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Henry: Defesa vê machismo contra Monique no processo; MP nega

Retrato de Monique Medeiros no Instituto Penal Ismael Sirieiro - Zô Guimarães/UOL
Retrato de Monique Medeiros no Instituto Penal Ismael Sirieiro Imagem: Zô Guimarães/UOL

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

10/10/2021 04h00

A defesa de Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, vê machismo na tese do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) de que ela via "vantagem financeira" no namoro com Dr. Jairinho e que, por isso, supostamente acobertou as agressões contra o menino de 4 anos morto em 8 de março.

O MP-RJ defende também que o ex-vereador agrediu e matou por sadismo o enteado. Na primeira audiência do caso, na quarta-feira (6), as perguntas da promotoria a Leniel Borel, pai do menino, foram no sentido de expor como era a relação de Monique com dinheiro antes mesmo de conhecer Jairinho.

Ao UOL, o promotor Fábio Vieira, responsável pelo caso, rechaça a avaliação da defesa de Monique.

"Poderia ser um homem. A questão não é machismo ou feminismo, é comportamental. É para mostrar que ela tinha o comportamento de ver mais o lado dela e deixava o filho à margem de cuidados básicos por conta de status", defendeu Vieira.

Conversas obtidas pela Polícia Civil no celular de Monique mostram que a babá do garoto relatou a ela agressões de Jairinho contra Henry no mês anterior à morte da criança com mais de 20 lesões graves no corpo.

Já Thiago Minagé, advogado de Monique, sustenta que trazer à tona o comportamento financeiro de Monique não tem relevância para o caso e diz "não ter dúvidas" que esse tipo de condução é machista.

'Empoderamento' e relação abusiva

Uma tese da defesa de Monique que foi atacada durante a audiência foi a de que a mãe de Henry era coagida por Jairinho e que, por isso, silenciou diante das agressões. Da cadeia, Monique escreveu cartas dizendo que vivia um relacionamento abusivo com Jairinho.

As perguntas da promotoria tentaram mostrar que ela era uma mulher "empoderada" para afastar a ideia de relação abusiva.

"Não existe isso. Por ela ser uma mulher com curso superior e independente, não pode viver um relacionamento abusivo? Todas as mulheres estão sujeitas a isso", questiona Minagé.

Durante o depoimento de Leniel, que participa na condição de assistente da acusação, o promotor remontou a vida financeira do casal. O pai de Henry explicitou que ele era o "provedor" da casa e que o salário de Monique, à época em torno de R$ 4.000, era destinado a ela "fazer cabelos e unhas".

Minagé também vê machismo na colocação: "Ela trabalhava para se sustentar, não para fazer somente cabelos e unhas, isso não é relevante".

Para o promotor, Monique ser uma mulher "empoderada" não vai contra o fato de ela ter interesses financeiros.

"Ela é empoderada e dona de si e tem uma atitude de poder quando diz que vai 'ferrar', em outros termos, Jairo se ele não continuar arcando com a despesa. O argumento [da defesa de Monique] é até difícil de rebater, é uma coisa estapafúrdia."

Busca por conquistas após a separação

Em outro momento, o MP-RJ questionou como foi o processo de separação de Leniel e Monique.

Ele contou que, após vê-la trocando mensagem com um contato chamado "Amor" —que não era ele— chamou a então companheira para conversar. Ela, de acordo com Leniel, explicou que precisava de independência financeira e "conquistar coisas que não havia conquistado".

O promotor então perguntou: "Como você interpretou essa busca por independência financeira?" E Leniel respondeu : "Na época não entendi. Hoje sei que Monique foi se relacionar com Jairo e aí a gente sabe: [por] ganância, poder, querendo obter alguma vantagem financeira".

A declaração do pai de Henry se mostrou alinhada à tese da promotoria.

Para Minagé, colocar Monique "como traidora e manchá-la como mulher é irrelevante para o processo". Entretanto, o advogado diz esperar que essa estratégia também seja adotada com força pela defesa de Jairinho.

"Meu palpite é que agora também vão querer pintá-la como uma interesseira e atacá-la como pessoa. É só observar a reação da população, que já ataca a Monique mas poupa o Jairinho", diz o defensor de Monique.

Presos desde abril, Dr. Jairinho e Monique respondem criminalmente por homicídio triplamente qualificado. O casal rompeu em meio às investigações adotando cada um uma equipe de defesa.

Imagem de Jairinho é preservada

Durante as 14 de horas de audiência, Jairinho não foi visto pelo público. Já Monique esteve diante da plateia, composta por jornalistas, parentes e advogados, em todo o tempo.

A defesa de Jairinho pediu à Justiça que ele acompanhasse a sessão a partir do presídio Bangu 8, no Complexo de Gericinó, alegando questões de segurança. A defesa de Monique decidiu levá-la ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no centro da capital fluminense.

Sem Jairinho, as imagens da audiência expostas pela imprensa foram de Monique. De moletom branco, calça jeans e chinelos, todas as reações da professora, inclusive uma crise de choro, foram acompanhadas —e fotografadas— por todos.