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Pedido de busca por desaparecidos sobe 60% no 1º trimestre na cidade de SP

Joseval Andrade Brito Junior, 25 anos, desaparecido em São Paulo - Arquivo pessoal
Joseval Andrade Brito Junior, 25 anos, desaparecido em São Paulo Imagem: Arquivo pessoal

Victoria Bechara

Colaboração para o UOL, em São Paulo

14/04/2021 04h00Atualizada em 14/04/2021 13h47

Resumo da notícia

  • Capital paulista teve 968 pedidos de localização de pessoas nos três primeiros meses deste ano
  • No mesmo período de 2020 foram 604; no ano anterior foram 461, de janeiro a março
  • Prefeitura atribui aumento a campanha feita em parceria com o Metrô, e não ao agravamento da pandemia
  • Pedidos de localização relacionados a internações por covid diminuíram neste ano, segundo secretaria municipal

O número de pedidos de busca por pessoas desaparecidas na cidade de São Paulo aumentou 60,2% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2020.

De acordo com dados da Divisão de Localização Familiar e Desaparecidos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, nos três primeiros meses deste ano foram registrados 968 pedidos de localização de pessoas na capital paulista — foram 604 no mesmo intervalo no ano passado e 461 em 2019.

Em todo o ano 2020, o número de pedidos de busca já havia crescido na capital paulista. Foram 3.753 registros no total — alta de 36,2% em relação ao ano anterior.

No ano passado, acontecia muito de a pessoa estar com covid-19 e o familiar não saber, tanto aqui na capital quanto em municípios próximos. Então tinha que procurar os familiares dessas pessoas. Algumas estavam inconscientes, intubadas"
Darko Hunter, diretor técnico da divisão de desaparecidos da secretaria

Segundo Darko, que o aumento dos pedidos de localização não significa, necessariamente, que o número de novos desaparecimentos cresceu. "O número de desaparecidos continua na mesma média. No município de São Paulo são 20 casos por dia e no estado 50, em média", diz.

Além da busca por desaparecidos, a divisão trabalha com outras duas frentes: a localização de famílias de pessoas hospitalizadas ou em situação de rua e a busca por familiares em caso de óbito — serviços impactados pela pandemia de covid-19.

Ele afirma ainda que as buscas por perda de contato também cresceram. "Com as notícias sobre mortes e internações durante a pandemia, muitas pessoas de outros estados entravam em contato querendo localizar seus familiares de São Paulo", diz.

Ação no metrô

Apesar do colapso na saúde, segundo Darko, os pedidos de localização relacionados a internações diminuíram neste ano. No entanto, ainda aparecem cerca de 4 ou 5 casos por mês para busca de familiares de pacientes com coronavírus.

O diretor técnico atribui o aumento de registros em 2021, principalmente, a uma campanha feita em parceria com o Metrô de São Paulo. Desde fevereiro, imagens de pessoas desaparecidas estão sendo veiculadas nas TVs dos vagões nas linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha, junto com informações de contato da Divisão de Localização. Neste mês, a ação também foi expandida para as linhas 4-Amarela e 5-Lilás.

"Várias famílias não tinham conhecimento do nosso trabalho e passaram a entrar em contato. Além dos casos recentes, estamos recebendo casos antigos, de 2016, de 2018", diz Darko, que já ajudou a encontrar 221 pessoas neste ano.

Entre as 968 pessoas que procuraram o serviço municipal de localização no primeiro trimestre está Laura Santos Silva. Ela mora em Manaus, no Amazonas, e pediu ajuda na busca pelo filho, Joseval Andrade Brito Junior, de 25 anos. O último contato que teve com ele foi no dia 1º de dezembro de 2020, quando Joseval ligou e disse que saiu de Mato Grosso, onde morava, e estava trabalhando em São Paulo.

"O que eu posso fazer pelo meu filho? Eu estou desempregada, não posso sair daqui correndo e ir para São Paulo procurar sem dinheiro, sem nada", diz Laura. "Ele sempre foi 'correria', corria atrás das coisas. Ele gosta muito de viajar, conhecer o lugar, ir atrás de trabalho. Ele não é preguiçoso. É muita coisa que passa na minha cabeça. Eu quero uma resposta, porque eu não sei o que aconteceu", disse.

A foto de Joseval começará a ser veiculada no Metrô na próxima semana. Para Ariel de Castro Alves, advogado e especialista em Direitos Humanos pela PUC-SP, a iniciativa de divulgação tem resultado, mas não pode ser uma experiência isolada e eventual.

"Apesar de termos distanciamento social, o movimento no Metrô continua. Isso gera impacto para o município, mas não tanto para o estado", afirma. "É uma iniciativa que tinha que se expandir para terminais rodoviários do país todo, nos ônibus municipais e intermunicipais, nos de viagem, nos aeroportos. Já vi divulgações em aeroportos, mas não tenho visto mais. Tem que ser um trabalho constante", completa.

Alves diz ainda que a pandemia de covid-19 dificultou mais a procura por pessoas desaparecidas, que acabam recorrendo ao serviço municipal de localização.

"As famílias costumam fazer peregrinações para procurar seus entes desaparecidos, até pela falta de um sistema unificado, de bancos de dados, de cadastro, de sites. Então elas acabam, em geral, indo a hospitais, delegacias, IMLs, albergues, abrigos. E nesse período é mais difícil, muitas mães têm comorbidades ou são do grupo de risco."

Como registrar um desaparecimento?

Segundo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos, não é preciso esperar 24h para registrar um desaparecimento. Deve ser registrado Boletim de Ocorrência na delegacia ou pelo site da Polícia Civil.

Depois disso, o declarante pode preencher o formulário disponível no site da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. A Divisão de Localização também atende pelo whatsapp (11) 97549 - 9770 ou email desaparecidos@prefeitura.sp.gov.br.

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