PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Salgueiro: Polícia alega troca de tiros, mas faltam evidências de confronto

Armas e drogas apreendidas pela equipe Delta no Complexo do Salgueiro foram achadas em igreja  - Reprodução
Armas e drogas apreendidas pela equipe Delta no Complexo do Salgueiro foram achadas em igreja Imagem: Reprodução

Igor Mello

Do UOL, no Rio

27/11/2021 04h00

Documentos oficiais sobre a operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais) não permitem afirmar que houve de fato um confronto entre os policiais e suspeitos no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no último domingo (21).

"Não tem arma apreendida, a perícia foi feita e não achou nenhum tipo de marca de disparo por parte dos criminosos em parede ou lugar próximo, não tem nenhuma cena que indique confronto. As evidências até aqui indicam que não houve um confronto", diz Para Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

A falta de evidências de uma troca de tiros contrasta com o discurso das autoridades do Rio de Janeiro. A Polícia Militar e o Bope afirmaram que os policiais foram atacados por traficantes e reagiram "à injusta agressão". Já o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), ao descartar abuso policial antes mesmo das investigações serem concluídas, disse que 6 dos 9 mortos estavam usando roupas camufladas e "coisa boa não estavam fazendo".

"Não creio que sejam recorrentes as ações, mas apoiamos as polícias e não o erro. Mas ninguém vai camuflado pro mangue trocar tiro com a Polícia de airsoft, se as pessoas estavam camufladas no mangue. Certamente coisa boa não estavam fazendo"
Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, em 25 de novembro

Para Lima, é função das autoridades, e não das vítimas, provar que ocorreu um enfrentamento legítimo. "O ônus de provar que houve confronto é de quem puxou o gatilho, a polícia", afirma.

Como os policias não preservaram o local das mortes e acionaram imediatamente os peritos da Polícia Civil, não é possível descartar a possibilidade de que terceiros tenham retirado armas do local.

Questionadas pelo UOL sobre a existência de armas apreendidas no local onde os mortos foram encontrados por moradores, a PM e e Polícia Civil não se manifestaram.

Vítimas levaram 44 tiros

Os laudos cadavéricos mostram que 7 dos 9 mortos durante a operação foram atingidos na cabeça. Entre as vítimas, 6 foram atingidas por pelo menos cinco tiros, segundo os laudos de necropsia feitos pelo IML (Instituto Médico-Legal) e obtidos pelo UOL. Um dos homens foi baleado nove vezes.

Quem são os mortos

  • Kauã Brenner Gonçalves Miranda - 17 anos

Nove tiros: um no peitoral esquerdo; um no peitoral direito; três na parte de cima da coxa direita; um na parte interna da coxa direita; um na parte de fora do terço inferior da perna direita.

  • Rafael Menezes Alves - 28 anos

Seis tiros: um tiro no olho; três tiros no torso, sendo pelo menos um nas costas; tiro no braço direito.

  • Carlos Eduardo Curado de Almeida - 31 anos

Sete tiros: olho; têmpora esquerda; flanco direito; púbis (lado esquerdo); coxa direita e perna direita.

  • Jhonata Klando Pacheco Sodré - 28 anos

Cinco tiros: cabeça; parte direita das costas; Ilíaco direito; coxa direita; coxa esquerda.

  • Élio Da Silva Araújo - 52 anos

Três tiros: um na base do pescoço; um abaixo da escápula/omoplata esquerda; um abaixo da escápula/omoplata direita.

  • Douglas Vinícius Medeiros da Silva - 27 anos

Um tiro: face lateral esquerda do pescoço.

  • David Wilson Oliveira - 23 anos

Cinco tiros: região ocipital à direita; lábio superior; flanco direito; coxa esquerda e coxa direita.

  • Igor da Costa Coutinho - 24 anos

Dois tiros: Face destruída e tiro no braço esquerdo.

  • Ítalo George Barbosa de Souza Gouvêa Rossi - 33 anos

Seis tiros: base do crânio; tórax do lado esquerdo; tórax do lado direito; região lombar; punho esquerdo; punho direito.

Sem armas na cena do crime

No relatório operacional enviado ao MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) na última terça-feira, o Bope — tropa de elite da PM do Rio — indica que não apreendeu nenhuma arma com os mortos encontrados por moradores em uma área de mangue no Salgueiro.

