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1 mês

'Não conseguia mexer de dor', diz irmã de vítima da 'doença da urina preta'

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Recife

03/03/2021 13h56

A irmã da médica veterinária Priscyla Andrade, de 31 anos, que morreu depois de comer um peixe contaminado com toxina biológica que causa a síndrome de Haff, mais conhecida como "doença da urina preta", contou que ela não conseguia se mexer e sentia muitas dores no corpo pouco tempo depois de ter almoçado, na ocasião em que ficou doente.

A empresária Flávia Andrade, de 36 anos, que também ingeriu o peixe da espécie arabaiana e chegou a ser internada, relatou em um vídeo no Instagram que a irmã sentia muita dor a ponto de não aguentar que tocassem no corpo dela durante o socorro para o hospital. O peixe foi comprado no bairro do Pina, na zona sul de Recife.

Priscyla morreu ontem, depois de 12 dias internada em um leito de UTI no Real Hospital Português. Segundo a família, ela ficou com os rins, fígado e pulmão comprometidos, além de apresentar problemas na musculatura. O corpo da médica veterinária ainda não foi liberado para velório e enterro, pois, segundo a família, o hospital está realizando "exames de protocolo''. A família aguarda a liberação do corpo para definir o local e horário.

"Quando a gente foi socorrer Pryscila, ela estava com fortes dores, não conseguia se mexer de tanta dor. Ela ficou paralisada porque não conseguia nem que tocasse nela. Eu também comecei a apresentar os sintomas, fiquei da nuca para o quadril paralisada com muita dor, eu não conseguia mais andar. Eu pensei que fosse um estresse devido à situação, por estar vendo minha irmã naquela situação", contou Flávia.

Flávia foi internada no dia 20 de fevereiro, quando foi visitar Priscyla na UTI e conversou com um médico. Ela se submeteu a exames e descobriu que estava com taxas no sangue alteradas. Flávia ficou quatro dias internada em um leito clínico. Ela afirmou que o diagnóstico de síndrome de Haff veio por acaso, pois o médico teria citado um caso parecido em outro paciente.

A empresária Betânia Andrade, mãe de Flávia e Priscyla, também relatou que o diagnóstico para síndrome de Haff foi fechado no dia 20, após o relato de Flávia sobre o consumo do peixe arabaiana à equipe médica do Real Hospital Português.

"Eu disse: doutor, a gente comeu esse peixe e todo mundo está passando mal. Meu apelo é que tenha mais estudos dessa doença, pois o diagnóstico dela foi por acaso porque fui conversar com o médico e ele citou o caso de um paciente dele, que tenha mais investigação sobre esse peixe porque não tem como saber se ele está contaminado, que tenha mais estudos sobre a síndrome de Haff", destacou a empresária.

Flávia disse que comprou o peixe arabaiana, também conhecido como olho de boi, de uma pessoa que vende pescados no bairro do Pina, na zona sul, que era cliente havia muitos anos e nunca tinha tido problemas com os produtos adquiridos neste local. Ela contou que usou o peixe duas vezes em casa. A primeira vez no dia 12 de fevereiro, quando ela e as duas empregadas consumiram o alimento, e na segunda vez quando, além das três pessoas, o filho e a irmã Priscyla almoçaram na casa dela.

"No primeiro consumo, me senti mal, as empregadas também se sentiram mal, mas a gente confundiu com dor de coluna, dor de estômago, dor abdominal. No segundo consumo, além de mim, e das secretárias, meu filho e minha irmã Priscyla consumiram o peixe. Meu filho teve diarreia e as secretárias ficaram com dor nas costas. Eu senti dores no corpo, enjoo, diarreia, e minha irmã ficou com muita dor e falta de ar. Ela ficou com o fígado, os rins e o pulmão com problemas", relatou Flávia.

A doença da urina preta

A doença de Haff é rara e é ocasionada pela presença de toxina biológica de algas que são ingeridas por peixes. A substância ataca a musculatura e os rins, deixando a urina escura, segundo o médico infectologista e professor da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), Fernando Maia.

O biólogo e professor dos cursos de biologia e engenharia de pesca da UFAL, Cláudio Sampaio, explicou que não é possível reconhecer se o peixe está contaminado e destaca que a toxina não está presente apenas na espécie arabaiana. Ele disse que a toxina de algas vai se acumulando ao longo da cadeia alimentar de espécies aquáticas.

Mais casos

A SES (Secretaria Estadual de Saúde) informou, por meio de nota, que entre os anos de 2017 e 2021 foram registrados 15 possíveis casos de síndrome de Haff em Pernambuco, sendo dez confirmados por critério clínico epidemiológico (quatro em 2017 e seis em 2020), além dos cinco relatados em fevereiro de 2021, que estão em investigação. Apesar da morte de Pryscila, a SES afirmou que "não há mortes confirmadas pela doença nesse período."

"A pasta estadual, por meio da Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária, destaca que, no momento, não há nenhuma restrição voltada para o consumo de peixes e crustáceos em território pernambucano", informou o texto.

A SES orienta que em caso de sintomas sugestivos para síndrome de Haff, a vítima deve procurar atendimento no serviço de saúde mais próximo de sua residência, relatar a sintomatologia e o histórico de consumo de pescados. "A investigação epidemiológica de cada caso é feita pelas secretarias de Saúde municipais, com apoio da SES-PE".

O UOL questionou à Sesau (Secretaria de Saúde do Recife) como está a investigação da contaminação e se o local que vendeu o peixe contaminado foi vistoriado e interditado, mas a pasta se ateve a informar que "casos estão sendo investigados pelas Secretarias de Saúde do Recife e de Pernambuco."

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