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Da rasteira à suposição: versões da babá sobre relação de Henry e Jairinho

6.out.2021 - A babá de Henry, Thayná de Oliveira, em depoimento na 1ª audiência do caso - Reprodução/TV Globo
6.out.2021 - A babá de Henry, Thayná de Oliveira, em depoimento na 1ª audiência do caso Imagem: Reprodução/TV Globo

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

07/10/2021 14h18

A babá do menino Henry Borel, 4, morto em março, já deu três versões diferentes sobre a relação da criança com o padrasto, o ex-vereador Jairinho (sem partido), e a mãe Monique Medeiros. Preso desde 8 de abril, o casal responde por homicídio triplamente qualificado.

Na primeira audiência do caso, realizada ontem no 2º Tribunal do Júri do Rio, a babá Thainá de Oliveira afirmou que nunca viu Jairinho agredindo o menino.

Antes do depoimento, ela pediu que Monique deixasse a sala de audiência. Thainá disse então que toda a imagem que tinha sobre Jairinho pode ter sido fruto da imaginação dela e acusou Monique de manipulação.

Eu me senti usada pela Monique durante todo esse tempo. Ela vinha, contava, tentava me mostrar o monstro do Jairinho e eu ficava com todas as coisas ruins na cabeça. Era tudo suposição da minha cabeça. Eu nunca vi nenhum ato
Thainá de Oliveira, babá de Henry

No entanto, essa versão dada à Justiça é diferente do último relato que fez à Polícia Civil na fase de investigação. A babá prestou depoimento em duas ocasiões.

Henry relatou à babá agressões de Jairinho

Na última vez que falou à polícia, em abril, Thayná relatou que Monique tinha conhecimento de que o filho era agredido pelo padrasto e confirmou que mentiu no primeiro depoimento, pois estava com medo de falar a verdade "por ter visto o que Jairinho tinha feito contra com uma criança, ficou com receio que algo também pudesse acontecer com ela".

Foram mais de 12 horas de depoimento em que a babá afirmou lembrar de ao menos três episódios em que o menino teria sido agredido. De acordo Thayná, as supostas agressões aconteciam no quarto do casal. Henry era sempre chamado ao cômodo por Jairinho. Os dois ficavam de porta trancada.

Esse depoimento ocorreu depois que os investigadores recuperaram trocas de mensagens entre a babá e a mãe do menino.

Em uma conversa no WhatsApp, a funcionária narrou em tempo real um episódio ocorrido em fevereiro no apartamento do casal na Barra da Tijuca, zona oeste carioca, durante a ausência da mãe.

Segundo a babá, o menino e o padrasto ficaram trancados por algum tempo em um quarto com o som alto da TV. Depois que saiu do cômodo, a criança apontou para a funcionária marcas no corpo, contou que levou "uma banda" (rasteira) e chutes. Henry também reclamou de dores no joelho e na cabeça.

"Eu chamo e nenhum dois falam nada. Não respondem. Só escuto voz de desenho. Melhor você vir", disse Thainá em algumas das mensagens que a babá enviou para Monique naquele dia.

As mensagens haviam sido apagadas do celular de Monique, mas foram recuperadas pela polícia com auxílio de um software israelense.

[Henry] Me contou que [Jairinho] deu uma banda [rasteira], que chutou ele e que toda vez faz isso. Fala que não pode contar. Que [Henry] perturba a mãe dele, que tem obedecer ele [Jairinho]. Se não vai pegar ele
Thayná de Oliveira, em mensagem para Monique

De acordo ainda com outras mensagens obtidas pela Polícia Civil, dessa vez no celular da própria babá, ela relatou ao namorado, em outra ocasião, que preferia ouvir Henry chorando do que em silêncio.

Chorando sei que tá vivo pelo menos."

Em 12 de fevereiro, a babá contou ao pai dela que estava com o menino no carro do casal e comenta sobre reação da criança ao ver Jairinho. "O menino me agarrou demais, me enforcou, rasgou minha blusa quando viu o outro [Jairinho]."

Anteriormente, no primeiro depoimento, em 24 de março, Thayná havia dito que nunca tinha percebido nada de anormal no relacionamento do casal com o menino. Ela chegou a dizer que havia uma relação harmoniosa na família e não mencionou a troca de mensagens sobre as agressões contra o menino.

Questionada na segunda vez pela polícia, a babá alegou que Monique pediu que ela mentisse e afirmou que se sentiu intimidada. Ela relatou no total três episódios em que o menino teria sido agredido por Jairinho.

O que diz o promotor sobre a nova versão

"Ela [a babá] quis tornar a Monique [Medeiros, mãe da criança] o monstro dessa história. É nítido que o Jairo [padrasto] e sua família exercem influência sobre ela", disse o promotor Fábio Oliveira ao UOL.

A defesa de Thainá negou que ela tenha sido coagida ou agido em troca de supostos benefícios. O promotor afirma crer contudo que ela ganhou "algum tipo de benefício" para mudar novamente a versão.

A defesa de Jairinho disse que a declaração da promotoria é "mera suposição". Questionado sobre se a babá foi coagida, o advogado Braz Sant'anna afirmou: "Não acredito nesta hipótese. É evidente que esta versão da Thayná é desfavoravel a eles [MP-RJ e defesa de Monique]. Se fosse desfavoravel à defesa de Jairo, nós teríamos o mesmo discurso".