O relatório também não indica a existência de mortos ou feridos durante a ação. Isso porque os policiais — treinados exaustivamente para atuar em diversos tipos de terrenos e condições — usaram fato de a área do mangue estar alagada como justificativa para não fazer uma varredura em busca de criminosos, armas ou drogas no local.

Durante a perícia no local das mortes, técnicos da Polícia Civil também não encontraram nenhum armamento. Os peritos da DHNSG (Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá) apreenderam apenas vestígios de 42 munições usadas no local. Segundo o Registro de Ocorrência, foram achados 25 estojos de munição de fuzil calibre.762, 12 estojos e um cartucho de fuzil .556. Também foram encontrados quatro estojos de calibre .9mm — usado em pistolas.

Ação empregou 75 PMs

O relatório afirma que 75 policiais participaram da operação no Complexo do Salgueiro, uma das principais comunidades da Região Metropolitana do Rio. Duas unidades fizeram apreensões de armas e drogas: as equipes Charlie e Delta.

A equipe Delta é a apontada por moradores com a responsável pelas mortes. O grupo ficou responsável pelo patrulhamento na área de mangue onde os corpos foram encontrados.

Os policiais também alegaram terem sido atacados por criminosos: "a equipe operacional ostensiva foi recebida por muitos disparos de arma de fogo de diversos elementos armados. Iniciou-se uma resposta proporcional a injusta agressão executada pelos marginais fortemente armados [sic]", diz o relatório.

Ainda segundo o Bope, só após o suposto confronto é que os policiais foram apreender armas e drogas em outro local, uma igreja perto dali. Na igreja eles dizem ter encontrado "01 Pistola HK calibre 9mm, 01 Pistola Browninng calibre 9mm, 14 munições intactas calibre 9mm, 56 munições intactas de fuzil calibre 7,62 ,03 rádios transmissores, 01 aparelho de pontaria (mira telescópica), 02 carregadores de fuzil calibre AK 47, 03 carregadores de pistola calibre 9mm, 01 uniforme camuflado, 3734 sacolés de pó branco, 3760 sacolés de materiais assemelhado ao crack, 400 tabletes de maconha (pequenos), 413 tabletes de maconha (grandes)". calibre .9mm.

O especialista em segurança pública Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), afirma que o Bope é uma tropa bem treinada, capaz de operar adequadamente em circunstâncias como as encontradas no Complexo do Salgueiro, mas questiona as autoridades do Rio sobre a adoção de medidas que ajudem na elucidação de casos como o do mangue.

"Por que a polícia do Rio até hoje não usa câmeras corporais? As imagens podem trazer as verdades dos fatos e até proteger os policiais [em casos de acusações injustas]. A gente tem visto que São Paulo tem reduzido a letalidade policial com as câmeras, por que o Rio insiste em não implantar isso?", diz, fazendo referência ao fato de o uso de câmeras ser lei no Rio desde 2009.

Alcadipani defende a necessidade de punir toda a cadeia de comando em casos de abusos,

"Se nesse caso do Salgueiro for constatado que houve excesso, não pode ser só o policial na ponta que puxou o gatilho que deve ser responsabilizado. Também tem que responsabilizar o comandante dele [no Bope], o comandante da PM e até o governador. Enquanto isso não acontecer essa política isso vai continuar", afirma.

Churrasco e mensagens em bar

Moradores relatam que PMs fizeram um churrasco antes e depois da operação do Bope nas proximidades do Complexo do Salgueiro. O endereço escolhido foi o Piscina's Bar, um estabelecimento que está fechado há meses. O evento ocorreu sem autorização dos donos.

No local, os PMs deixaram diversas inscrições com giz. Uma delas ironizava: "Obrigado pela recepção".A mensagem fazia referência à equipe Delta do Bope. "Ass: (Delta) force. Bonde dos caça siri. Variante (Delta)".

Em outro local, os policiais fizeram menções ao Bonde do Ecko, maior milícia do Rio, ao miliciano Tandera, que comanda outro grande grupo paramilitar, e ao TCP (Terceiro Comando Puro), facção rival do Comando Vermelho, que controla o Complexo do Salgueiro.

Cotidiano