delegacias muito antes e qualquer recomendação de terceiros”, disse, por meio de nota.

Baixo investimento em investigação

Especialistas ouvidos pelo UOL também criticam o baixo investimento em áreas de inteligência — R$ 750 milhões em 2019, segundo levantamento feito pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Já no policiamento ostensivo foram investidos cerca de R$ 31 bilhões.

"Como o foco tem sido para o policiamento ostensivo, há um sucateamento expressivo das polícias civis em todo o país. Com isso, a investigação acaba sendo deixada de lado", afirma Rafael Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Segundo ele, o caso dos meninos desaparecidos na Baixada é agravado por ter ocorrido em uma área dominada pelo crime organizado.

"As periferias do Brasil são pouco policiadas e há pouca presença do estado. Na Baixada Fluminense, a situação se agrava pela ligação forte com as milícias. O que se vê nessas regiões é a falta de equipamentos de polícia e do estado nessas áreas. Aí, acaba gerando uma situação como essa do desaparecimento dos meninos", avalia.

Apesar do cenário pouco favorável, ele acredita no avanço das investigações. "É impossível que três crianças desapareçam sem ninguém saber. Alguém sabe o que aconteceu e a investigação tem que desvendar isso".

Mas nem sempre casos do tipo costumam ser esclarecidos no país. O estudo "Onde Mora a Impunidade", da ONG Sou da Paz, apontou que apenas 11% dos homicídios ocorridos em 2017 foram esclarecidos até o fim do ano seguinte no estado do Rio de Janeiro.

O índice é muito baixo. E as chances de esclarecer o caso diminuem quando não há corpo das vítimas, como é o caso desses meninos desaparecidos na Baixada"
Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz

O que se sabe sobre o caso

Os três meninos desapareceram depois de saírem para brincar em um campo de futebol perto de casa no bairro Castelar, em Belford Roxo.

Um vizinho, que chegou a ser torturado pelo tráfico local, foi levado à delegacia no mês passado. Mas a sua participação no crime foi descartada pela polícia. Roupas encontradas na casa dele com vestígios de sangue foram submetidas a um exame de DNA, que não constatou material genético dos meninos.

A Polícia Civil afirma ter analisado mais de 40 câmeras, mas diz que não encontrou indícios do deslocamento das crianças.

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