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Pai que matou filho em briga se entrega, mas é solto: 'legítima defesa'

Wilson pediu perdão pelo crime e disse que não tinha a intenção de assassinar o filho - Reprodução
Wilson pediu perdão pelo crime e disse que não tinha a intenção de assassinar o filho Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

24/11/2021 22h13Atualizada em 24/11/2021 22h13

Wilson Alves Motim, de 58 anos, que confessou ter matado o filho a facadas após uma briga em Serra (ES), se entregou na delegacia da cidade, horas depois de gravar um vídeo pedindo desculpas aos amigos e familiares pelo crime.

Apesar de o homem ter assumido a culpa pela morte, a Polícia Civil do estado considera que o ataque contra Weverson Corrêa, de 28 anos, foi motivado por legítima defesa e afirmou que irá recomendar que a Justiça encerre o processo sem indiciar o pai por homicídio. Até o momento, ele não foi preso.

Segundo o delegado Rodrigo Sandi Mori, a vítima e o suspeito sempre tiveram uma relação "amigável", mas no dia do crime, no sábado (20), os dois fizeram uso de bebida alcoólica, o que engatilhou um comportamento violento de Weverson, que jogou cerveja em um carro desconhecido e agrediu a mulher e o enteado, momentos antes de ser morto, como descreveu Wilson em sua primeira versão, gravada em vídeo aos parentes e à imprensa.

"Assim como o Weverson fazia em vários finais de semana, ele, juntamente à esposa e ao filho dela, foram até a residência do pai, no bairro Jardim Tropical, em Serra. No sábado (20), eles foram até a residência de um amigo de Wilson, onde passaram o dia consumindo cerveja e cachaça com limão e mel. Já no final da tarde, o Weverson começou a se alterar e fazer brincadeiras inadequadas nessa residência, fato que fez com que o seu pai chamasse a atenção dele e logo depois se retirasse do local", descreveu o delegado.

Logo depois, o filho também deixou a casa em que era realizada a confraternização, acompanhado da mulher e do enteado. A caminho da casa do pai, ao atravessar uma rua, o rapaz jogou um copo de cerveja em um carro que passava pelo local. Em resposta, os dois ocupantes do veículo desembarcaram e passaram a agredí-lo.

"Passado esse momento, já no interior da casa do Wilson, após uma discussão com a esposa, o Weverson pegou o celular da mão dela, jogou no chão, e no momento em que ele partia pra cima da esposa, o filho dela, de apenas 6 anos, entrou na frente para defender a mãe. Fato que fez com o que o Weverson desferisse uma cotovelada e um tapa na cabeça da criança e, posteriormente, um tapa no pescoço da esposa", detalhou Sandi Mori, em entrevista coletiva na tarde de hoje.

Foi nesse momento, segundo o delegado, que Wilson interveio e falou que "dentro da residência dele, o filho não iria agredir nem a mulher, nem o filho dela". Weverson então se virou para o pai, segurou o homem pelo pescoço e começou a desferir vários socos na cabeça e no rosto do familiar.

Após vários golpes, ele conseguiu se soltar e foi até a cozinha, "prevendo que, pela bebida alcoólica, o filho poderia continuar com as agressões". O pai pegou uma faca e foi em direção ao carro para se retirar do local, sendo seguido.

"Quando o Wilson já estava saindo da residência, Weverson se aproximou do veículo e começou a desferir vários socos no vidro, inclusive tentando abrir a porta para tirar o pai do veículo e continuar com as agressões. Foi nesse momento em que o pai desembarcou e desferiu 3 facadas no filho: uma na coxa esquerda, uma na parte lateral direita do tronco, próximo à axila, e a terceira, que foi a fatal, no peito da vítima", detalhou o policial.

Após Wilson constatar que o filho tinha caído, ele cessou as agressões e saiu do local. Primeiro, ele foi para a residência da esposa e, depois, decidiu viajar até o município de Governador Valadares (MG), a 329 km de Serra.

arma branca - Divulgação/Polícia Civil do Espírito Santo - Divulgação/Polícia Civil do Espírito Santo
Arma utilizada no crime foi recuperada pela polícia em diligência que contou com ajuda de Wilson
Imagem: Divulgação/Polícia Civil do Espírito Santo

No trajeto, ainda na BR-101, próximo à cidade capixaba, ele jogou a faca utilizada no crime na beira da estrada. A arma branca foi recuperada em uma diligência com a ajuda do próprio suspeito.

"Após ser intimado, Wilson compareceu à delegacia na data de ontem e prestou um depoimento por cerca de 2 horas e meia. Em seu depoimento, ele narra sua relação com o filho, que era amigável, e também a dinâmica do crime. É importante frisar que o depoimento dele está em perfeita consonância com os depoimentos das duas testemunhas presenciais, inclusive da esposa da vítima", afirmou Sandi Mori.

Ainda segundo o delegado, o pai se apresentou à polícia bastante machucado e debilitado e foi encaminhado para exames de lesão corporal. Ele frisou que as diligências e os depoimentos levaram os investigadores da DHPP (Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa) de Serra a entender o caso como legítima defesa.

"O porte físico do Weverson era bem maior que o do Wilson, tanto que ele nem teve qualquer chance de se defender, o único meio que ele teve naquele momento foi infelizmente utilizando a faca, tanto que, no depoimento dele, ele fala que no primeiro golpe que deu, se ele soubesse que teria acertado, ele teria cessado. Ele não sabe nem onde deu (as facadas)", argumentou.

"Diante desse contexto, e de todas as diligências que foram realizadas, nós entendemos que o Wilson agiu em legítima defesa. Primeiro, em relação à nora e ao filho dela e depois, em relação a ele. Nós temos que ser justos, coerentes e aplicar a lei ao caso concreto. Nenhum pai cria um filho para tirar a vida dele depois. A maior pena que ele já está pagando é conviver com o fato de ter tirado a vida do próprio filho. Mas nós vamos remeter o inquérito ao Ministério Público e eles também vão decidir, juntamente à Justiça, se é caso de legítima defesa".

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