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Segurança pública

Ação do 'novo cangaço' em Araçatuba é a mais violenta em 2 anos em SP

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

30/08/2021 13h49Atualizada em 30/08/2021 15h54

O ataque orquestrado por um grupo de homens fortemente armados na madrugada de hoje em Araçatuba (SP), a 519 quilômetros da capital paulista, é apontado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública como o mais violento da tática que ficou conhecida como "novo cangaço" nos últimos dois anos no estado de São Paulo.

Criminosos armados com fuzis explodiram caixas eletrônicos, usaram reféns como escudos humanos na fuga, espalharam explosivos pelas ruas, incendiaram veículos para isolar a cidade e ainda usaram drones para monitorar uma ação que deixou ao menos três pessoas mortas e outras quatro feridas.

A ação de Araçatuba só foi menos violenta se comparada com a tentativa de roubos a caixas eletrônicos de 4 de abril de 2019 em Guararema, na região metropolitana de São Paulo, que teve 11 suspeitos mortos após troca de tiros com a polícia.

Mapa Araçatuba - São Paulo  - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Um levantamento com base em dados dos órgãos de segurança pública contabilizou mais de 30 ações do tipo desde o começo de 2018 no estado de São Paulo. Contudo, geralmente esses ataques são feitos em cidades de pequeno porte, com poucos policiais e durante a madrugada.

Após o ataque, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) e do Coe (Comando e Operações Especiais) se deslocaram da capital paulista até a cidade para apoiar buscas e recolhimento de explosivos.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, coronel Álvaro Batista Camilo, afirmou que a quadrilha se beneficiou se informação privilegiada para executar a ação. "É mais uma ação com informação privilegiada, e as investigações já estão andando para chegar aos autores", afirmou Camilo em coletiva de imprensa.

Ataque em Araçatuba

A ação em Araçatuba, município com 200 mil habitantes e com maior estrutura policial para reagir, surpreendeu os especialistas ouvidos pelo UOL. Eles entendem que houve aumento na ousadia e até no planejamento nesse tipo de ação, que inclui monitoramento de policiais locais, rotas de fuga bem definidas e escolha de criminosos especialistas em uso de explosivos e armas de grosso calibre.

Araçatuba foge do padrão, porque não repete o modelo de ataques a cidades do interior onde não há estrutura policial. Antes, eram ações que só levavam medo e pânico à população. Agora, levaram mortes"
Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Segundo ele, também surpreendeu o arsenal bélico dos criminosos envolvidos no ataque pelo uso de variados tipos de explosivos. "Isso revela que há uma mensagem que quis ser dada pelos criminosos. E a polícia precisa dizer que recado é esse", disse.

Uso de drones surpreendeu, diz especialista

Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em Administração Pública e especialista em Segurança, disse que a ação surpreendeu até as autoridades devido ao uso de recursos até então inexplorados nesse tipo de crime, como os drones que monitoraram o deslocamento pela cidade.

"Houve inovação com uso de explosivos e drones. O que parece é que os criminosos estão cada vez mais especializados e organizados. Estão aprimorando a forma de fazer esse tipo de ataque. São crimes cinematográficos, com uso de violência extrema. Infelizmente, o estado não consegue dar uma resposta à altura", analisou.

Segundo ele, esse tipo de crime costuma ser articulado com uma espécie de apoio terceirizado de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

O que é "novo cangaço"

O termo se refere aos criminosos que invadiam cidades do Nordeste no início do século 20 para assaltar bancos e carros fortes. À época, agia Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o cangaceiro mais famoso da história.

A tática costuma ser a mesma: criminosos com armas de grosso calibre e explosivos geram pânico à população e saem da cidade.

As ações do "novo cangaço" podem ter integrantes de facções criminosas, sobretudo do PCC. Mas normalmente não são financiadas pela organização criminosa, que pode alugar armamento e itens de logística.

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