PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Entregador é morto em ação da PM no RJ, e comunidade protesta: 'Tá errado!'

Protesto na Rua Presidente Pedreira, no bairro de Ingá, denuncia morte de Elias Oliveira - Reprodução/redes sociais
Protesto na Rua Presidente Pedreira, no bairro de Ingá, denuncia morte de Elias Oliveira Imagem: Reprodução/redes sociais

Daniele Dutra

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

24/11/2021 21h57

Um entregador foi morto, na tarde de hoje, durante uma ação policial na comunidade do Palácio, no Ingá, em Niterói (RJ). Elias Oliveira, de 24 anos, foi baleado no rosto e chegou a ser levado para ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

Pouco depois, dezenas de moradores desceram o morro e protestaram em frente ao Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL), para onde ele foi socorrido. Durante a investida, um segundo homem, ainda não identificado, também foi baleado e morreu no centro de saúde nesta noite.

Vizinhos contam que Elias estava chegando do trabalho, por volta das 14h, pouco depois da polícia entrar na comunidade: "Ele estava andando quando deu de cara com os PMs. Levou um tiro avisando que era morador. Uma senhora ainda chegou a gritar, dizendo que ele era morador, mas já tinham atirado nele", disse ao UOL uma vizinha, que preferiu não se identificar. O rapaz foi socorrido pelos policiais, enquanto o segundo baleado foi levado à unidade de saúde por vizinhos.

Em nota, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar disse que equipes do 12° BPM (Niterói) foram atacadas a tiros enquanto realizavam um patrulhamento em uma das vias que dão acesso ao Morro do Palácio, logo após abordar um suspeito — o que teria dado início a um confronto.

Em uma primeira versão do comunicado, a corporação se referiu a Elias dizendo que "após estabilizar a situação, um homem foi encontrado baleado e, com ele, foi recolhido uma pistola 9 mm. Ele foi socorrido ao Hospital Estadual Alberto Torres e não resistiu". À noite, a corporação atualizou o posicionamento, alegando ter socorrido a vítima e realizado a prisão de dois suspeitos, apreendendo, na ocasião, a arma antes mencionada e quantidade não informada de drogas. "A ocorrência foi encaminhada à 78ª DP", conclui a nota oficial encaminhada ao UOL.

Policiais do batalhão também foram deslocados para conter o protesto dos moradores nas proximidades da unidade de saúde. "Assassinos", repetiam os manifestantes, ao interditar a Rua Presidente Pedreira. Durante conversa com agentes de segurança, registrada em vídeo que circula nas redes sociais, uma moradora desabafou: "Fica matando morador? Não pode. Tá errado!".

A morte de Elias Oliveira acontece três dias após a chacina do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região próxima a Niterói, que deixou oito mortos em um mangue, o que não passou despercebido no protesto. "Mais um episódio de abuso no nosso território e nós não vamos deixar de denunciar", classificou a vereadora Walkíria Nictheroy (PCdoB), que acompanhou as manifestações.

Nas redes sociais, a vereadora acrescentou: "A PM vai dizer que era bandido, porque é assim que eles fazem: atiram primeiro, perguntam depois. Elias era entregador do Ifood e trabalhava no mototáxi do morro. Elias era um batalhador, assassinado pela política de extermínios institucionalizada no Rio de Janeiro".

Por volta das 21h, o segundo homem baleado, socorrido por vizinhos, também veio a óbito. Ele não teve a identidade revelada, mas é apontado como parte da rede de crimes no Ingá. A ocorrência ainda está em andamento.

Vítima - Facebook/reprodução - Facebook/reprodução
Elias Oliveira, de 24 anos, foi criado no Morro do Palácio e deixa uma filha pequena
Imagem: Facebook/reprodução

Família desfeita

Elias viveu no Morro do Palácio desde que nasceu. Ele era casado e pai de uma menina de um ano. "Ele não tinha envolvimento com o tráfico, com nada. Mais uma família ficou destruída", disse uma moradora da comunidade do Palácio, que pediu para não ser identificada, ao UOL.

Nas redes sociais, o irmão do jovem, Leonardo Lima, compartilhou um vídeo mostrando o local onde Elias foi morto e questionando o socorro do entregador.

"Olha aí, o sangue do meu irmão clamando por justiça. Arrastaram o corpo do meu irmão como se fosse bandido, delinquente. Eu quero saber até quando? Até quando vai acontecer isso? Agora ele tem uma filha para criar, quem vai sustentar? Olha o que esses desgraçados fizeram", lamentou.

Errata: o texto foi atualizado
O hospital para qual Elias foi levado foi o Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL), e não o Hospital Estadual Alberto Torres. O conteúdo foi corrigido.

Cotidiano