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Com restrições, motoristas de app narram alta da violência na noite de SP

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Imagem: iStock

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

20/03/2021 04h00

Eram 2h quando o motorista Daniel*, 27, decidiu pegar o último passageiro na Vila Campo Grande, zona sul de São Paulo, em um dia útil na semana passada. Ao chegar ao destino, um homem o esperava na esquina. Ele desacelerou e, quando ia parar, viu que mais dois surgiam do outro lado da rua, correndo em direção ao carro.

"Foi por pouco", conta o motorista, que diz não ter aguardado para "ver se tinham arma ou não". Cenas como esta têm sido cada vez vivenciadas por motoristas de aplicativo na capital paulista.

Com as restrições pela pandemia e os efeitos da crise econômica, as ruas ficaram mais vazias e os profissionais têm presenciado ou ouvido de colegas mais relatos de violência.

"Não é em qualquer lugar que eu paro", conta Rafael*, 36, que costuma rodar pela zona norte.

No meu bairro, na minha rua, eu conheço. Mas tem lugar que prefiro recusar e ficar mal com o aplicativo do que arriscar.
Rafael*, motorista de aplicativo

Ele conta que, durante o Carnaval, com pouquíssimo movimento na noite da capital, foi abordado em duas esquinas diferentes, em Santana e no centro, por "homens suspeitos". "Naquele breu, você nunca sabe. Tenho ouvido de muitos colegas que tiveram uma arma na cabeça", diz.

Todo o estado de São Paulo foi para a fase vermelha do Plano SP no dia 6. Desde a última segunda (15), está na fase emergencial, a mais restritiva até agora. Nos dois casos, os serviços não essenciais estão fechados e há um desestímulo para a circulação de pessoas no período noturno.

Segundo os motoristas ouvidos pela reportagem, com as ruas vazias, as histórias de violência têm aumentado nos grupos de WhatsApp. Os principais relatos são de abordagem violenta em semáforos, emboscada em áreas desconhecidas e tentativa de roubo por meio de golpe.

"Está que vai pegar uma passageira, mas, quando chega lá, é um cidadão. Diz que a namorada pediu, está sem bateria etc. Eu não pego. Como os aplicativos têm o CPF cadastrado, muitos usam o dos outros [para cometer crimes] e depois o dono da conta diz que o celular foi roubado", diz Edmilson*, 35, que passou a rodar no período da tarde.

"Sem auxílio piorou"

Outro ponto levantado pelos motoristas foi o fim do auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal. Eles dizem que as pessoas passaram a pedir a corrida mais "no dinheiro" e muitas vezes não têm o valor completo. Outras recorrem a outros meios.

Onde eu moro, muita gente perdeu o emprego. O auxílio deu um fôlego no fim do ano passado. Agora, sem ele, o que vão fazer? As pessoas têm que se alimentar, têm que ganhar a vida de algum jeito. Eu não julgo, mas fico esperto.
Thiago*, motorista de aplicativo e morador na zona sul

"Você percebe que o número de pessoas pedindo dinheiro aumentou, isso está a olhos vistos. De dia. À noite, aumentaram os assaltos", concorda Rafael.

Estratégias para evitar roubos

Para evitar roubos, cada um tem adotado uma tática. Alguns, como Edmilson, trocaram a noite pelo dia ("mais trânsito, mas mais seguro"), enquanto outros dizem só abrir a porta depois que o passageiro confirma nome e mostra o rosto.

Também há os locais que eles chamam de "áreas de risco", onde a Uber proíbe a chamada no local e a 99 avisa com uma tarja vermelha. Elas são definidas de acordo com as estatísticas fornecidas pela SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), dizem as empresas.

"Você não pode pedir ali, mas pode levar até lá. Hoje, eu não levo mais. Peço desculpas ao passageiro, sei que não tem culpa, mas também não tenho. Não está em tempo de vacilo", diz Daniel.

Aplicativos investem em segurança

Ao UOL, os dois principais aplicativos do gênero no país disseram estar investindo cada vez mais em segurança para evitar ocorrências como estas.

No ano passado, a 99 adotou um monitoramento em tempo real por GPS que identifica comportamentos anormais durante viagens por meio de inteligência artificial. O investimento foi de R$ 35 milhões.

"Em situações de risco —como paradas muito longas ou tempo de viagem acima do normal—, alertas são enviados à central de segurança da empresa, que verifica o que está acontecendo e pode até acionar diretamente a polícia", diz a empresa, que conta ter reduzido "ocorrências graves" em 29% no Brasil e 13,85% em São Paulo no ano passado.

Já a Uber introduziu um novo modelo de checagem, com RG ou carteira de motorista, para os passageiros que optarem em pagar no dinheiro, além dos já necessários CPF e data de nascimento.

Em fevereiro, a empresa começou também a testar um recurso de gravação de vídeo com a câmera do celular do motorista.

"O usuário é avisado previamente que a viagem poderá ser gravada e tem a opção de cancelar sem cobrança caso se sinta desconfortável com isso. A gravação fica criptografada e só pode ser acessada pela Uber ou por autoridades policiais em investigações formais", explicou a companhia, que também usa inteligência artificial para identificar "viagens potencialmente arriscadas".

Assaltos caíram e policiamento aumentou, diz governo

A SSP diz também estar aumentando o policiamento nas cidades durante o período noturno e que, em janeiro, roubos de veículos caíram 24% e os furtos de veículos diminuíram 22,6% no estado em relação ao mês anterior.

"As ações de policiamento e fiscalização foram intensificadas com um número maior de policiais nas ruas em todo o estado para proteger a população, além de alertá-la para o risco de contágio do coronavírus", disse a secretaria.

* Os sobrenomes foram suprimidos para evitar a identificação dos motoristas.

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