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Sem conseguir atendimento, homem fica 5 meses com pedaço de vidro no pé

Sem conseguir atendimento, homem fica 5 meses com caco de vidro no pé - Arquivo pessoal
Sem conseguir atendimento, homem fica 5 meses com caco de vidro no pé Imagem: Arquivo pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL

03/08/2021 21h07

O ajudante geral Marcos Roberto da Silva, 46 anos, sofreu um acidente doméstico em fevereiro deste ano, quando um caco de vidro ficou enterrado em seu calcanhar direito. Apesar de ter procurado diversas vezes atendimento médico, o estilhaço não foi retirado e ele teve que conviver cinco meses com fortes dores no pé e uma ferida aberta, que não cicatrizava.

Marcos mora com a esposa, Ana Ayres Silva, 52, no bairro do Embaré, em Santos, litoral de São Paulo. No dia 24 de fevereiro, ele estava instalando uma prateleira na cozinha do apartamento quando se desequilibrou sobre o banquinho em que havia subido, derrubando um copo de vidro, que se estilhaçou sobre o piso. Marcos tombou para trás e, ao firmar o pé direito no chão, acabou pisando com força sobre um dos cacos. O vidro acabou penetrando profundamente no calcanhar direito.

No mesmo dia, Marcos, com a ajuda da esposa, procurou a UPA da Zona Leste, onde passou por uma consulta. O plantonista teria apenas "olhado" para o ferimento e o encaminhado para a enfermaria, onde levaria alguns pontos. Após o procedimento, recebeu uma receita com indicação de remédios e foi dispensado.

Os dias foram passando e o casal percebeu que havia algo errado. Os pontos se abriram e, da ferida profunda, brotava um líquido incolor. Ele voltou à unidade e um plantonista lhe garantiu que aquilo era "normal". Foi medicado e voltou para casa, mais uma vez sem ter o corpo estranho removido.

Em 14 de julho, sentindo uma dor mais intensa, retornou à UPA e conseguiu obter a primeira radiografia. A médica de plantão teria dito que se tratava de um "osso calcificado" e que ele podia ir para casa, porque estava tudo "normal". Duas semanas depois, no dia 30, o paciente diz ter sentido dor insuportável e voltou à unidade de saúde. Somente então, com uma nova radiografia, o pedaço de vidro foi verificado.

"A UPA não tem sala de cirurgia. Quando eu ouvi ele mandar limpar a sala de curativos para fazer o procedimento, eu gelei", conta Ana. "Ele tentou retirar o caco, mas o pedaço começou a se quebrar. Ele chamou outras duas médicas, mas disseram que havia risco de cortar alguma veia e causar hemorragia".

Sem ajuda

Casal pé caco de vidro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Casal peregrinou por unidades de saúde várias vezes ao longo de 160 dias, enquanto Marcos Roberto teve que lidar com a dor
Imagem: Arquivo pessoal

Com a incisão ainda aberta e sangrando, Marcos foi aconselhado a voltar para casa e retornar na manhã seguinte. No sábado, 31, após mais de 12 horas aguardando na recepção, a UPA conseguiu uma vaga para ele na Santa Casa de Santos, para onde foi levado de ambulância. Mas, ao chegar lá, o atendimento foi recusado.

"A médica que me recebeu nos tratou muito mal e disse que eu não podia ficar lá, pois o caso dele não demandava internação. Foi humilhante", se queixou Marcos.

De volta à UPA da Zona Leste, outro médico avaliou a situação e tentou uma nova internação na Santa Casa, o que mais uma vez foi negado. Ana conta que fez um verdadeiro "escarcéu" na unidade e chegou a chamar a polícia. "Foi quando ofereceram a possibilidade de atendimento no Ambulatório de Especialidades (Ambesp) do Macuco".

Hoje, Marcos compareceu à unidade indicada, conseguiu ser atendido e finalmente marcou uma pequena cirurgia para amanhã, às 10h30, para a retirada do caco de vidro. Cinco meses e 7 dias depois do primeiro atendimento na rede pública. "O nome disso é negligência. Tive que aprender a conviver com a dor esses meses todos", disse o ajudante geral.

Resposta

A Santa Casa de Santos informou, por meio de nota, que, após criteriosa avaliação clínica, foi constatado que o caso de Marcos não demandava internação, mas atendimento ambulatorial. "Sendo assim, o paciente foi redirecionado para a unidade de saúde de origem, para posterior atendimento ambulatorial".

Por meio de nota, a prefeitura de Santos informou que, em todas as passagens pela UPA do paciente citado, ele foi avaliado pelo médico plantonista, que definiu a conduta e tratamento de acordo com a avaliação clínica. E que todos os recursos necessários para o atendimento foram disponibilizados, como medicação e realização de exames.

"Vale destacar que trata-se de uma lesão superficial, sem sinais de infecção ou alteração na funcionalidade do membro. O paciente já possui consulta agendada para acompanhamento ambulatorial do caso e a unidade prestou todos os esclarecimentos necessários à família", conclui a prefeitura, na nota.

Já o relato de Marcos Roberto, sobre os diferentes diagnósticos e tratamentos que o mantiveram com o caso de vidro no pé, deve chegar a outras instâncias. "Me sinto um palhaço, pois eu pago impostos. É claro que, vou procurar os meus direitos. Isso não vai ficar assim, é humilhante", concluiu.

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